Como construir: instalações hidráulicas para água quente

No fim da década de 60, quando o aço galvanizado caiu em desuso devido à sua baixa durabilidade, o cobre foi seu substituto. Alguns anos depois, o cobre passou a dividir atenção com outras tecnologias. No início dos anos 80, ocorreu o advento de tubos e conexões de material plástico resistentes à água quente, sendo o CPVC o pioneiro. Posteriormente surgiram o PPR (polipropileno random) e o PEX (polietileno reticulado).

“Os materiais poliméricos surgiram como novas opções por causa de facilidades como o manuseio, uma vez que o peso é menor; a durabilidade dos plásticos, pois são resistentes à corrosão; e a facilidade das uniões. Então, eles acabaram pegando uma parcela do mercado em relação ao materiais metálicos”, explica Simone Nakamoto, pesquisadora do Laboratório de Instalações Hidráulicas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT).

Segundo Simone, cada um dos materiais possui um nicho e aplicações preferenciais, ou seja, todos devem ser levados como opção durante a elaboração de um projeto. “É difícil afirmar que um material é melhor do que o outro, pois depende da aplicação, da mão de obra, do custo, e até da região onde você vai aplicar o material”, ressalta.

Case 1: CPVC
A chegada do CPVC (policloreto de vinila clorado) há aproximadamente 30 anos levou as instalações hidráulicas para água quente a um outro patamar, uma vez que até aquela época só era possível fazer esse tipo de condução com tubulação metálica. “O que mudou basicamente em relação ao PVC foi que [o material] recebeu um maior teor de cloro”, explica Erick Viegas, diretor comercial da Sanhidrel-Engekit. A adição do elemento garantiu maior resistência a temperaturas (podendo chegar até 80ºC).

Entre as vantagens do CPVC está o fato de ser um produto leve, resistente a ácidos, álcalis, álcoois e a outros materiais corrosivos. Além disso, apresenta longa vida útil e baixo coeficiente de dilatação. Sua instalação não requer mão de obra especializada e dispensa a solda, uma vez que as juntas são realizadas a frio, mediante adesivo solvente apropriado, fator que agrega velocidade de execução.

A limitação é a ductibilidade, porque este é um material muito rígido, sujeito a fissuras e trincamentos. Além disso, “está inserido em um processo artesanal de montagem, o que pode causar perda de velocidade de obra se comparado com os sistemas pré-montados”, destaca o diretor da Sanhidrel-Engekit.

Recentemente a empresa utilizou o material no interior das 20 unidades do edifício de altíssimo padrão HL746, da Bratke Engenharia. A obra estava projetada para uma tubulação de PPR, no entanto o cliente acabou optando pelo outro material. Neste caso, foi utilizado um produto que tem sido chamado pela fabricante de Super CPVC, pois possui melhor comportamento contra impactos e também mais resistência, podendo chegar a uma pressão de 86 mca, conduzindo água a 82°C.

“É um produto que se aproxima mais do PPR. Esse é um material que aguenta desaforo de obra, de descarregamento e impactos, um equipamento fissura zero”, destaca Viegas, antes de explicar que a tecnologia ainda é cara no Brasil (podendo chegar ao dobro do valor do PPR) e não tem sido viabilizada na maioria dos casos.

No canteiro de obra, tanto o CPVC com maior resistência quanto o CPVC tradicional necessitam de cuidados no armazenamento. São materiais que precisam ser colocados em locais planos e bem nivelados para evitar deformações permanentes. “Deve-se manter espaçamento de 1 m entre as peças e também tomar cuidado na hora de lançar a peça no caminhão, além de descarregá-la com cuidado”, explica Viegas.

A instalação do material foi feita utilizando o sistema convencional de encaixe e adesivo, sem a necessidade de fogo ou eletricidade. “Você só faz uma limpeza com pano seco, não pode usar álcool. Não precisa lixar, apenas corta e passa um pano para tirar as impurezas”, ressalta Viegas. O lixamento deve ser evitado, pois as bolsas das conexões são cônicas para um perfeito acoplamento.

Em seguida, com o auxílio de um pincel, aplica-se o adesivo químico de forma homogênea entre as superfícies a serem unidas. Por fim, as extremidades são encaixadas e, conforme explica o diretor, foi feito um quarto de volta, que é o procedimento indicado pelos fabricantes. “Você tem que girar um quarto para justamente garantir que o adesivo funcionou”, afirma Viegas.

FICHA TÉCNICA
HL746
1 torre – 17 pavimentos
Localização Av. Horácio Lafer, 746 – Itaim Bibi – São Paulo (SP)
Construtora Bratke Engenharia
Área total 22.900m²
Fornecedor de tubulação Amanco
Instalação de sistema hidráulico Sanhidrel-Engekit

Case 2: PEX
Outro material plástico que tem sido largamente utilizado em instalações hidráulicas para água quente é o PEX (polietileno reticulado flexível). Trata-se de uma resina plástica composta de macromoléculas lineares constituídas de hidrogênio e carbono em ligações alternadas.

A principal vantagem do material é que ele já chega na obra pré-montado, em rolos de 50 ou 100 metros. “É como se fosse uma mangueira, que faz curvas, o que evita o número de conexões”, explica Simone Nakamoto, pesquisadora do IPT. A redução do número de conexões garante também mais segurança ao sistema.

Além disso, há outras vantagens como o fato de que a tecnologia permite uma obra seca, uma vez que o kit pré-montado é parafusado no drywall. “Para nós muda muito porque aumenta demais a produtividade no canteiro. E também é um produto que não dá manutenção”, afirma Erick Viegas, diretor comercial da Sanhidrel-Engekit. Tudo isso ajuda no ganho de assertividade e produtividade.

Em uma das instalações recentes da empresa, o empreendimento residencial HD Pinheiros, da Construtora Tegra, a parte hidráulica realizada com PEX dentro das unidades foi executada em 18 meses, sendo instalada em ciclos de dois ou três dias, juntamente com o drywall. “Dentro da unidade, o PEX é imbatível, porque a instalação do kit pré-montado é muito rápida”, conta Viegas.

Entre os cuidados utilizados na instalação do PEX, ele destaca o corte perpendicular do tubo (não pode ser cortado chanfrado). O alargamento deve ser feito girando o alargador de uma vez só, para não fragilizar um dos lados, e, quando for fazer a conexão, verificar se o anel chegou até o fim. “Também não se deve usar nenhum tipo de ferramenta para fazer a conexão. O material é dimensionado para você fazer de maneira manual”, afirma Viegas.

Como limitação, o PEX tem o preço um pouco mais elevado em comparação com os outros materiais plásticos. No entanto, o custo pode ser compensado na mão de obra, pois, por diminuir o número de conexões, reduz também o tempo de homem-hora para fazer a atividade.

FICHA TÉCNICA
HD Pinheiros
2 torres (Bloco 1 – 8 pavimentos, Bloco 2 – 18 pavimentos)
Localização Av. Eusébio Matoso, 786 – Pinheiros – São Paulo (SP)
Construtora Tegra
Número de unidades 123
Área do terreno 3.186,73 m²
Área total 13.750 m²
Fornecedor de tubulação Barbi do Brasil
Instalação de sistema hidráulico Sanhidrel-Engekit

Case 3: Cobre
Mesmo com a evolução dos materiais plásticos, o cobre ainda tem seu espaço em sistemas de condução de água quente. Para Renato Rodrigues, engenheiro de planejamento da construtora Paulo Mauro, o metal significa para a empresa um diferencial de venda. “A gente gosta muito de utilizar o cobre porque não dá fadiga, você pode aquecê-lo como quiser e ele se mantém intacto. Isso causa menor intervenção e menos manutenção pós-obra para o cliente”, explica.

No geral, o material metálico requer mão de obra mais especializada, uma vez que sua aplicação é um pouco mais refinada, envolvendo soldas nas conexões. “Você tem a temperatura certa em que deve deixar aquecido o tubo, passar bem a pasta e colocar a solda no momento certo. Fazendo isso, não tem muito erro. Para quem trabalha há muito tempo, é um material bem tranquilo de ser utilizado”, afirma Rodrigues.

O uso do cobre também envolve alguns cuidados básicos no que se refere ao armazenamento. O material não deve ser guardado juntamente com tubos de aço e de ferro, pois os elétrons podem migrar de um material para o outro, o que ocasionaria problemas de corrosão e/ou deterioração.

No entanto, a principal preocupação relatada pelo engenheiro durante o armazenamento é em relação ao alto risco de furto, uma vez que o material possui um valor agregado muito alto. “O cobre ainda é um material que apresenta esse tipo de problema. O pessoal vende como sucata, e já aconteceram alguns casos isolados. Fora isso, o cobre é tranquilo de armazenar”, explica Rodrigues.

Durante a instalação, deve-se evitar a condução de águas quimicamente agressivas pela tubulação do cobre. Até os tubos com conexões soldadas estão sujeitos a corrosão caso a água apresente pH ácido, elevada concentração de oxigênio, gás carbônico, amônia e cloro livre dissolvidos. Para Renato Rodrigues, esse é um problema que não acontece em São Paulo, devido à qualidade da água.

Para a correta instalação dos tubos de cobre, é necessário, primeiro, fazer uma limpeza nas conexões. Em seguida, é aplicado o fluxo de solda. “Quando a peça está aquecida, ela suga por gravidade a solda e acaba preenchendo toda a lateral. E aí a peça fica literalmente soldada. Não é uma colagem, por exemplo, como a de um tubo de PVC”, afirma Rodrigues.

Esse foi o procedimento que a Paulo Mauro adotou no Edifício Mark, prédio residencial com 19 pavimentos que tem toda a parte hidráulica feita de cobre. Além da aplicação cuidadosa, a equipe de instalação realiza um teste de pressão após a instalação. “A gente aplica uma alta pressão de três ou quatro vezes a pressão normal de uso. Se houver alguma falha ou rompimento, já é detectado na obra mesmo”, explica Rodrigues.

FICHA TÉCNICA
Edifício Mark
1 torre – 19 pavimentos Apartamentos com 2 a 3 suítes (89 m² a 118 m² privativos)
Localização Rua Mota Pais, 377 – Lapa – São Paulo (SP)
Construtora Paulo Mauro
Área total 14.987 m²
Fornecedor de tubulação Eluma (conexões) e Termomecanica (tubos)
Instalação de sistema hidráulico Paulo Mauro

Case 4: PPR
Na classe de materiais de plástico rígido, também tem sido utilizado o PPR (polipropileno copolímero random), uma resina plástica atóxica de alta rigidez resistente a picos de temperatura de até 95ºC. A principal vantagem do produto é o fato de poder ser conectado por termofusão, o que evita o uso de roscas, soldas, anéis de borracha ou cola.

“O PPR é um excelente material, com vida útil estimada em pelo menos 50 anos, contanto que corretamente empregado. A durabilidade estimada dependerá das condições de exposição do material e das condições de utilização, como a pressão e a temperatura da água conduzida”, afirma Sérgio Gnipper, especialista em projetos hidráulicos.

No projeto do Hotel Surya, na região metropolitana de Curitiba (PR), Gnipper trabalhou com o PPR para as instalações hidráulicas. “É um material que apresenta elevado coeficiente de dilatação térmica. O projeto deve prever meios de absorver as variações dimensionais decorrentes dessa característica”, destaca. Por isso, trechos fisicamente confinados, sem a possibilidade de dilatarem, ou ao menos fletirem, ficam sujeitos à ruptura, devido à fadiga do material, pois as paredes dos tubos acabam concentrando tensões mecânicas excessivas.

Segundo o especialista, a forma mais usual de absorver as movimentações térmicas de tubulações de PPR tem sido o emprego de liras de dilatação corretamente dimensionadas e adequadamente posicionadas. Essa foi uma preocupação na adequação do projeto do hotel, que também considerou no traçado das tubulações e nos locais que as abrigam a viabilidade da execução das juntas soldadas por termofusão, uma vez que o equipamento termofusor requer certo espaço para ser operado.

Para a instalação, é essencial que as juntas por termofusão sejam executadas por um instalador experiente, que considere o tempo mínimo de exposição das partes a serem unidas no equipamento termofusor. “Esse é um ponto crítico no sistema. Você depende do ponto elétrico, depende da qualidade do equipamento, da temperatura correta, do bocal estar bitolado e do instalador, de quem a gente não quer depender”, afirma Erick Viegas, da Sanhidrel-Engekit.

Se corretamente executada, a junta passa a constituir um conjunto único com espessura reforçada. Por isso, conforme a classe de pressão, a instalação PPR suporta temperatura e pressão sob utilização superior à recomendada para tubulações de CPVC, por exemplo.

FICHA TÉCNICA
Hotel Surya
Localização Rua Jaguariaiva, 560 – Alphaville Graciosa – Pinhais (PR)
Construtora Engevita
Instalação de sistema hidráulico Ocle Engenharia

Edição: Dirceu Neto

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