Controle da resistência à compressão do concreto: análise comparativa entre os procedimentos propostos pela ABNT, ACI e EN

Autores

Ricardo Boni

integra o corpo técnico da PhD Engenharia Ltda. Atuou em diversos projetos na área de reforço estrutural e controle tecnológico do concreto. Engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Também é arquiteto e possui pós-graduação em Longevidade de Edificações pela Universidade Mackenzie.

Carlos Britez

é professor assistente no programa de Educação Continuada da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Sócio diretor da PhD Engenharia Ltda. Participou do comitê para revisão da norma ABNT NBR 12655:2015. Doutor em Ciências pelo Departamento de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Paulo Helene

é professor titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Conselheiro permanente e atual diretor de Relações Institucionais do Ibracon. Presidente de honra da Alconpat Internacional e membro da Rede Prevenir. Classificado com h9 no web of science (ISI), H11 no SCOPUS, h22 e i10=53 no Google Scholar.

No Brasil, atualmente, o controle da resistência à compressão do concreto é realizado de acordo com as prescrições da norma ABNT NBR 12655:2015 Concreto de cimento Portland – Preparo, controle, recebi-mento e aceitação – Procedimento, que apresenta, no subitem 6.2 “Ensaios de resistência à compressão”, os limites máximos para a formação de lotes de concreto, critérios de amostragem e os dois tipos de controle tecnológico considerados: controle estatístico por amostragem parcial e controle por amostragem total.

No controle por amostragem parcial as amostras são coletadas aleatoriamente de betonadas distintas, respeitando a quantidade mínima de exemplares (conforme os grupos e classes de resistência do concreto) para posterior determinação do fck,est por meio de ex-pressões matemáticas (com funda-mento estatístico) denominadas estimadores. Essas expressões levam em conta, no caso de amostras com número de exemplares compreendidos entre 6 ≤ n ˂≥ 20, os menores resultados obtidos e, para amostras com 20 ou mais exemplares (n ≥ 20), a resistência média (fcm) e o desvio padrão de produção e ensaio efetivo, denominado na norma como sd.

Além disso, no controle por amostragem parcial, o valor de fck,est obtido deve ser comparado com os valores mínimos admitidos (determinados em função da condição de preparo do concreto e do número de exemplares). Consideram-se ainda alguns casos excepcionais: concretos produzidos por betonadas de pequeno volume e amostras compostas por número de exemplares compreendidos entre 2 ≤ n ≤ 5.

Ressalta-se que, no Brasil, o controle por amostragem parcial é comumente empregado em fábricas de pré-moldados de concreto (lajes alveolares, vigas, pilares, dormentes etc.), devido, principalmente, à dinâmica de produção, à repetibilidade das peças e ao elevado número de betonadas envolvidas, sendo menos suscetível seu emprego em obras de arte ou de edificações construídas por concretagem in loco.

Quanto ao controle por amostragem total (100%), todas as betonadas são amostradas e a resistência característica à compressão do concreto estimada (fck,est) é dada pelo valor da resistência à compressão do exemplar de cada betonada, uma vez que a amostra, neste caso de 100%, confunde-se com a população. Trata-se de um controle largamente utilizado no Brasil em obras de edifícios comerciais e residenciais de múltiplos pavimentos desde a vigência da ABNT NB-1 de 1978.

Conforme estabelecido no subitem 6.2.2 “Amostragem” da norma ABNT NBR 12655:2015, cada exemplar deve ser constituído por dois corpos de prova da mesma amassada e moldados no mesmo ato. A resistência do exemplar, para uma determinada idade de ruptura, é a maior dentre os dois valores obtidos no ensaio de resistência à compressão.

O controle da resistência à compressão do concreto das estruturas de edificação e de obras de arte é parte integrante da introdução da segurança no projeto estrutural, sendo indispensável sua permanente comprovação ao longo da execução da estrutura (Pacheco & Helene, 2013), bem como a sua respectiva rastreabilidade por meio do adequado mapeamento do lançamento do concreto.

Neste trabalho estão apresentados  os resultados obtidos durante o  controle de resistência à compressão do concreto realizado por  mostragem total à luz da ABNT NBR 12655, bem como análises comparativas com o controle proposto pela norma americana ACI 318-14 “Building Code Requirements for Structural Concrete” e pela norma europeia EN-206:2013 “Concrete – Specification, performance, production and conformity”. Para tanto, foi analisado um traço de concreto fck = 40 MPa, autoadensável com classe de espalhamento SF 2 (slump-flow de 660 mm a 750 mm), conforme classificação da ABNT NBR 15823:2010 “Concreto autoadensável. Parte 1: Classificação, controle e aceitação no estado fresco”, produzido em uma única central dosadora  durante um período de 2 anos e 9 meses e aplicado nas estruturas de concreto armado de uma torre comercial e 2 (duas) corporativas, com 24 a 36 pavimentos, de um empreendimento de grande porte localizado na cidade de São Paulo.

2. CONTEXTUALIZAÇÃO E PREMISSAS

2.1 Características do concreto e particularidades da produção

Com base nas diretrizes do método  de dosagem Ibracon (Tutikian & Helene, 2011), nas especificações de projeto, insumos disponíveis, condições e particularidades do canteiro de obras do empreendimento foi realizado um extenso estudo de dosagem racional e experimental para elaboração de um traço de concreto autoadensável com fck = 40 MPa. Este estudo foi desenvolvido em conformidade com as normas ABNT NBR 12655 e ABNT NBR 15823

Considerando todos os aspectos mencionados, obteve-se o traço detalhado na Tabela 1.

Precedentemente ao emprego do traço, foi realizado um evento de concretagem protótipo para avaliar o comportamento do concreto estudado em laboratório, nas condições de obra. Na oportunidade, observou-se em campo que a quantidade de aditivo superplastificante poderia ser reduzida em até 30%, em virtude da maior energia de mistura do caminhão betoneira e das condições climáticas favoráveis.

A Figura 1 apresenta o aspecto visual do concreto em questão, em seu estado fresco, observado durante a execução do ensaio de espalhamento para determinação da fluidez (slumpflow test), realizado durante o evento de concretagem protótipo.

Tendo em vista os resultados satisfatórios obtidos para o traço tanto no laboratório quanto no evento protótipo em campo, esse traço foi adotado para a produção regular, tendo sido adequado durante todo o período de quase 3 anos, considerado neste estudo.

A produção do concreto foi realizada em central dosadora estacionária provida de sistema de carregamento automatizado, baias e ponto de carga cobertos, balanças e hidrômetros aferidos mensalmente (inclusive os hidrômetros localizados nos locais denominados redosadores) e disponibilidade de seis caminhões betoneira. A central dosadora estacionária de concreto se localizava no interior do canteiro de obras e produziu concreto única e exclusivamente para o empreendimento em questão, com capacidade de produção de até 70 m/hora.

Quanto aos procedimentos de carga, britas, areias, cimento, água e aditivo polifuncional eram adicionados no ponto de carga da central, e a sílica ativa era colocada na esteira rolante diretamente sobre os agregados, visando assegurar melhor homogeneização da mistura final, que era realizada no balão do caminhão betoneira.

A umidade dos agregados miúdos era determinada 3 vezes ao dia, no mínimo, através da utilização do frasco de Chapman (ABNT NBR 9775:2011 “Agregado Miúdo – Determinação do teor de umidade superficial por meio do frasco de Chapman – Método de ensaio”). A umidade obtida era lançada no software do sistema de balança da central dosadora, que efetuava automaticamente as correções necessárias.

Após carregamento do concreto, era adicionado, no redosador da central dosadora, o aditivo superplastificante. Essa adição era procedida em volume, por profissional treinado por meio da utilização de baldes graduados. Em algumas oportunidades, houve o emprego de 100% de gelo em substituição à água de amassamento desse traço (caso de concretagens de elementos de fundação de grandes volumes). Tanto na adição de gelo, quanto na de aditivo superplastificante e sílica ativa havia o controle das quantidades adicionadas, mediante acompanhamento de profissionais extras contratados junto ao laboratório responsável pelo controle da resistência à compressão do concreto (contagem dos sacos de gelo, de sílica e verificação do volume de aditivo).

Importante registrar que, uma vez fora da central dosadora, não era permitido adicionar água ao concreto, em hipótese alguma. Caso houvesse necessidade de correção do espalhamento, era empregado o aditivo superplastificante (adicionado, eventualmente, em canteiro de obras por profissional treinado após autorização do responsável e somente para correção da fluidez do concreto fresco).

Nesse contexto, o concreto foi fornecido sempre com o mesmo traço, pela mesma central dosadora durante um período de 2 anos e 9 meses. No total, foram gerados, com este traço, aproximadamente 1.600 caminhões betoneira com, no máximo, 8 m3 cada, totalizando cerca de 12.000 m3 de concreto, ou seja, em média 360 m3/mês.

2.2 Plano de controle da resistência adotado

O controle de resistência à compressão do concreto foi realizado por amostragem total, respeitando as prescrições da norma ABNT NBR 12655 por Laboratório acreditado pelo Inmetro pertencente à Rede Brasileira de Laboratório de Ensaios (RBLE), que utilizou laboratoristas qualificados e certificados pelo Ibracon através de seu Núcleo de Qualificação e Certificação de Pessoal (NQCP).

O plano de controle da resistência do concreto adotado durante todo o processo de produção consistia na moldagem de 4 (quatro) corpos de prova cilíndricos com diâmetro de 10 cm e altura de 20 cm para cada um dos caminhões betoneira, sendo 1 (um) para ensaio de resistência à compressão aos 7 dias, 2 (dois) para 28 dias e 1 (um) para 63 dias de idade.

Os corpos de prova foram moldados em fôrmas metálicas em local plano, protegido das intempéries e, posteriormente (após desforma entre 24 h e 36 h), transportados em caixas de areia seca até a central do laboratório de controle tecnológico, localizado a uma distância de aproximadamente 15 km do canteiro de obras, para sazonamento e ensaio. Estes foram armazenados em câmara úmida, tiveram seus topos preparados por meio de retificação e foram ensaiados em prensas calibradas periodicamente, em conformidade com as normas ABNT NBR 5738:2015 “Concreto – Procedimento para moldagem e cura de corpos de prova” e ABNT NBR 5739:2007 “Concreto – Ensaio de compressão de corpos de prova cilíndricos”.

3. RESULTADOS

3.1 Apresentação dos resultados de resistência à compressão à luz da ABNT

A resistência à compressão de cada um dos exemplares foi determinada após ruptura dos corpos de prova, conforme prescrições da norma ABNT NBR 5739.

Na Figura 2 está apresentada a carta de valores individuais das resistências à compressão do concreto aos 28 dias de idade, o histograma e a distribuição normal correspondente. Nesta carta, o eixo das abscissas, apresenta os exemplares em ordem cronológica, e o eixo das ordenadas, os valores de resistência à compressão de cada um dos exemplares [a maior resistência obtida na ruptura de 2 (dois) corpos de prova irmãos, conforme estabelecido na ABNT NBR 12655].

A carta apresenta cerca de 1.600 resultados de resistência à compressão, obtidos ao longo de 2 anos e 9 meses. Esses resultados variaram de 36,6 MPa a 80,1 MPa, com média de 58,6 MPa, sendo o menor valor obtido equivalente a 0,91*fck. Foram constatados 11 (onze) resultados abaixo da resistência especificada em projeto (fck = 40 MPa), ou seja, cerca de 0,7% do total de caminhões. Em uma distribuição normal (curva de Gauss) o quantil de defeituosos corresponderia a um coeficiente de 2,46.

A variabilidade da resistência à compressão de um mesmo traço de concreto pode oscilar em torno de diferentes valores, pois no decorrer do processo produtivo ocorrem mudanças de centragem, principalmente devido a diferentes partidas de cimento e agregados.

Considerando o conceito de resistência característica do concreto descrito no subitem 12.2 “Valores característicos” da norma ABNT NBR 6118:2014 “Projeto de estruturas de concreto – Procedimento”, o valor da resistência à compressão desse concreto, obtido diretamente da população, seria de fck,5% = 46,5 MPa. O desvio padrão das operações de produção e ensaio obtido foi sc = 6,6 MPa e o coeficiente de variação Vc = 11,2%.

Ainda, a resistência característica desse concreto adaptada do critério de amostragem parcial da ABNT NBR 12655 seria de fck,est = fcm – 1,65*sc = 47,7 MPa, apesar que, neste caso, trata-se apenas de uma especulação matemática, pois o critério efetivo a ser utilizado deve ser o de amostragem total a 100%.

3.2 Avaliação do controle do processo de produção

De acordo com o item 7 “Análise do processo” da ABNT NBR 7212:2012 “Execução de concreto dosado em central – Procedimento”, a avaliação do controle do processo deve ser realizada com base no desvio-padrão, conforme apresentado na Tabela 2.

Dessa forma, por meio da análise do desvio-padrão e dos critérios preconizados pela ABNT NBR 7212:2012, trata-se de uma Central Nível 4.

Ainda, de acordo com os parâmetros estabelecidos atualmente pela ABNT NBR 12655, esse desvio-padrão da produção é elevado e não compatível com produção de concreto em usina, classe A. Por outro lado, a norma ABNT NB-1 de 1960 considerava que a produção de concreto com desvio-padrão igual ou inferior a 15% devia ser classificada como produção rigorosa, ou seja, corresponderia à melhor classificação na época.

Segundo o ACI 214 subitem 4.5 “Standards of control”, para concretos de fck ≥ 35 MPa (caso em questão), o coeficiente de variação (Vc) é o parâmetro que deve ser usado para qualificar ou classificar o rigor de produção do concreto, conforme apresentado na Tabela 3. Nesse caso a produção pode ser classificada com rigor bom/razoável.

3.3 A influência das operações de ensaio e controle

Os resultados de resistência à compressão aos 28 dias de idade disponibilizados foram analisados, do ponto de vista da influência das ope-rações de ensaio e controle, de acordo com os critérios recomendados pelo American Concrete Institute no ACI-214R-11 “Guide to Evaluation of Strength Test Results of Concrete”.

Essa metodologia consiste no cálculo do desvio padrão e do coeficiente de variação devido às operações de ensaio e controle, tendo como base o resultado de resistência à compressão de corpos de prova e posterior comparação com os critérios de controles sugeridos no Capítulo 4 “Analysis of Strength Data”, que estabelece o seguinte:

a) Cálculo do desvio-padrão das operações de ensaio e controle:

onde:

• se: desvio-padrão das operações de ensaio em MPa;

• n: número de exemplares considerados compostos de p corpos de prova (nunca inferior a 10 exemplares);

• A: diferença entre o maior e o menor resultado de corpos de prova que representam um mesmo exemplar;

• d2: coeficiente que depende do número p de corpos de prova representativos de um mesmo exemplar, conforme Tabela 4.

b) Cálculo do coeficiente de variação ou variabilidade das operações de ensaio e controle:

onde:

• se: desvio padrão das operações de ensaio em MPa (valor obtido no item a);

• Ve: coeficiente de variação devi-do às operações de ensaio e controle (%);

• fcmj: média de todos os resultados utilizados, a j dias de idade, em MPa.

c) Determinação do Padrão de Controle, conforme Tabela 5.

Considerando a diferença de resistência à compressão entre os 2 (dois) corpos de prova irmãos rompidos aos 28 dias de idade, os resultados obtidos ao longo de todo o período de produção do concreto indicaram desvio padrão das operações de ensaio e controle (se) variando de 0,6 MPa a 1,0 MPa e coeficiente de variação devido às operações de ensaio e controle (Ve) entre 1,1% a 1,6%.

Sendo assim, conforme os limites preconizados pelo ACI 214, todos os resultados apontaram para um padrão de controle das operações de ensaio, em canteiro de obra, excelente. Observa-se, por outro lado, que os resultados obtidos são mais rigorosos que os ensaios realizados em pesquisas experimentais conduzidas em laboratório, o que não é comum.

3.4 Análise comparativa entre os métodos de controle propostos pela ABNT e ACI

Conforme detalhado anteriormente, o controle da resistência à compressão do concreto foi realizado por amostragem total, de acordo com as prescrições da norma ABNT NBR 12655. Entretanto, quando os valores de resistência à compressão dessa mesma produção de concreto são analisados à luz do ACI 318, o julgamento do processo não coincide. Isso se justifica devido ao fato dos procedimentos de amostragem, bem como os critérios de aceitação prescritos pelo ACI serem distintos do modelo adotado pela ABNT.

Quanto à amostragem, o ACI 318 no item 26.12 “Concrete evaluation and acceptance” recomenda como critérios mínimos:

• um exemplar por dia de concretagem;

• um exemplar para cada 115 m3 de concreto produzido;

• um exemplar para cada 465 m2 de área superficial para lajes ou paredes;

• o controle para volumes inferiores a 38 m3 é dispensado, desde que exista carta de traço aprovada.

Ainda de acordo com o ACI 318, o valor da resistência à compressão de cada um dos exemplares é determinado pela média aritmética simples dos resultados obtidos. Conforme ASTM C39-16b “Standard Test Method for Compressive Strength of Cylindrical Concrete Specimens”, caso os valores individuais dos corpos de prova irmãos difiram de mais de 8%, os resultados são inadequados e o ensaio deveria ser repetido. O ACI 318, assim como a ABNT NBR 12655 e a norma europeia EN-206:2013 “Concrete – Specification, performance, production and conformity”, também considera que de cada betonada moldada é obtido apenas 1(um) valor de resistência à compressão.

O ACI 318 prescreve os seguintes critérios de aceitação e conformidade:

• para fck ≤ 35 MPa, nenhum resultado individual deve ser inferior a fck – 3,5 MPa;

• para fck > 35 MPa (caso em questão), nenhum resultado individual pode ser inferior à 0,9*fck;

• a média móvel de quaisquer 3 (três) resultados consecutivos deve ser igual ou superior a resistência característica definida em projeto (fck).

Dessa forma, a fim de realizar uma análise comparativa entre os controles efetuados pela ABNT e ACI, todos os valores de resistência à compressão obtidos aos 28 dias de idade também foram tratados e organizados de acordo com os critérios de amostragem e aceitação propostos pelo ACI 318, conforme apresentado adiante.

Considerando o critério mínimo de amostragem proposto pelo ACI de um exemplar a cada 115m3 de concreto (ou seja, uma moldagem de corpos de prova a cada 14 caminhões betoneira de 8m3), tornou-se possível analisar inúmeras combinações de resultados, uma vez que foram moldados corpos de prova para todos os caminhões betoneira (população). Sendo assim, para estudar todas as possibilidades, foram determinadas as envoltórias dos valores individuais e da média móvel de 3 (três) resultados consecutivos (valores máximos e mínimos assumidos).

Conforme critério preconizado pelo ACI 318, todos os valores individuais devem ser maiores que 36 MPa (0,9*fck). Observa-se na Figura 3 (envoltória dos valores individuais) que, diante de todas as possibilidades, nenhum valor é menor que 36 MPa (salienta-se que o menor valor médio individual registrado foi de 36,2 MPa). Logo, esse critério de aceitação foi sempre atendido.

Ainda de acordo com o ACI, para garantir a aceitação do concreto, deve-se efetuar outro tipo de análise. Na Fig. 4 está apresentada a envoltória da média móvel ao longo de todo o período de produção [valores máximos e mínimos de quaisquer 3 (três) resultados consecutivos]. Nota-se que em nenhum caso a média móvel foi inferior à resistência característica definida em projeto (40 MPa). O menor valor registrado foi de 40,1 MPa. Sendo assim, seja qual for a combinação de resultados considerada, esse critério de aceitação também foi sempre atendido.

Portanto, considerando o cenário mais desfavorável possível, se o controle tecnológico do concreto fosse realizado à luz do ACI 318, não existiriam não conformidades, uma vez que ambos os critérios (valores individuais e média móvel) sempre foram atendidos simultaneamente.

3.4 Análise comparativa entre os métodos de controle propostos pela ABNT e ACI

Assim como a norma americana, a metodologia europeia EN 206 estabelece 2 (dois) critérios para análise da conformidade da resistência à compressão do concreto: critério para resultados individuais e critério para resultados médios.

No caso da análise por meio do critério individual, cada resultado deve satisfazer a seguinte condição: todo e qualquer valor individual deve ser ≥ fck – 4 MPa.

Quanto ao critério para resistências médias, a norma em questão permite que a resistência à compressão seja avaliada por um dos seguintes métodos:

  • método A ou controle da produção inicial. Neste caso, a resistência média de 3 (três) resultados consecutivos deve ser ≥ fck + 4 MPa, sendo que os critérios de conformidade foram desenvolvidos com base em resultados de ensaio não sobrepostos. Logo, a aplicação de critérios de sobreposição de resultados (média móvel de resultados consecutivos) aumenta o risco de rejeição;
  • método B ou controle de produção contínua. Trata-se de uma opção quando os critérios de produção contínua são estabelecidos, ou seja, quando pelo menos 35 (trinta e cinco) resultados de ensaios estão disponíveis em um período de 3 (três) meses. De acordo com este método, a média de 15 (quinze) ou mais resultados consecutivos [disponibilizados em um período não superior a 3 (três) meses] deve ser ≥ fck + 1,48*Σ(adotando-se como Σ o desvio padrão determinado no final do controle de início de produção).

A EN 206 ainda permite que a conformidade da resistência à compressão do concreto seja avaliada pelo emprego de gráficos de controle (método C), desde que as condições de produção contínua estejam estabeleci das e que esta seja certificada por terceiros, o que não é o caso desse estudo.

Quanto à formação dos lotes, quando a produção contínua é realizada em centrais de concretos com certificação de controle de produção, as amostras devem ser retiradas a cada 200 m3 (ou uma a cada 3 dias de produção). Se a produção de concreto não possuir certificação de controle de produção (caso em questão), as amostras devem ser retiradas a cada 150 m3 (ou uma por dia de produção). Importante: nos primeiros 50 m3 de produção devem ser retiradas 3 (três) amostras, no mínimo.

É válido registrar que essa norma permite como resultado de um exemplar o valor obtido de um único corpo de prova ou, no caso de mais rupturas, o resultado é definido como o valor médio. Os resultados individuais que se afastarem mais de 15% do valor da média devem ser desconsiderados.

Sendo assim, analogamente ao caso discutido anteriormente (ACI), uma vez que foram moldados corpos de prova para todos os caminhões betoneira (população), no caso da EN também foi possível efetuar uma análise considerando inúmeras combinações de resultados.

De acordo com o critério mínimo de amostragem proposto pela EN de 3 (três) exemplares nos primeiros 50 m3 de produção e, posteriormente, 1 (um) exemplar a cada 150 m3 de concreto (ou seja, uma moldagem de corpos de prova a cada 18 caminhões betoneira de 8 m3), obteve-se a envoltória de valores individuais apresentada na Figura 5.

Nota-se que, durante o período de produção, o critério de valores individuais preconizado no subi-tem 8.2.1.3.1 “Criteria for individual results”, da EN 206:2013, foi atendido em todos os casos. Novamente, vale lembrar que o menor valor de resistência à compressão obtido nesse período foi de 36,2 MPa, considerando a média dentre 2 (dois) corpos de prova.

Quanto à análise dos resultados médios, de forma a contemplar todas as possibilidades, considerou-se a envoltória dos valores médios de 3 (três) resultados consecutivos não sobrepostos, conforme evidenciado na Figura 6.

Vale registrar que, assim como no caso da curva dos valores individuais, a curva de valores médios obtida durante todo o período de produção sempre atendeu às exigências estabelecidas no subitem 8.2.1.3.2 “Criteria for mean results” da EN 206:2013. Neste caso, o menor valor obtido foi de 44,1 MPa, ou seja, superior ao critério ≥ fck + 4 MPa = 44 MPa.

4. CONCLUSÕES

O controle de resistência à compressão do concreto preconizado pela normalização brasileira é muito rigoroso e o mais seguro. A amostragem é total a 100% (população) e os resultados são analisados individualmente, sem tolerâncias, ou seja, todo e qualquer valor de resistência que esteja inferior à especificação de projeto será considerado não conforme, por menor que seja a diferença. Entretanto, apesar de muito seguro, trata-se de um controle oneroso, pois envolve moldagem, manuseio, transporte, cura, retificação e ruptura de muitos corpos de prova do concreto de todos os caminhões betoneira recebidos em obra (controle por amostragem total).

Nota-se que a metodologia de controle prescrita pelo ACI 318 e EN 206 é muito mais branda, quando comparada aos critérios da norma brasileira. Nestas normas o controle não é realizado por amostragem total, são estabelecidas tolerâncias para os valores individuais de resistência à compressão e, além disso, também se aplica o conceito da média de resultados consecutivos como critério de aceitação.

Na opinião dos autores deste artigo os critérios de aceitação e conformidade preconizados pela ABNT NBR 12655 são exigentes e caberia flexibilizar o valor de resultados individuais dentro de uma margem de até 0,9*fck. Por outro lado, o critério de amostragem adotado no Brasil se coloca a favor da segurança e na opinião destes autores, apesar de oneroso, deve ser mantido como está.

Neste estudo de caso, os resultados obtidos por meio do controle tecnológico prescrito pela ABNT NBR 12655 apontaram para um índice de não conformidade relacionado com a resistência à compressão do concreto de 11 vezes em aproximadamente 1.600 caminhões betoneira (0,7%). Essa não conformidade pouco importante gerou desgastes e revisões de projeto absolutamente desnecessários. Em contrapartida, os mesmos resultados, quando analisados à luz das metodologias prescritas pelo ACI 318 e EN 206 , indicaram um índice de não conformidade nulo.

Adotar a flexibilização e aceitar alguns poucos valores individuais de até 0,9*fck como conformes certamente impactaria de maneira positiva no processo de produção, minimizando possíveis custos, retrabalhos, revisões de projeto, atrasos em cronogramas de obra e desgastes desnecessários entre os intervenientes da cadeia produtiva do concreto, sem comprometimento da segurança, da durabilidade e da qualidade final das estruturas de concreto.

BIBLIOGRAFIA

ABNT NBR 12655, Concreto de cimento Portland – Preparo, controle, recebimento e aceitação – Procedimento, Associação Brasileira de Normas Técnicas. 2015. p. 23.

ABNT NBR 6118, Projeto de estruturas de concreto – Procedimento, Associação Brasileira de Normas Técnicas. 2014. p. 238.

ACI 214R-11, Guide to Evaluation of Strength Test Results of Concrete, American Concrete Institute. 2011. p. 16.

ACI 318-14, Building Code Requirements for Structural Concrete, American Concrete Institute. 2014. p. 524.

ASTM 39-16b, Standard Test Method for Compressive Strength of Cylindrical Concrete Specimens, ASTM International. 2016. p. 7.

SEN 206, Concrete – Specification, performance, production and conformity, European Committee for Standardization. 2013. p. 93.

Pacheco J. & Helene P, Controle da resistência do concreto – 1a Parte, Revista Concreto e Construções. 2013. n. 69, pp 75 – 81.

Pacheco J. & Helene P, Controle da resistência do concreto – 2a Parte, Revista Concreto e Construções. 2013. n. 70, pp 90 – 98.

Pacheco J. & Helene P, Dosagem dos Concretos de Cimento Portland. In: Geraldo C. Isaia (Org). Concreto: Ciência e Tecnologia. 2011. 1 ed. São Paulo: Ibracon, v. 1, pp 415 – 451.4

Veja também: