Como construir: alvenaria estrutural com blocos de concreto

Focar a organização e a racionalização do canteiro, por exemplo, pode garantir uma boa produtividade, assim como o treinamento dos funcionários para atuar com precisão em cada etapa da obra. O aperfeiçoamento da fiscalização antes, durante e no pós-obra também é preocupação constante dentro das empresas.

O sucesso de uma obra de alvenaria estrutural começa com o projeto, que deve ser elaborado sempre seguindo a norma ABNT NBR 15961-1, que dispõe sobre a Alvenaria Estrutural – Blocos de Concreto. “É importantíssimo o projeto já nascer com as premissas que a empresa quer. Deve ser bem otimizado, com as elevações bem definidas”, avalia Giuseppe Vergara, gerente-geral de obras da Cury Construtora.

Vale lembrar que a execução da obra também deve seguir uma norma técnica, no caso, a ABNT NBR 15961-2, que estabelece os requisitos mínimos exigíveis para a execução e o controle de obras com estruturas de alvenaria que utilizam blocos. O documento inclui a necessidade de caracterização prévia dos materiais a ser utilizados (bloco, argamassa, graute e prisma), além da revisão dos procedimentos de ensaios fundamentais para a caracterização da alvenaria.

Penha São Paulo

Construído por completo em alvenaria estrutural, o Penha São Paulo possui quatro condomínios (Dez Penha, Dez Tiquatira, Mérito Penha e Mérito Tiquatira) e tem sido tratado pela Cury Construtora como uma obra única, que se iniciou em abril de 2016 e deve ser entregue em datas diferentes, começando pelo primeiro condomínio em outubro de 2018, até o último, em abril de 2019. A área total de alvenaria estrutural com blocos de concreto do empreendimento ultrapassa os 110.000 m².

Conforme explica Giuseppe Vergara, a fundação foi feita de estaca hélice contínua, onde há a perfuração do solo com o auxílio de uma máquina perfuratriz e posterior concretagem por bombeamento de concreto pelo interior da haste tubular. Como precaução, duas empresas de topografia foram contratadas: uma para locação e outra para conferência.

Neste projeto, a empresa preparou um planejamento para executar duas fundações ao mesmo tempo, em um prazo de dez dias. Isso permitiu que a troca do trado da máquina fosse feita somente após a conclusão das estacas com o mesmo diâmetro, evitando perda do concreto e otimizando a produção, uma vez que a desmontagem do trado da hélice é um processo lento.

Em seguida, a empresa levou 30 dias para construir as vigas baldrames, simultaneamente, em duas torres, com dois jogos de fôrma. “Depois, há o embasamento, que são duas fiadas de alvenaria estrutural que têm a função realmente de dar nível para poder embutir as instalações hidráulicas no piso”, explica o gerente da Cury Construtora.

INSTALAÇÃO HIDRÁULICA

A parte hidráulica foi realizada, na execução das fôrmas, por meio de um gabarito em EPS para definição dos locais de shaft. “Utilizamos luva com abas fixadoras para marcação dos pontos sanitários e ralos e um encanador acompanha a concretagem da laje, para garantir que nenhum ponto fique diferente do projeto”, afirma Vergara.

O empreendimento Penha São Paulo, com quatro torres, é integralmente construído em alvenaria estrutural com blocos de concreto. As instalação elétrica e hidráulica são executadas concomitantemente à alvenaria

A EXECUÇÃO

A marcação foi feita da seguinte maneira:
primeiramente, o ponto crítico do nivelamento da laje é encontrado. Após essa etapa é determinada a saída da alvenaria, nivelando a marcação com a utilização de nível a laser no topo da primeira fiada. Qualquer imperfeição que exista na laje ou na viga baldrame é corrigida ainda na primeira fiada, para garantir o que a empresa chama de primeira fiada zerada. “Se há algum defeito, a gente corrige com um graute tixotrópico, geralmente especificado pelo nosso engenheiro calculista”, afirma Vergara.

As paredes são marcadas
sempre a partir dos eixos principais da estrutura, sem a utilização de escantilhões, mas com gabaritos metálicos de vãos. “A gente trabalha com o nível a laser e com os chamados castelos, que fazem a pirâmide no canto da alvenaria”, diz Vergara. O uso do gabarito metálico é fundamental, pois garante o vão para futura instalação do caixilho e das portas, evitando qualquer erro posterior.

O assentamento dos blocos
foi feito com argamassa industrializada Bela Vista, variando de 14 MPa a 4 MPa, de acordo com a tabela de resistências por pavimento. Além disso, a empresa utilizou linha, prumo, gabarito metálico de vãos, balde graduado para dosagem da água e misturador elétrico de eixo horizontal. A Cury adotou um sistema de fiscalização com fichas de verificação que analisa item por item, tanto no aspecto de preenchimento de todas as juntas quanto no nivelamento da alvenaria. “Depois da primeira fiada, eu tenho uma reconferência do nivelamento na quinta fiada. Se eu encontrar algum problema ali, ou desmancho ou corrijo da fiada para cima”, explica Vergara. Nesta obra, as resistências dos blocos variam de 20 MPa a 4 MPa. Foram utilizados blocos inteiros da Glasser, Tatu e Presto de 14 x 19 x 39 cm, meio bloco de 14 x 19 x 19 cm, bloco canaleta U de 14 x 19 x 39 cm e blocos especiais com as seguintes medidas 14 x 19 x 54 cm, 14 x 19 x 34 cm, 14 x 19 x 9 cm e 14 x 19 x 4 cm. “Em cada pavimento realizamos os ensaios de prisma oco e prisma cheio para verificação da resistência e análise dimensional para checar as das dimensões dos blocos.”

GRAUTEAMENTO

O grauteamento foi realizado com a utilização de elevador cremalheira, caixote metálico, carrinho hidráulico, balde e andaimes, na proporção média de 12 m³ por pavimento. De acordo com a tabela, o graute varia de 30 MPa a 15 MPa e foi fornecido pelas empresas Intercement, Polimix e Engemix. Primeiro, o graute é lançado até a quinta fiada, a fim de evitar a segregação, pois em uma altura muito alta o risco de segregação é grande. A segunda etapa de lançamento do graute é feita na altura do respaldo. Após o preenchimento, uma equipe com furadeira confere em duas posições e atesta a correta aplicação do graute.

INSTALAÇÃO ELÉTRICA

Em relação à instalação elétrica, na marcação da alvenaria foi realizada a transição do eletroduto plano médio para o eletroduto corrugado laranja. Um eletricista acompanhou a execução desde a concretagem da laje até o término da alvenaria para garantir que nenhum ponto ficasse diferente do projeto. Após a conclusão da alvenaria do andar, a serra-copo foi usada para instalação das caixinhas e serra mármore para instalação do quadro, finalizando o andar.

FICHA TÉCNICA

Penha São Paulo
Localização Rua Henrique Cazela, s/no – São Paulo (SP)
Início da obra abril de 2016
Entrega outubro de 2018
Estrutura 4 torres (Dez Penha, Dez Tiquatira, Mérito Penha e Mérito Tiquatira)
Pavimentos 18 andares cada torre
Unidades 1.050 apartamentos – de 44,94 m² a 64,62 m²
Área total construída 75.900,09 m²
Área total da alvenaria estrutural em blocos de concreto 111.498,35 m²

Edifício Contemporâneo

O grande trunfo da construção do Edifício Contemporâneo, empreendimento com duas torres de 12 e 13 pavimentos em Jundiaí (SP), foi a racionalização do canteiro de obra. Com experiência de mais de 17 anos em construções de alvenaria estrutural, o departamento de engenharia de produção da FA Oliva fez um trabalho de dois meses de análise de cada etapa e determinou uma série de mudanças na execução, que vão desde o dimensionamento da equipe até o cronograma detalhado da execução da obra.

“Fizemos uma análise em relação a cada processo, identificando a obra mais eficiente, os custos que poderíamos otimizar, o que dava para tentar fazer a fim de deixar o processo mais racionalizado e otimizado”, explica Gregory Lacerda, engenheiro de produção da empresa. Isso garantiu um ganho de produtividade de cerca de 30% na construção da alvenaria estrutural (antes era de 1,3 HH/m² e foi reduzido para 1 HH/m²).

No Contemporâneo, a equipe de mão de obra foi definida pela média de produtividade de cada funcionário. “A gente analisa quem tem o melhor rendimento e dá uma área maior para a pessoa, para que todos terminem no mesmo prazo”, explica o engenheiro. Na obra em questão, quatro colaboradores tinham cinco dias para a execução de cada pavimento. Detalhes como o que será feito em cada dia e horário estão no projeto: “Há uma descrição dos serviços que eles têm que fazer, e até o tempo que têm para trabalhar”, afirma Lacerda.

Com um prazo determinado no cronograma, a primeira fiada foi executada. “A gente fez a locação dos quatro cantos com o auxílio de topografia, marcou o canto, conferiu o eixo e cruzou as medidas, para ver se estavam iguais. Então, esticamos as linhas nos cantos principais e fizemos a distribuição dos blocos”, conta Gregory Lacerda. Enquanto isso, um encarregado marcava o nível da oitava fiada com o auxílio do nível a laser.

OS BLOCOS – PROJETO DE ELEVAÇÃO DAS PAREDES

RACIONALIZAÇÃO

O processo de racionalização ajudou bastante na etapa de assentamento dos blocos. Isso porque o operador de grua possui uma planilha que indica quantos páletes e quais tipos de blocos serão usados em cada pavimento. Dessa forma, conforme vão sendo retirados pela equipe de alvenaria, o operador consegue verificar de maneira a sempre deixar o páletes abastecido. “Não existe aquela disputa de sair pegando um monte de blocos, porque os funcionários sabem que não vai faltar o material”, explica.

 CONTROLE DE DESEMPENHO

A empresa faz todos os ensaios (bloco, graute, argamassa e prisma) por meio de laboratório próprio. “O ensaio mais importante é o de prisma, porque é um conjunto de dois blocos com um cordão de argamassa no meio”, afirma Gregory Lacerda. Para o prisma, a resistência variou de 9,6 MPa, nos pavimentos inferiores, a 3,2 MPa, nos últimos pavimentos. A grande vantagem da alvenaria com blocos de concreto é a facilidade de passagem de tubulações elétricas pelos vazados dos blocos. Na obra do Contemporâneo, a equipe de elétrica entrava em ação quando a de alvenaria terminava a parede. “São marcadas as posições das caixinhas de elétrica e, quando chega na fiada de respaldo, o eletricista começa a passar os eletrodutos pelo vazado do bloco. Eles terminam quase que junto com os pedreiros, aí a gente grauteia”, explica Lacerda.

Os blocos utilizados na obra do Contemporâneo foram da família 39 (14 x 19 x 39 cm), fornecido pela empresa Blocos Vissoli. A resistência variou de 12 MPa nos três primeiros pavimentos, chegando a 4 MPa nos últimos pavimentos. O assentamento foi feito com argamassa industrializada da marca Pavimix, variando de 12 MPa até 2,8 MPa. A aplicação foi feita com a palheta e, segundo o engenheiro, houve fiscalização e treinamento dos funcionários para garantir que a junta ficasse com, no máximo, 0,8 a 1,2 cm.

Chegando à oitava fiada, foi iniciado o processo de grauteamento – nesta obra foi realizado através de baldes. “Antes de aplicar o graute, a gente limpa o bloco, daí lançamos o graute, que é autoadensável. Você vê que o graute chegou embaixo porque tem a janela de inspeção”, explica Lacerda. Os modelos de graute utilizados foram de resistências de 30 MPa, da Pavmix (ensacado), e 30 MPa da Supermix (usinado).

FICHA TÉCNICA

Edifício Contemporâneo
Localização Av. Arquimedes, 1375 – Jundiaí (SP)
Lançamento julho de 2015
Entrega julho de 2018
Estrutura 2 torres
Bloco 1 – 12 pavimentos
Bloco 2 – 13 pavimentos
144 apartamentos
Apartamentos-tipo
2 dormitórios | 66m²
– uma ou duas vagas cobertas 3 dormitórios | 79m²
– duas vagas cobertas
Área total do terreno 4.934,64 m²
Área da alvenaria estrutural de blocos de concreto 20.000 m²
Incorporação Oliva Empreendimentos
Realização e vendas FA Oliva & Cia. Ltda.
Construção Urbitec Construções
Projeto arquitetônico Eliana Parrillo e Marcelo Antoniazzi

Por: Dirceu Neto

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