Engenheiro especializado em projetos estruturais fala sobre as interfaces entre o cálculo de estrutura e a resolução de propostas arquitetônicas na realização de projetos de construção civil

PAULO BEDÊ

Formado pela Escola de Engenharia da UFMG, em 1983, tem pós-graduação em estruturas pela mesma universidade. Seu pai, Raymundo Bedê, era calculista e seus desenhos complicados e rabiscos indecifráveis fascinavam o engenheiro ainda criança. Estagiou com o pai desde o início do curso de engenharia civil e inspirou-se na postura profissional dele. Fundou a Bedê Engenharia de Estruturas há 27 anos, com atuação na elaboração de projetos estruturais, consultoria, recuperação e reforço de estruturas.

De que maneira arquitetos e engenheiros podem trabalhar juntos para uma solução plástica interessante e economicamente viável?

Atuo sempre com a perspectiva de atendimento ao produto que se pretende realizar, contando com a participação das diversas especialidades técnicas envolvidas, que devem dar a sua colaboração para essa finalidade. Para isso, o suporte do engenheiro de estruturas é fundamental na busca de soluções adequadas, coerentes com o conceito traçado pelo arquiteto e conectadas com os custos e as implicações construtivas. Isso pode parecer óbvio, mas frequentemente essa interação preliminar é negligenciada — e, quando o engenheiro de estruturas entra no processo, as questões arquitetônicas já estão evoluídas e cristalizadas em tal medida que a nossa atuação passa a ser a de fazer o possível para atender ao já estabelecido.

De que maneira o engenheiro estrutural participa do projeto de concepção do edifício? Fale sobre a interdisciplinaridade na concepção de projetos.

As características arquitetônicas cada vez mais arrojadas, como formas peculiares, ocupações complexas dos espaços, grandes vãos e elevadas alturas dos edifícios, demandam soluções estruturais específicas, que requerem ajustes mútuos. Além disso, a estrutura é o componente da edificação que interage e interfere com todos os demais sistemas. Das instalações ao paisagismo, das fachadas aos elevadores, tudo se apoia, embute, perpassa, pendura ou atravessa os elementos da estrutura. É natural, então, que aconteçam as consultas técnicas e as conciliações das demandas primárias, já nas etapas iniciais da concepção arquitetônica, com o suporte do estruturalista. Na Bedê Engenharia de Estruturas é prática corrente disponibilizar o nosso apoio técnico para as primeiras definições, o que favorece muito o desenvolvimento do projeto estrutural. O que é valioso para garantir a qualidade do projeto como um todo e alcançar os resultados esperados para o empreendi-mento. Para que isso funcione, considero fundamental uma atuação competente da equipe de coordenação de projetos, com a contratação precoce do time dos principais projetistas e consultores, que tenham como características, além da indispensável capacidade técnica, o envolvimento, o comprometimento e a disposição para encarar os exaustivos processos de integração multidisciplinar. Se alguém se dispusesse a medir, creio que chegaria à conclusão de que a energia despendida nas ações de integração e compatibilização de projetos em uma obra complexa é da mesma ordem de grandeza da empregada na efetiva elaboração do projeto estrutural. Isso pressupõe, certamente, um nível compatível de remuneração desses especialistas.

“Das instalações ao paisagismo, das fachadas aos elevadores, tudo se apoia, embute, perpassa, pendura ou atravessa os elementos da estrutura. É natural então que aconteçam as consultas técnicas e as conciliações das demandas primárias já nas etapas iniciais da concepção arquitetônica, com o suporte do estruturalista.”

A Bedê tem utilizado recursos BIM em seus projetos. De que forma aplica essa tecnologia? Quais benefícios o senhor enxerga no uso desse recurso?

Utilizamos os recursos BIM nos padrões demandados pelos nossos clientes, ou seja, um uso ainda aquém das extensas possibilidades da ferramenta. Em alguns projetos especiais em que nos envolvemos, seria muito difícil produzir o detalhamento adequado usando duas dimensões. A mera conciliação das informações em 3D já é um recurso interessante, mas desenvolver os projetos em um ambiente BIM demanda uma cadeia avançada, montada e gerida para atender ao projeto, ao planejamento e à construção.

Cite exemplos reais de mudanças que as exigências dos arquitetos podem causar em um projeto de edifício.

Como disse antes, procuramos atuar dentro de um entendimento amplo e harmônico do que foi projetado pelo arquiteto. Em grande parte das vezes, as maiores demandas de ajustes estão relacionadas a posições de pilares e altura de pé-direito livre. Em um edifício garagem em um lote de 16 m de largura propusemos, certa vez, duas linhas internas de pilares, com vão de 5 m para vaga, circulação central de 6 m e outro vão de 5 m  para vaga, conformando uma garagem perfeitamente funcional. O arquiteto, em sintonia com o que desejava o cliente, exigiu o vão livre de 16 m. Assim fizemos. Resultou em uma estrutura bem mais dispendiosa, mas uma belíssima garagem, como o arquiteto havia projetado. Dentro do possível e do estruturalmente razoável, são negociados o sistema estrutural a ser adotado e a disposição das suas peças. Quando da concepção e lançamento da estrutura, deparamos com opções que não têm uma resposta única: aceitar um pilar que cria algum desconforto arquitetônico ou fazer uma transição pesada e estruturalmente indesejável? Utilizar vigas, limitando a possibilidade de flexibilização no uso dos espaços ou adotar lajes planas? Vãos moderados com estrutura convencional ou grandes vãos com a utilização de protensão? Repito sempre que temos de buscar a estrutura adequada para cada caso. Ela não é necessariamente a de menor custo ou a estruturalmente ideal.

“Quando da concepção e lançamento da estrutura, deparamos com opções que não têm uma resposta única: aceitar um pilar que cria algum desconforto arquitetônico ou fazer uma transição pesada e estruturalmente indesejável? Utilizar vigas, limitando a possibilidade de flexibilização no uso dos espaços ou adotar lajes planas?”

Até que ponto o projeto estrutural está a serviço da arquitetura? Os arquitetos costumam extrapolar o limite do bom senso? Em que situações?

O arquiteto lê e traduz as necessidades do cliente em forma de projeto, contemplando de maneira preliminar os aspectos referentes às viabilidades técnica e financeira. A razão de ser do projeto estrutural é atender àquilo que foi concebido pelo arquiteto. Mas, como a estrutura tem um peso expressivo no custo da obra, o engenheiro de estruturas tem o importante papel de indicar os parâmetros que vão formar os custos que definem a viabilidade da solução apresentada. É natural que se busque alternativas estruturais para a redução de custos e é importante que isso seja feito contando com a participação do arquiteto. Há casos em que exigências aparentemente estranhas dos arquitetos demandam soluções estruturais trabalhosas e dispendiosas. Mas confesso que costumo ficar encantado com o resultado da obra pronta. O bom arquiteto conhece as possibilidades e sabe até onde ir.

No Brasil ainda há poucos edifícios acima dos 150 m de altura, com algumas exceções recentes. Como enxerga o cenário dos superedifícios no Brasil? É uma tendência?

A viabilidade de um edifício alto depende de muitas variáveis. Desde as questões do adensamento urbano e condições de expansão imobiliária até o intangível que representa ocupar um edifício icônico, um marco na cidade. Pelo que se vê em várias cidades brasileiras, assim como em localidades de vários países, há uma tendência pela elevação da altura dos edifícios. Os recursos de análise estrutural, a tecnologia dos materiais e os sistemas construtivos nos permitem avançar nessa direção.

“O arquiteto lê e traduz as necessidades do cliente em forma de projeto, contemplando de maneira preliminar os aspectos referentes às viabilidades técnica e financeira.”

Estruturas de aço ainda são pouco difundidas no país. Quais são os limitadores para uso do material? Acredita que esteja em expansão o uso das estruturas metálicas no Brasil? Cite exemplos da Bedê.

As estruturas de aço, de fato, ainda são pouco difundidas no país, mas vêm traçando uma inegável crescente. A tendência à industrialização das construções é um fato irreversível. No Brasil, a tradição construtiva se baseava na mão de obra “barata”, e isso não vale mais. A utilização de mão de obra intensiva apresenta questões sérias de custo, gestão, prazo e qualidade, entre outras. A conta do custo por metro quadrado de estrutura metálica é desfavorável se comparada à do custo do sistema convencional, principalmente quando se computa o maior custo inicial. Mas essa diferença tende a diminuir quando se considera o conjunto amplo dos fatores envolvidos. As soluções em estruturas mistas para edifícios altos unem a rapidez de construção e a modernidade das estruturas metálicas com a versatilidade, a rigidez, a confiabilidade e a economia do concreto armado. O sistema de estabilização através do núcleo rígido de concreto, com a utilização de pilares, lajes e vigas mistas, permite que cada material, aço estrutural e concreto, atue na condição da sua melhor competência. Esse é um sistema muito interessante para edifícios altos. O núcleo de concreto é erguido com fôrmas trepantes ou deslizantes, avançado em relação à montagem da estrutura metálica. O que imprime velocidade à execução da estrutura. Temos participado de alguns empreendimentos construídos com essa tipologia, com resultados muito positivos. Um exemplo é o edifício Concordia Corporate, inaugurado recentemente em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte. Com 172 m de altura e um programa arquitetônico complexo, a obra com estrutura metálica da Codeme cumpriu os prazos e os custos planejados.

Por Gustavo Curcio

Veja também:

ATENÇÃO ASSINANTES!

O acesso às edições mais recentes das revistas AU – Arquitetura e Urbanismo, Construção Mercado, Equipe de Obra, Infraestrutura Urbana e Téchne foi restabelecido em nossa plataforma digital.