Desempenho estrutural das fundações diretas está relacionado à qualidade da impermeabilização

Impermeabilização de baldrame: a proteção na fase de construção da fundação rasa evita patologias futuras, geradas pelo avanço da umidade do solo nas paredes e no piso

Embora protegidos da chuva, os elementos de fundação estão sujeitos à umidade e podem ser o ponto de partida para infiltrações diversas em uma estrutura. Afinal, é a fundação que fica em contato direto com o solo, que tem umidade. Caso a impermeabilização desses elementos não seja feita adequadamente, a água irá infiltrar e, por capilaridade, atingirá pilares, alvenaria, revestimentos e outros sistemas da edificação.

É por isso que, de acordo com a NBR 9574 – Execução de impermeabilização – Procedimento e com a NBR 9575 – Impermeabilização – Seleção e projeto, é recomendável dividir o processo de impermeabilização em três fases: estudo preliminar, projeto básico e projeto executivo. Nessa linha segue a recomendação da engenheira Maria Amélia da Silveira, da MAS Engenharia, para quem “o ideal é que haja um estudo preliminar definindo as áreas a serem impermeabilizadas e as alternativas de sistemas impermeabilizantes, tão logo o projeto básico de arquitetura fique pronto”. Os sistemas a serem efetivamente adotados são definidos “numa segunda etapa, já no projeto básico de impermeabilização”, afirma Maria Amélia.

“O custo de uma impermeabilização em uma edificação é de 1% a 2%, ou seja, com tão pouco protegemos os outros 98% da obra”
Marcos Storte, gerente de negócios da Viapol

Projeto fundamental
O ideal, na opinião da engenheira, seria todo e qualquer empreendimento contar com a figura do projetista de impermeabilização para verificar tanto o atendimento às normas pertinentes quanto a compatibilização entre os diversos sistemas que compõem uma obra. No entanto, essa não é a realidade de grande parte das construções brasileiras. “Poucas obras fazem um projeto de impermeabilização, e esta é a causa principal das patologias dos vazamentos pós-obras”, alerta Marcos Storte, engenheiro e gerente de negócios da Viapol.

Uma alternativa a essa carência é sugerida por Maria Amélia. “O arquiteto ou o engenheiro responsável pela obra deveria ter conhecimentos para especificar e definir detalhes básicos de impermeabilização compatíveis com o porte da obra”, diz. Entretanto, também isso é algo fora do usual, pois, segundo a engenheira, a grade dos cursos de graduação não contempla nenhuma “disciplina voltada ao ensino dos materiais e às boas técnicas de impermeabilização”.

De qualquer maneira, o engenheiro Marcos Storte afirma que o mais importante é que todas as obras, no que diz respeito à impermeabilização, sigam as orientações das normas pertinentes e que disciplinam a respectiva atividade.

Afinal, o custo da impermeabilização é baixo, tanto relativamente quanto absolutamente. De acordo com Storte, o “custo de uma impermeabilização em uma edificação é de 1% a 2%, ou seja, com tão pouco protegemos os outros 98% da obra”. Maria Amélia concorda. “O que certamente vai custar muito caro é a ausência dela ou um serviço executado sem a necessária técnica e que resultará nas indesejáveis infiltrações e patologias daí advindas”, pontua.

Esquema básico de impermeabilização de lajes radier

Compatibilização prévia
Aplicável em várias partes de uma edificação, a impermeabilização interfere diretamente nos demais projetos de uma obra. Os principais dele, explica Maria Amélia, são: estruturas, hidráulica, elétrica, paisagismo e fundações.

Ela lista algumas situações que exigem uma compatibilização cuidadosa entre os projetos:

Juntas de dilatação passando por jardineiras, pilares, piscinas ou espelhos d”água: compatibilização com o projeto de estruturas.

Subsolos em áreas com forte pressão do lençol freático ou alternativas de sistemas construtivos de cortinas ou muros de arrimo: compatibilização com o projeto de fundações e de drenagem.

Lajes de cobertura muito deformáveis ou com equipamentos muito pesados ou que apresentam muita vibração: compatibilização com o projeto de estruturas.

Falta de desnível entre as áreas internas e externas ou desníveis que exigem sistemas de impermeabilização com pouca espessura: compatibilização com o projeto de arquitetura.

Tubulações de hidráulica ou elétrica que impedem o arremate seguro da impermeabilização: compatibilizar esses projetos com o de impermeabilização.

Outros elementos sujeitos a compatibilização são: paisagismo, áreas expostas a chuvas, áreas molhadas ou sujeitas a ação de lençol freático ou umidade.

Sistemas impermeabilizantes para fundações

Os tipos de impermeabilização para fundação não são diferentes das impermeabilizações para outros elementos da construção. Entretanto, Maria Amélia Silveira, da MAS Engenharia, conta que o mercado tem visto o crescimento de uma tecnologia específica para esse tipo de aplicação. “Não chega a ser uma novidade, pois são produtos já utilizados em outros mercados, mas temos observado um crescimento dos sistemas de impermeabilização com polímeros, basicamente poliuretano, e também de silicone.”

Os sistemas impermeabilizantes mais comumente usados em fundações são:
Argamassas poliméricas
Membranas de polímeros
Cristalizantes
Mantas asfálticas aplicadas a quente ou a frio
Emulsões asfáticas
Soluções asfálticas

Os sistemas impermeabilizantes dividem-se em dois tipos:
Flexível – Suporta maiores deformações sem aparecimento de fissuras.
Rígido – A fundação não poderá possuir deformações, sob o risco de aparecerem fissuras.

Execução problemática
Além de problemas relacionados à negligência por parte das construtoras quanto à importância da impermeabilização, o mercado também enfrenta problemas quanto à execução dos serviços de impermeabilização. Para Maria Amélia, os problemas de execução estão relacionados majoritariamente à falta de treinamento adequado associada à elevada rotatividade da mão de obra.

Esses efeitos dificultam o estabelecimento, nas empresas instaladoras, de rotinas e procedimentos que visem a uma melhor qualidade dos serviços prestados. Storte acredita que, a despeito das orientações constantes da NBR 9574, os mesmos erros tendem a voltar a acontecer devido às instabilidades do mercado de construção brasileira. “Depois do último boom da construção, certamente temos a desmobilização das equipes, e isso provoca erros nos mesmos lugares de sempre”, lamenta.

Agrava essa situação a falta de industrialização de processos relacionados à impermeabilização. “Existe industrialização quanto aos produtos, que hoje se equivalem ao que se tem no mundo. Quanto à execução, ainda dependemos muito da mão de obra”, afirma Storte.

Maria Amélia relaciona esse panorama à cultura do mercado, que valoriza a habilidade do instalador, e à baixa demanda. “Quando a rapidez de execução for um gargalo para a atividade, certamente teremos uma maior industrialização do setor”, acredita. Isso, complementa, aumentará a demanda por peças pré-fabricadas para arremates, por exemplo, ou por componentes da edificação que já saiam de fábrica com revestimento impermeabilizante.

Esquema básico de impermeabilização de viga baldrame

Viga baldrame: recebe tratamento com argamassa impermeável até 1 m acima do piso acabado, com camadas de tinta asfáltica sobre o capeamento

Matriz de decisão
Diversos são os fatores que impactam na escolha do sistema mais adequado de impermeabilização para as fundações de uma edificação. Dentre eles, a geometria das peças, a facilidade de acesso, o nível do lençol freático e a qualificação da mão de obra. Nesse contexto, é natural pensar que membranas moldadas in loco são mais adequadas para, por exemplo, peças com pequenas dimensões ou superfícies muito recortadas. Já o uso de mantas asfálticas pré-fabricadas é viável em cortinas com possibilidade de acesso à face em contato com o solo.

Há, no entanto, situações em que esse acesso não é viável, o que exige soluções integradas. Uma das possibilidades para situações como essa é a criação de paredes duplas com ou sem rebaixamento de lençol. Além disso, é recomendável, nesses casos, impermeabilizar a face oposta com impermeabilizantes à base de cimentos poliméricos ou cristalizantes.

Confira algumas possibilidades de impermeabilização para os seguintes elementos de fundação:
Viga baldrame: adotada como fundação de edificações com cargas reduzidas, como residências, geralmente recebem tratamento com argamassa impermeável até 1 m acima do piso acabado, com camadas de tinta asfáltica sobre o capeamento.
Radier: atuando como laje de concreto armado, está sujeito a fissuras. Com isso, o ideal é utilizar sistemas de impermeabilização flexíveis, como mantas asfálticas. Essa tecnologia de impermeabilização acompanha a movimentação da estrutura ao mesmo tempo que cria uma barreira física. Dessa maneira, a umidade do solo não sobe para a estrutura.
Sapatas: esses elementos de fundação são, em geral, capeados com argamassa impermeável em toda a superfície da fundação, ou seja, laterais e topo, além de receberem aplicação de tinta asfáltica impermeável.

Subsolos e demais estruturas enterradas demandam o uso de impermeabilizações positivas, aquelas aplicadas na face em contato com o solo. Quando o acesso à face em contato com o solo não existe, é necessário conceber um concreto com baixa porosidade que faça a função de impermeabilizante, o que mostra, na prática, a importância da compatibilização entre os projetos.

Além disso, para qualquer que seja a situação, a escolha do sistema de impermeabilização não pode estar vinculada somente a aspectos econômicos. Afinal, uma vez que a obra for concluída, tais elementos ficarão inacessíveis. Logo, qualquer manutenção que se faça necessária encontrará complexos impedimentos técnicos e operacionais.

Para qualquer que seja a situação, a escolha do sistema de impermeabilização não pode estar vinculada somente a aspectos econômicos. Afinal, uma vez que a obra for concluída, tais elementos ficarão inacessíveis.

Principais erros na impermeabilização de fundações

Não ter um projeto de impermeabilização.
Falta de compatibilização com os demais projetos da obra.
Pouca atenção às etapas de preparo da superfície para receber a impermeabilização.
Pouca atenção às camadas de proteção e, por vezes, ao isolamento térmico que se seguem ao serviço de impermeabilização propriamente dito.
Falha na preparação da superfície.
Escolha do sistema inadequado.
Não observar as instruções do fabricante para preparar o produto.
Não considerar a espessura final do impermeabilizante.
Usar menos produto do que o recomendado pelo fabricante.
Não respeitar os tempos de cura indicados pelo fabricante.
Não compatibilizar a impermeabilização com os sistemas pré-moldados.
Execução de furos em vigas já impermeabilizadas, o que compromete a estanqueidade.
Descuido com o nível do contrapiso, que em alguns casos tem o arremate acima do nível da viga baldrame impermeabilizada, favorecendo a passagem da umidade do contrapiso para a parede.

Proteção para radier e baldrame: asfalto emulsionado modificado

As lajes radiers têm comportamento estrutural semelhante ao das lajes convencionais, ou seja, estão sujeitas a fissuras. Por isso, o impermeabilizante deve ser flexível. Monocomponentes facilitam a aplicação, pois dispensam o preparo pela mão de obra. Há no mercado produtos com aplicação a frio e moldagem no local, formulados a partir de asfalto emulsionado modificado com elastômeros. Um dos principais problemas das patologias relacionadas à umidade está na aplicação dos produtos, e não na composição dos impermeabilizantes.

Depois de regularizar a superfície da laje, é aplicada uma primeira demão do produto diluída em 10% a 30% em água. Em seguida, são aplicadas duas ou mais demãos sem diluir. Entre a primeira e a segunda demão, é incorporada tela de poliéster. Após a secagem (que deve seguir exigência do fabricante), deve ser executada a proteção mecânica.

Sapatas devem receber capeamento com argamassa impermeável em toda a superfície da fundação

Por: Bruno Loturco

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