Professor doutor da UFSCar, José da Costa Marques Neto aponta os benefícios da gestão de resíduos na construção

JOSÉ DA COSTA MARQUES NETO
O professor doutor José da Costa Marques Neto possui graduação em engenharia civil pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, mestrado em engenharia civil pela Eesc-USP, especialização em educação ambiental pela Eesc-USP e doutorado em ciências da engenharia ambiental pela Eesc-USP. Tem experiência na área de construção civil, tendo atuado em empresas construtoras como Gafisa, SCM, Engevil e Tecnisa nas cidades de São Paulo e São Carlos. Atualmente, é professor adjunto do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de São Carlos e, como professor pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Estruturas e Construção Civil (PPGECiv), atua principalmente nas seguintes linhas de pesquisa: viabilidade de empreendimentos; gestão do processo de projeto; gestão da produção na construção civil: tecnologia, economia e sustentabilidade; planejamento e controle das construções; gestão de materiais na construção civil; gestão de resíduos da construção civil; gestão de pessoas na construção civil; gestão da qualidade e ambiental na construção civil. Além disso, é diretor-geral do Escritório de Desenvolvimento Físico da UFSCar.

Diariamente, as obras brasileiras somadas produzem cerca de 240 mil toneladas de RCD (resíduos de construção e demolição). Em muitos casos, esse material é depositado sem nenhum controle, causando assoreamentos, erosões e toda uma série de problemas ambientais e sociais. Em outros casos, os RCDs são levados para aterros sanitários. Embora essa solução pareça adequada, o enorme volume compromete a vida útil dos aterros. Sem contar que grande parte dos RCDs poderia ser reaproveitada, reduzindo a necessidade de espaços para seu descarte, mas, principalmente, aliviando a pressão sobre a retirada de recursos naturais. Conforme explica José da Costa Marques Neto nesta entrevista, aterro sanitário não é o local adequado para RCD. Pesquisador de gestão de resíduos da construção, ele conta que o material descartado em uma obra é muito heterogêneo e que, portanto, exige uma abordagem multidisciplinar para seu entendimento e tratamento adequados. Entretanto, o que se observa ainda é a negligência por parte de governos e das empresas com relação ao que fazer com esses materiais. A proposta dele é a criação de um parque ambiental dedicado ao tratamento, sempre visando ao reúso, de todos os resíduos que não deveriam ir para um aterro. Com pesquisas cada vez mais consistentes sobre formas de aplicar materiais gerados a partir dos resíduos novamente na construção, ele afirma que ainda faltam normas para nortear o uso dos RCDs, incluisive para fins estruturais. Ainda assim, o não estrutural já é viável e também estratégico. Confira a entrevista.

“As administrações públicas municipais nunca priorizaram políticas de gestão dos entulhos de obras como objetivo para solução desse grave problema de saneamento básico das cidades.”

Como se desenvolvem as pesquisas sobre resíduos da construção nos laboratórios do DECiv-UFSCar?
No Departamento de Engenharia Civil da UFSCar temos dois grupos de pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) ligados ao Programa de Pós-Graduação em Estruturas e Construção Civil (PPGECiv) que se dedicam ao desenvolvimento de pesquisas sobre RCC (resíduos da construção civil). Em especial, o grupo de Gestão e Tecnologia dos Resíduos da Construção Civil (GTRCC) conta com alguns professores que trabalham com linhas específicas, por exemplo: aplicação de agregados reciclados de construção e demolição como material de pavimentação; aplicação de agregados reciclados em concretos; uso de RCC em obras geotécnicas e rodoviárias; estudo de diferentes resíduos de construção e demolição em obras de infraestrutura de transportes; gestão dos resíduos da construção civil em canteiros de obras e gestão dos resíduos da construção civil em cidades. Temos atualmente em torno de 25 alunos de graduação, mestrado e doutorado trabalhando com resíduos da construção civil no DECiv-UFSCar.

Qual a importância de contar com uma equipe multidisciplinar de professores?
O caráter multidisciplinar do resíduo da construção civil permite que as pesquisas sejam desenvolvidas com visão mais sistêmica dos problemas relacionados a esse tipo de resíduo. Dessa maneira, as discussões são realizadas pela equipe e as soluções são construídas de forma conjunta. Cabe destacar que os problemas relacionados à gestão dos RCC no Brasil possuem duas dimensões bem claras a ser pesquisadas: o canteiro de obras e as cidades. Assim, a implantação efetiva de ações e práticas no âmbito dos canteiros de obras deve estar plenamente integrada às infraestruturas de destinação ambientalmente adequadas, concebidas e contempladas nos Planos Integrados de Gerenciamento dos municípios.

O que significa dizer que os resíduos da construção são negligenciados?
O caráter dito inerte dos resíduos da construção civil sempre gerou uma falsa sensação de menor periculosidade. Pesquisas atuais mostram não ser verdadeira essa percepção. Nesse sentido, as administrações públicas municipais nunca priorizaram políticas de gestão dos entulhos de obras como objetivo para solução desse grave problema de saneamento básico das cidades. Da mesma forma, via de regra, as empresas construtoras continuam negligenciando seus resíduos pela falta de planos de gestão que trariam benefícios ambientais e econômicos para seus empreendimentos. Cabe ressaltar que a ausência de decretos municipais para regulamentação da gestão dos RCCs em canteiros de obras tem sido um entrave para o desenvolvimento de práticas ambientalmente adequadas de reúso, de reciclagem e de destinação final dos resíduos.

Quais as consequências dessa negligência?
As principais consequências dessa negligência são de ordem ambiental, econômica e social. Do ponto de vista ambiental, é possível observar nas cidades brasileiras milhares de áreas de descarte irregular pela ausência de gestão. Esse quadro se reflete nos altos custos de limpeza pública pela remoção e aterramento dos resíduos. Também é possível observar problemas sociais relacionados aos resíduos, uma vez que as disposições clandestinas causam grandes transtornos no seu entorno.

O que é a proposta do Parque Ambiental? Como ele funcionaria?
No Brasil, o aterro sanitário é considerado a infraestrutura ambientalmente adequada para disposição final de resíduos sólidos. Porém, apesar de ser uma obra de engenharia importante e necessária, o aterro sanitário desconsidera qualquer tipo de tratamento e valorização dos resíduos pelo seu caráter de aterramento definitivo dos rejeitos. O Parque Ambiental surge como alternativa à deficiência dos nossos aterros sanitários. É um empreendimento que prevê o recebimento e o tratamento dos diferentes resíduos produzidos nas cidades. É uma infraestrutura industrial composta de galpões dimensionados para as operações específicas de cada resíduo. Podemos citar como exemplo a compostagem de biossólidos, a reciclagem dos entulhos de obras, o armazenamento de pneus, de lâmpadas, e de materiais recicláveis de toda espécie. É uma nova forma de gerenciar os resíduos produzidos no país.

Esse tipo de solução é financeiramente viável? o Laboratório da UFSCar tem o propósito de avaliar a viabilidade econômica do reúso dos resíduos?
Sim, uma vez que a implantação do Parque Ambiental pode ser realizada por etapas em acordo com os Planos Municipais de Gerenciamento de Resíduos Sólidos, conforme exigência da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Com relação à viabilidade econômica do reúso dos resíduos, é uma linha de pesquisa existente em nosso grupo GTRCC-PPGECiv. Atualmente, são estudadas diferentes formas de utilização de agregados reciclados em pavimentação e em obras de engenharia.

Qual a diferença entre resíduos e rejeitos?
É importante observar que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) instituiu essa diferença para ser possível vincular estes termos às etapas de tratamento e disposição final. Fica claro que, pela PNRS, resíduos podem ser considerados ainda materiais, substâncias, objetos ou bens passíveis de tratamento e valorização. Portanto, devem ter uma destinação ambientalmente adequada. Já o termo rejeito se refere ao resíduo sólido depois de esgotadas todas as possibilidades de tratamento ou recuperação, o que naturalmente leva à sua disposição final também ambientalmente adequada.

Qual o tamanho do impacto da indústria da construção sobre os recursos naturais?
É sabido que a indústria da construção consome quantidades enormes de recursos naturais no desenvolvimento de suas atividades. Por essa razão, nos últimos anos tem sido crescente a preocupação com o tema sustentabilidade das construções. Nessa direção, muitas pesquisas na nossa área têm como objetivos principais a redução do consumo excessivo de recursos naturais; a redução da geração de resíduos; a maximização da reutilização de materiais; a investigação de novos recursos renováveis ou recicláveis e, em especial, estudos voltados à qualidade do ambiente construído.

Por que sempre se fala em utilização parcial de materiais reciclados? O que impede a utilização total?
Os estudos relacionados aos agregados reciclados oriundos dos resíduos da construção civil têm avançado muito nos últimos anos. Porém, é sabido que os resíduos da construção civil são extremamente heterogêneos quando tratados em unidades recicladoras. Esse fato impede a criação de parâmetros quantitativos efetivos e confiáveis no uso indiscriminado dos nossos agregados reciclados.

Como as pesquisas sobre reaproveitamento dos resíduos se relacionam com a redução na geração de resíduos? Métodos mais industrializados de construção não reduziriam o impacto sobre os recursos naturais?
Pesquisas sobre reaproveitamento dos resíduos no ciclo produtivo das construções não se relacionam diretamente com a redução da geração de resíduos em obras, mas sem dúvida ampliam as possibilidades de substituição de alguns insumos hoje utilizados. A redução da geração de resíduos tem relação estreita com o aumento de qualidade dos processos construtivos e consequente redução das perdas e desperdícios de recursos materiais na execução dos serviços. Assim, a melhoria contínua dos métodos produtivos e a introdução de métodos mais industrializados poderiam contribuir diretamente para a redução do consumo excessivo de recursos naturais.

“O termo rejeito se refere ao resíduo sólido depois de esgotadas todas as possibilidades de tratamento ou recuperação, o que naturalmente leva à sua disposição final também ambientalmente adequada.”

Quais os empecilhos e os estímulos decorrentes das normas técnicas no que diz respeito à reciclagem de resíduos da construção?
Neste momento temos cinco normas brasileiras relacionadas à gestão e tecnologia dos resíduos da construção civil: NBR 15112/2004; NBR 15113/2004; NBR 15114/2004; NBR 15115/2004 e NBR 15116/2004. É fato que avançamos consideravelmente após a instituição dessas normas, porém ainda temos muitos entraves no gerenciamento de RCC e no uso de agregados reciclados por ausência de novas normas. Nesse sentido, as pesquisas da área devem conduzir as discussões para a elaboração de novas normas técnicas que possam orientar o setor da construção civil.

“Os estudos relacionados aos agregados reciclados oriundos dos resíduos da construção civil têm avançado muito nos últimos anos. Porém, é sabido que os resíduos da construção civil são extremamente heterogêneos quando tratados em unidades recicladoras. Esse fato impede a criação de parâmetros quantitativos efetivos e confiáveis no uso indiscriminado dos nossos agregados reciclados.”

Em algum momento podemos esperar a liberação do uso de agregados reciclados para finalidades estruturais?
O uso de agregados reciclados para fins estruturais só será possível quando os parâmetros de sua qualidade forem reconhecidos por normas técnicas e puderem ser certificados e controlados. Até lá, a utilização dos agregados reciclados sem função estrutural se constitui em grande estratégia de gestão dos municípios, uma vez que eliminam, em grande medida, milhares de áreas de deposição clandestina e seus impactos ambientais. Também é importante salientar que a qualidade do agregado reciclado depende essencialmente do conhecimento pleno do resíduo utilizado no processo de beneficiamento. Atualmente, a divisão dos RCCs por classes impede maior conhecimento dos tipos de resíduo que chegam todos os dias às usinas de reciclagem. Esse fato, aliado ao baixo nível tecnológico dos nossos equipamentos, contribui para a produção de agregados reciclados de baixa qualidade, entraves claros ao uso estrutural.

“A viabilidade técnica e econômica para a implantação da reciclagem dos RCCs em canteiros de obras é hoje um dos maiores desafios da pesquisa em nossa área, uma vez que seus resultados serão decisivos para o setor da construção civil.”

A situação do tratamento de resíduos é muito desigual no Brasil? A que se devem as diferenças?
No Brasil, temos muitos problemas estruturais que impedem a implantação de técnicas adequadas de tratamento de resíduos. A realidade de cada região do país é extremamente diferente com relação à implantação mínima de planos de gerenciamento de resíduos da construção, o que contribui para o aparecimento de diferentes cenários. Além disso, temos diferenças entre municípios de pequeno, médio e grande porte no trato dos resíduos. Portanto, a necessidade de políticas públicas alternativas para os pequenos municípios fica evidente. Sem essas ações é possível afirmar que a geração de RCCs permanecerá contínua e crescente no país.

Qual o problema envolvido no processamento de resíduos dentro do próprio canteiro?
A viabilidade técnica e econômica para a implantação da reciclagem dos RCCs em canteiros de obras é hoje um dos maiores desafios da pesquisa em nossa área, uma vez que seus resultados serão decisivos para o setor da construção civil. A introdução de novos equipamentos e a utilização de frações recicladas dos RCCs como insumos da construção no ciclo produtivo de um edifício poderão quebrar vários paradigmas no futuro. Sem contar os grandes benefícios ambientais devido à redução substancial das quantidades dispostas no ambiente.

Por: Bruno Loturco

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