Análise de resistência à tração de revestimento externo de argamassa inorgânica – um estudo de caso

Autora:
Arqª Marina Guerreiro Vargas de Oliveira

Orientador:
Profº Adalberto José Monteiro Júnior

O presente artigo verifica a amplitude da falta de aderência de revestimentos argamassados inorgânicos na fachada de um condomínio vertical residencial. O método de pesquisa adotado foi o estudo de caso, estando o escopo restrito aos ensaios tecnológicos preconizados pela NBR 13.528 – Revestimento de paredes de argamassas inorgânicas – Determinação da resistência de aderência à tração. O estudo permitiu a análise crítica da estratégia corrente para determinação da amplitude da referida inconformidade, obtida através de equipamento especializado eis que imperceptíveis a olho nu. Os testes à percussão demonstraram as superfícies de ruptura e, assim, pode-se determinar qual a camada responsável pela perda da aderência ou do desempenho quando a tensão de ruptura for inferior a 0,3 MPa. Contudo, foi observado que as argamassas inorgânicas ensaiadas apresentam comportamentos distintos segundo seu substrato, indicando não estarem aderidas sobre a estrutura de concreto armado, isto é, atendendo à respectiva aderência preconizada pela ABNT nas alvenarias de vedação em blocos cerâmicos.

Introdução

O sistema de revestimento é responsável pelo acabamento final de uma edificação, sendo o que se apresenta mais visível, com a finalidade principal de proteção das paredes, pisos e forros. O revestimento também cumpre a função estética relacionada ao conforto visual, vindo a constituir um elemento de valorização no empreendimento. Para tanto, há uma diversidade grande de materiais, dentre os quais estão a argamassa, o gesso, as resinas, a cerâmica, a madeira, o metal, o plástico, o vidro, o papel, a pedra e outros. A escolha do tipo de revestimento depende, dentre outros fatores, da atmosfera local, do ambiente – se interno ou externo – das condições de utilização e do tipo de base – se metálica, de madeira, cimentícia, cerâmica ou outra (SARAIVA; BAUER; BEZZERA, 2002; SIQUEIRA et al, 2009).

Uma das características mais importantes das argamassas é a sua capacidade de manter-se aderida ao substrato, seja no assentamento, com a finalidade de unir elementos em alvenarias, ou em revestimentos, mesmo diante de movimentações diferenciadas, choques térmicos, impactos e outras solicitações. As argamassas de revestimento classicamente sempre foram constituídas de duas camadas: a mais espessa, colocada sobre o substrato, denominada emboço, e outra de menor espessura, denominada reboco, esta segunda com finalidade de promover o acabamento do sistema através de uma textura mais lisa, sualmente com areia fina (RECENA, 2008 apud PETERSEN, 2014).

O mecanismo de aderência entre os revestimentos de argamassa e substratos porosos essencialmente mecânico decorre da penetração de aglomerantes nos poros e cavidades da base. Uma forma de melhorar a capacidade de aderência da argamassa aplicada ao substrato é a execução de tratamentos na base, com objetivo de aumentar a rugosidade superficial e uniformizar a absorção de água. O chapisco é o prétratamento mais usual e conhecido, eis que promove s resultados de aderência no revestimento aplicado, cabendo salientar a existência de novos produtos do mercado, tais como as resinas sintéticas, que modificam as características do chapisco convencional para melhorar sua capacidade de aderência (SCARTEZINI et al, 2002).

Segundo a ABNT (2005), a argamassa é uma mistura homogênea de agregado miúdo, aglomerante inorgânico e água, contendo ou não aditivos, com propriedades de aderência e endurecimento, podendo ser utilizada em assentamento e revestimento de paredes e tetos, bem como se aplica a argamassa industrializada, dosada em central e preparada em obra e/ou central. Se dividem em três tipos: para assentamento de alvenaria de vedação, para assentamento de alvenaria estrutural e para complementação de alvenaria (encunhamento).

O sistema de revestimento escolhido para este estudo é de argamassas inorgânicas aplicadas de forma manual em paredes externas de condomínio vertical residencial habitado, que apresenta desplacamento no revestimento. Busca-se investigar a amplitude desta inconformidade no revestimento através de ensaio normatizado pela NBR 13.528 Revestimento de paredes de argamassas inorgânicas – Determinação da resistência de aderência à tração, para identificar a camada responsável pela perda da aderência ou do desempenho quando a tensão de ruptura for inferior a 0,3 MPa. O objetivo é verificar a amplitude do comprometimento do revestimento das fachadas, isto é, se integral ou parcial, eis que a solidez do sistema é imprescindível, pois eventual
desprendimento e queda desse revestimento da fachada pode causar sinistros com sérios danos materiais ou ferimentos de transeuntes no entorno do prédio,
bem como pelo fato de os custos para realização de reparos estarem vinculados à área efetivamente atingida.

Foram procedidos três ensaios, na fachada leste (no 8o e 4o pavimento) e na fachada oeste (no 3o pavimento), todos esses em regiões próximas às que apresentaram desprendimento parcial do revestimento argamassado.

Figura 1. Exemplo de encaixe e peças constituintes do sistema de acoplamento do equipamento

Resistência à tração

Os ensaios de aderência são realizados nas superfícies dos revestimentos onde se deseja conhecer a sua resistência ao arrancamento ou para estimar a sua vida útil em sistemas mais antigos mesmo que não apresentem quaisquer anomalias aparentes. A determinação da resistência é obtida através de equipamento especializado (Figura 1), constituído de mecanismo de precisão acoplado a dinamômetro para medição do esforço de tração sobre pastilha metálica fortemente colada com mistura epóxi no revestimento a ser ensaiado.

A determinação da resistência de aderência à tração de revestimentos de argamassa aplicados em obra ou laboratório, sobre substratos inorgânicos não metálicos, permite com o uso de equipamento a aplicação contínua de carga, dotado de dispositivo para leitura desta carga, que apresente um erro máximo de 2% (ABNT, 2010).

Os demais equipamentos utilizados neste ensaio são a pastilha metálica, o dispositivo de corte (serra copo), um paquímetro para medição da espessura do revestimento, cola e material de sustentação das pastilhas (ABNT, 2010).

Cada ensaio é composto de 12 corpos de prova de mesmas características (tipo e preparo do substrato, argamassa de revestimento, forma de aplicação da argamassa, idade do revestimento) com seção circular de diâmetro médio de 50 mm, preparados no dia do ensaio, cortados a seco com serra copo diamantada em profundidade além da argamassa de aproximadamente 2 mm no substrato (Figura 2). A colagem das pastilhas é realizada por meio de cola epóxi de secagem rápida e o equipamento de tração empregado é do tipo digital (Figura 1), com taxa de carregamento aproximada de 50 N/s, e distribuição dos corpos de prova conforme Figura 3. Ao se analisar os resultados obtidos no ensaio, nos termos da Figura 4, tem-se que, no caso das rupturas na interface do substrato/chapisco (B) ou chapisco/argamassa (D), o valor da resistência de aderência à tração é igual ao valor obtido no ensaio. Quando a ruptura do corpo de prova não ocorre totalmente na interface substrato/revestimento (situações (A) – substrato, (C) – chapisco, (E) – camada de argamassa ou (F) – superficial), considera-se que o valor da resistência à tração não foi determinado e que a aderência do revestimento à base é maior do que o valor encontrado, portanto o resultado do ensaio será precedido do sinal > (maior). O resultado deverá ser desprezado quando a ruptura ocorrer na interface cola/pastilha (G), pois indicaria imperfeições na colagem das mesmas. Ocorrendo diferentes formas de ruptura, no mesmo corpo de prova, deve-se anotar a porcentagem aproximada da área de cada uma (ABNT, 2010).

Uma vez realizado o ensaio de arrancamento, existem sete possíveis formas de ruptura que são ilustradas na Figura 4.

Figura 2. Delimitação do corpo de prova de revestimento pelo corte
Figura 3. Distribuição dos corpos de prova
Figura 4. Possíveis formas de ruptura

Resultados

a. 1º Ensaio – fachada leste – 4º pavimento

A partir dos 12 corpos de prova ensaiados no local (Figuras 5 a 16) e utilizando-se dos equipamentos escritos no referencial teórico, torna-se possível a elaboração da Tabela 1.

Figura 5, 6 e 7. Correspondem aos corpos de prova 1, 2 e 3, respectivamente
Figura 8, 9 e 10. Correspondem aos corpos de prova 4, 5 e 6, respectivamente
Figura 11, 12 e 13. Correspondem aos corpos de prova 7, 8 e 9, respectivamente
Figura 14, 15 e 16. Correspondem aos corpos de prova 10, 11 e 12, respectivamente

b. 2º Ensaio – fachada oeste – 2º pavimento

A partir dos 12 corpos de prova ensaiados no local (Figuras 17 a 28) e utilizando-se dos equipamentos descritos no referencial teórico, torna-se possível a elaboração da Tabela 2.

Figura 17, 18 e 19. Correspondem aos corpos de prova 1, 2 e 3, respectivamente
Figura 20, 21 e 22. Correspondem aos corpos de prova 4, 5 e 6, respectivamente
Figura 23, 24 e 25. Correspondem aos corpos de prova 7, 8 e 9, respectivamente
Figura 26, 27 e 28. Correspondem aos corpos de prova 10, 11 e 12, respectivamente

c. 3º Ensaio – fachada leste – 3º pavimento

A partir dos 12 corpos de prova ensaiados no local (Figuras 29 a 40) e utilizando-se dos equipamentos descritos no referencial teórico, torna-se possível a elaboração da Tabela 3.

Figura 29, 30 e 31. Correspondem aos corpos de prova 1, 2 e 3, respectivamente
Figura 32, 33 e 34. Correspondem aos corpos de prova 4, 5 e 6, respectivamente
Figura 35, 36 e 37. Correspondem aos corpos de prova 7, 8 e 9, respectivamente
Figura 38, 39 e 40. Correspondem aos corpos de prova 10, 11 e 12, respectivamente

Considerações finais

Conclui-se que o desplacamento do revestimento de argamassa inorgânica das fachadas do condomínio vertical residencial, habitado, possui risco de queda em outras regiões ainda remanescentes na fachada. Foi observado que as argamassas inorgânicas ensaiadas apresentam comportamentos distintos segundo seu substrato, indicando não estarem aderidas sobre a estrutura de concreto armado, isto é, atendendo à respectiva aderência normativa nas alvenarias de vedação em blocos cerâmicos, conforme tabelas apresentadas.

A pesquisa concluiu que a referida inconformidade está relacionada ao não atendimento da normativa aplicável, podendo estar relacionado, também, a problemas na execução das bases, onde os revestimentos argamassados tenham sido aplicados com falta de procedimentos de limpeza.

Desse modo, com base nos ensaios tecnológicos realizados no local e vistorias, é possível concluir que:

a) O primeiro ensaio não atende à NBR 13.528/2010, pois apenas sete dos 12 corpos de prova ensaiados possuem resistência à tração igual ou superior a 0,30 MPa (NBR 13.749/2013). A região predominante de ruptura possui classificação (D) da Figura 4, isto é, na interface chapisco/ argamassa;

b) O primeiro ensaio não atende à NBR 13.749/2013, eis que a espessura admitida de revestimento externo é de 20 mm a 30 mm, tendo apenas três corpos de prova apresentado uma dimensão dentro do intervalo preconizado;

c) O segundo ensaio atende à NBR 13.528/2010, pois 11 dos 12 corpos de prova ensaiados possuem resistência à tração igual ou superior a 0,30 MPa (NBR 13.749/2013). A região predominante de ruptura possui classificação (D) da Figura 4, isto é, na interface chapisco/argamassa;

d) O segundo ensaio não atende à NBR 13.749/2013, eis que a espessura admitida de revestimento externo é de 20 mm a 30 mm, tendo todos os corpos de prova apresentado uma dimensão superior ao intervalo sugerido;

e) O terceiro ensaio não atende à NBR 13.528/2010, pois apenas dois dos 12 corpos de prova ensaiados possuem resistência à tração igual ou superior a 0,30 MPa (NBR 13.749/2013). A região predominante de ruptura possui classificação (B) da Figura 4, isto é, na interface substrato/chapisco;

f) O terceiro ensaio não atende à NBR 13.749/2013, eis que a espessura admitida de revestimento externo é de 20 mm a 30 mm, tendo apenas dois corpos de prova apresentado uma dimensão dentro do intervalo preconizado;

g) Os corpos de prova 2, 3, 5, 6, 8, 9, 11, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 35 e 36 possuem resistência à tração maior ou igual a 0,30 MPa (Figuras 6, 7, 9, 10, 12, 13, 15, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 39 e 40);

h) Os corpos de prova 1, 4, 7, 10, 12, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34 possuem resistência à tração inferior a 0,30 MPa (Figuras 5, 8, 11, 14, 16, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37 e 38).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 13.281: Argamassa para assentamento e revestimento de paredes e tetos – Requisitos. 2 ed. Rio de Janeiro, 2005. 8 p.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 13.528: Revestimento de paredes e tetos de argamassas inorgânicas – Determinação da resistência de aderência à tração. 2 ed. Rio de Janeiro, 2010. 11 p.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 13.749: Revestimento de paredes e tetos de argamassas inorgânicas – Especificação. 2 ed. Rio de Janeiro,
2013. 8 p.

PETERSEN, André Barros Bolzani. ANÁLISE DE ADERÊNCIA DE ARGAMASSA POLIMÉRICA/COLANTE EM DUAS RESIDÊNCIAS COM DESPLACAMENTO DOS PISOS CERÂMICOS. 2014. Disponível em: <http://www.mrcl.com.br/resumos/R0087-1.pdf>. Acesso em: 02 maio 2016.

SARAIVA, Ana Gabriela; BAUER, Elton; BEZERRA, Luciano Mendes. Análise das tensões entre argamassa colante e placas cerâmicas submetidas a esforços de natureza térmica. Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído: Ambiente Construído, Porto Alegre, v.2, n. 2, p.47-56, abr. 2002.

SCARTEZINI, Luís Maurício et al. Influência do preparo da base na aderência e na permeabilidade à água dos revestimentos de argamassa. Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído: Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 2, n. 2, p.85-92, abr. 2002.

SIQUEIRA, Ailton Pessoa de et al. Inspeção Predial:Check-up Predial Guia da boa manutenção. 2. ed. São Paulo: Leud, 2009. 319 p.

Veja também: