Entregue há cinco anos, o Edifício Pátio Victor Malzoni inaugurou neste ano sua estação própria de tratamento de água

O Edifício Pátio Victor Malzoni tem as fundações no presente, mas com vista para o futuro. Mesmo numa imensa megalópole como São Paulo, consegue ser completamente original, por várias razões.

A mais evidente é seu grande vão livre espelhado de 30 m de altura por 40 de largura, a maior laje corporativa de São Paulo, com 5 mil m2. O edifício não foi construído assim apenas por razões estéticas e arquitetônicas. O enorme pórtico foi feito para preservar uma casa bandeirista do século 18, tombada em 1982 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). As pessoas passam por essa casa entre duas importantes vias de São Paulo, a Rua Joaquim Floriano e a Avenida Faria Lima. O efeito é marcante: do chão, podemos ver o telhado da casa bandeirista refletido no vão central.

As duas torres são unidas no solo por um jardim, onde estão espalhados pufes para quem quiser tomar sol entre um trabalho e outro. Com 20 andares e seis subsolos, o edifício abriga 5.000 funcionários de diversas empresas, das quais a mais conhecida é a Google. No total são 167,6 mil m2 de área construída, com planejamento da Botti Rubin Arquitetos e construção da Brookfield. O edifício, erguido sobre 43 fundações em sapata direta, venceu o Prêmio PINI na categoria Obra de Destaque Editorial. Ficou conhecido como o prédio mais caro de São Paulo. Suas obras foram iniciadas em 2008 e terminaram em 2012.

Mas a característica mais impressionante do Pátio Victor Malzoni não é visível. Esse é um edifício-conceito pioneiro, voltado para as novas práticas ambientalistas. A preocupação com a sustentabilidade foi uma das marcas no planejamento do edifício desde o início.

Edifício autossustentável
O Pátio Victor Malzoni ganhou em 2012 a certificação Leed Core & Shell Prata, concedida pelo Green Building Council. Já foi projetado para evitar o desperdício de água e reutilizar a água da chuva. Seus vidros foram projetados para conter o calor externo e reduzir o consumo de energia elétrica com ar-condicionado. Entre suas inovações está um grande bicicletário no subsolo e tomadas para recarregar carros elétricos.

Esse é o primeiro edifício autossustentável do país – 100% da água com impurezas geradas no empreendimento é tratada e despoluída para ser reutilizada em fins menos nobres. Em depoimento a Téchne, o gerente de operações prediais da Cbre (administradora do condomínio), Flávio Engel, declarou que “só em abril a gente deixou de consumir 3 mil m3 de água da Sabesp. A água de reúso vai para a irrigação, para as torres de resfriamento, para o espelho d””””água e volta para os vasos sanitários. A ideia é consumir da Sabesp só a água potável. Nosso esgoto já não vai mais para as vias públicas”. A capacidade do reservatório também foi ampliada. “Antes da implantação do novo sistema, nós tínhamos capacidade para reservar 3 dias de água sem a Sabesp. Agora temos em torno de 10 a 11 dias.”

TRÊS SISTEMAS DE TRATAMENTOS
Foram implantados três sistemas de tratamento de água no condomínio, com investimento inicial de R$ 106.500 e custo de manutenção de R$ 5.200 mensais: 1) sistema de tratamento de água pluvial e água condensada; 2) sistema de tratamento de água cinza (lavatórios e chuveiros); 3) sistema de tratamento para água do lençol freático. O processo de implantação foi completado em fevereiro de 2015. Logo nesse primeiro mês o consumo de água caiu mais de 50%. A média de redução ficou em 30% no primeiro ano. Veja o gráfico:

SISTEMA 1: TRATAMENTO DE ÁGUA PLUVIAL E CONDENSADA
A drenagem da água de chuva ocorre através de ralos especiais, para maior drenagem de água. A água é levada para um reservatório de 20 m3 para o sistema de reúso. O ralo permite que o sistema use o princípio da gravidade, evitando assim custos adicionais com bombas, manutenção etc. O clorador em linha usa filtros de areia (com vazão de tratamento de 4 m3 por hora) para remover bactérias e coliformes fecais. Mesmo depois desse processo a água não fica potável e segue a norma para água de chuva (ABNT NBR 15527:2007).

SISTEMA 2: TRATAMENTO DE ÁGUAS CINZA
A captação é gerada em tanques e lavatórios e é transmitida por gravidade. O tratamento aeróbio se realiza por biocondutores rotativos (tratamento Acquaciclus). Um decantador primário de concreto de 180 m3 realiza a primeira etapa do tratamento sedimentando os resíduos sólidos em suspensão. Nesse tanque primário ocorre a degradação inicial de resíduos maiores. Em seguida a água cinza é levada aos biorrotores, uma linha com dois rotores acima do nível do líquido, acoplados a contatores biológicos. Um motorredutor em câmara seca rotaciona a água e os rotores ficam sempre com um setor submerso e outro exposto ao ar. Assim, realizam a formação do biofilme e, consequentemente, a degradação da carga orgânica. O biofilme se forma como uma camada sobre a superfície de contato da chamada “colmeia”. Através desse biofilme, os microrganismos da água cinza se alimentam de oxigênio, processando a degradação da matéria orgânica. Assim, a matéria orgânica se transforma em biomassa inerte. Com o crescimento da espessura do biofilme, a interface “colmeia” – biofilme deixa de ter acesso ao oxigênio. Os flocos de biofilme se deslocam na superfície de contato – o que garante a autolimpeza da “colmeia”. Enquanto isso, o líquido flui no eixo longitudinal do tanque e recebe o oxigênio através dos alvéolos da “colmeia”. Por duas horas e meia, no mínimo, o efluente fica detido nos dois decantadores secundários em fibra de 20 m3. Finalmente, o efluente tratado vai para um tanque de acúmulo em fibra de 5 m2, onde a água pode ser bombeada sem matéria orgânica de fundo para filtragem e transporte. As normas adotadas são NBR 7229/93 (Projeto, construção e operação de sistemas de tanques sépticos) e NBR 13969/97 – Tanques Sépticos (Unidades de tratamento complementar e disposição final de efluentes líquidos – Projeto, construção e operação). As características físico-químicas e bacteriológicas do efluente depois do tratamento são as seguintes:
DBO (mg/l): 90% de remoção ou < 30 mg/l
pH: 6-9
Temperatura (ºC): < 40
Sedimentáveis (ml/l): < 1,0
Óleos e graxas (mg/l): < 100,00

SISTEMA 3: TRATAMENTO DE ÁGUAS DE LENÇOL FREÁTICO
A água é captada em poço de lençol freático e transportada por bomba de transferência. Metais pesados (como ferro e manganês), matéria orgânica – DBO – e amônia são retirados (com fluxo de 4 m3 por hora) através do elemento filtrante zeolita. A norma adotada é a Portaria DAEE 2.069/14.

Bombas de recalque forçam o fluxo de água entre os reservatórios modulares do sistema de tratamento no Edifício Pátio Victor Malzoni

A estação de tratamento
A estação de tratamento de efluentes (ETE) do Pátio Victor Malzoni tem capacidade para tratar 5.500 m3 de esgoto mensais. Seu processo é o mais moderno: o aeróbio, que não gera odores. O monitoramento dos parâmetros de qualidade são realizados online. O sistema que determina esses parâmetros é automático. Segundo Flávio Engel, “com o sistema totalmente em operação, além de contribuirmos para a proteção ambiental, vamos ter uma economia de cerca de 50% dos nossos gastos com a concessionária de serviço público de água e esgoto”.

A instalação da estação de tratamento de esgoto do Edifício Pátio Victor Malzoni foi realizada pela Tigre. Ela usa a tecnologia MBR (Membrane Bioreactor), seguida por osmose reversa. O processo Membrane Bioreactor, como o nome diz, usa uma membrana de ultrafiltração. As bactérias presentes no lodo consomem a parte orgânica do efluente e os sólidos são separados ao passar pela membrana de ultrafiltração. O processo é mais profundo do que simplesmente “polir” o efluente, onde a membrana é usada como um tratamento sem o retorno da biomassa ativa pelo processo biológico.

Todos os processos de MBR usam a membrana como filtro. Ele rejeita os materiais sólidos, que são desenvolvidos pelo processo biológico, o que resulta num efluente clarificado e desinfetado. O processo é parecido com o sistema conhecido como CAS (conventional activated sludge, ou lama convencional ativada). A diferença (segundo o The MBR Site) é que o processo CAS usa um

Reservatório recebe água tratada para reúso em irrigação. Somente em abril, o Edifício Pátio Victor Malzoni economizou 3 mil m3 de água da Sabesp

clareador secundário ou tanque de assentamento para a separação dos elementos sólidos dos líquidos. O MBR usa uma membrana para essa função. O que garante que toda a biomassa e praticamente todo microrganismo serão rejeitados nesse processo.

Para realizar essa limpeza, o sistema MBR usa membranas com poros com menos de 0.5 μm, que reduz a concentração de agentes patogênicos. O sistema causa o desenvolvimento de microrganismos, que são especialmente efetivos em processos de nitrificação (remoção de amônia). O processo MBR hoje está presente em mais de 200 países.

Depois do uso do sistema MBR, o ETE do Edifício Pátio Victor Malzoni parte para a segunda fase de purificação, que é a osmose reversa, que provoca a separação por meio da diferença de pressão osmótica. O processo conhecido como RO (Reverse Osmosis) usa pressão para forçar as moléculas de água através da membrana. Os elementos contaminantes são filtrados e expulsos.

A osmose reversa opera basicamente em quatro estágios: 1) um pré-filtro para separar a sujeira mais grosseira que pode danificar o filtro principal; 2) um filtro de carbono que remove o cloro e outros contaminantes e melhora o odor da água; 3) a membrana de osmose reversa, semipermeável, que deixa a água passar mas filtra praticamente quase todos os contaminantes adicionais e 4) filtro de polimento, à base de carbono, igualmente capaz de remover o odor.

O resultado final é uma purificação de 99% para contaminação orgânica e 95% para sais dissolvidos com o uso de filtro de areia e filtro de carvão ativado. Tecnicamente é possível transformar a água purificada na ETE em água potável, mas ainda não existe legislação que permita no Brasil o reúso para essa finalidade.

A sustentabilidade além da água
A sustentabilidade do edifício vai além da água. Segundo Fávio Engel, “só de lixo, coletamos 55 toneladas por mês. Isso gera de 7 a 8 toneladas de adubo no mesmo período. Não compramos mais adubos. Doamos para os prédios vizinhos e para ações na cidade de São Paulo, como o Verdejando, o reflorestamento das Marginais etc.”. O adubo produzido no edifício é usado numa pequena horta localizada no primeiro subsolo.

Seu objetivo é didático. Temperos frescos são trocados por lixo reciclável. Alunos de escolas convidadas aprendem a separar o lixo num grande painel. Tudo isso faz parte do Projeto EcoMalzoni, implantado em outubro de 2015. Projetos nessa linha só existiam até agora em Londres e Tóquio. O EcoMalzoni inclui coleta de bitucas de cigarro, papelão, plástico misto, isopor, latas de alunínio para reciclagem, logística reversa das capsulas de café, adequação das lixeiras nos halls de serviço etc.

Troca que vale a pena: o adubo produzido a partir do lixo gerado pelo edifício alimenta projetos para o reflorestamento das marginais e uma horta ecológica localizada no subsolo

O pioneirismo vai além
O Pátio Victor Malzoni tem mais uma marca de originalidade. Pelo seu gigantismo, no princípio sofria com as oscilações da rede elétrica. Para resolver esse problema, foi construída uma usina termelétrica com capacidade original para gerar 5.800 MW diários, operando com cinco geradores, a gás e óleo diesel. Segundo declarou o gerente de operações, Flávio Engel, ao site Massa Cinzenta, “sempre optamos pelos geradores movidos a gás natural. Entretanto, para deixar o sistema mais eficiente, a operação de geração de energia é feita inicialmente com quatro geradores e, na sequência, são desligados os dois geradores a diesel, para que o fornecimento de energia siga com os geradores a gás”.

Decantador de água integra sistema de purificação para uso não potável

Por: Dagomir Marquezi

Veja também: