Utilização da linha de balanço: como dimensionar equipes e demandar o ritmo de produção das atividades

Cintia Beitler Abrantes,
engenheira civil da MRV Engenharia e Participações S/A

Dr. Wilson Shoji Iyomasa,
professor da Universidade Anhembi Morumbi
pesquisador III do Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT

A linha de balanço é uma técnica de planejamento utilizada para a programação de atividades repetitivas de um projeto, definindo o ritmo de trabalho de cada tarefa para se obtiver as linhas balanceadas. Um item extremamente importante para o funcionamento da linha de balanço com eficácia é possuir os índices de produtividade de cada serviço de acordo com a realidade da empresa, pois com essas informações pode-se dimensionar as equipes e demandar o ritmo de produção para cada atividade de maneira assertiva, isso traz resultados como: ter o conhecimento da data exata do início de cada serviço, evitando a ociosidade da equipe ou interferências com as outras atividades (atropelamento), e também a correta contratação do número de funcionários, evitando o excesso de mão de obra e o alto custo com folha de pagamento.

Introdução
O setor da construção civil tem um importante papel na economia brasileira, por outro lado é um dos setores mais sensíveis com as variações da economia interna do país. Isso exige que as empresas da indústria da construção civil busquem melhorias para se tornar cada vez mais competitivas.

A atual crise financeira, que atinge o setor, obriga as empresas a encontrar um diferencial para se destacarem no mercado, e isso gera um aumento na concorrência, notadamente, por níveis de produtividade cada vez melhores e de controle gerencial rigoroso nas obras.

As maiores necessidades das empresas do setor da construção civil são as reduções de custos e do prazo de execução dos serviços. E para atingir essas metas é essencial um bom planejamento, fundamentado no conhecimento teórico e prático para dar início no momento exato de uma atividade; estabelecer a duração ideal para cada uma das atividades previstas, que demandará o ritmo de todo o projeto, e o dimensionamento correto das equipes de produção, evitando ao máximo a ociosidade de funcionários, assim como a falta de mão de obra, que ocasionam o atraso no cumprimento das tarefas. Ou seja, aumentar a produtividade com a finalidade de diminuir custos.

Apresenta-se uma da solução já existente para se conseguir esse aumento de produtividade com o dimensionamento adequado das equipes e no estabelecimento das durações das atividades a ser realizadas.

No estudo prático utilizou-se a Linha de Balanço (LDB) que tem sua aplicação em obras repetitivas, como na construção de conjunto habitacional de edifícios, no qual a unidade de repetição pode ser pavimentos, como utilizado no estudo de caso deste artigo. O caso prático mostra como foram coletados os dados para o dimensionamento de equipes de acordo com os índices de produtividade levantados, a sua aplicabilidade na LDB e os resultados obtidos com os custos de mão de obra em relação ao orçamento da obra.

Segundo Maziero (1990) em sua dissertação, a Linha de Balanço (LDB) é um método que permite fechar o ciclo do planejamento, programação e controle, sem que se perca a operacionalidade necessária, permitindo também uma aplicação rápida sem aumento no custo do processo de coordenação da obra. A aplicação resulta em uma ordenação estruturada de logística, e apresenta resultados com clareza e facilidade de entendimento, transmitindo com simplicidade informações a respeito do tempo e posicionamento do trabalho, em obra.

A utilização dessa técnica da LDB é muito restrita no Brasil, provavelmente, devido à inexistência de softwares brasileiros e à falta de conhecimento em relação ao método.

Sendo assim, a ideia é demostrar que a Linha de Balanço traz melhorias na estratégia da obra e é de simples utilização e de fácil entendimento para todos da equipe de gerência de uma obra.

Linha de balanço
A Linha de Balanço (LDB), ou Line of Balance (LOB), como é conhecida internacionalmente, é uma técnica de planejamento e controle utilizada para a programação de atividades repetitivas de um projeto, como mencionado anteriormente. Na construção civil é utilizada em projetos que apresentam características lineares, tais como conjuntos habitacionais, edifícios com múltiplos pavimentos, instalação de tubulações em obras de saneamento, estradas e túneis, onde há repetição contínua de procedimentos para executar atividades repetitivas durante todo o tempo da obra (Mendes, 1999, p.3, apud LUTZ e HIJAZI, 1993).

A LDB indica a sequência de execução das atividades por meio das unidades de repetição da obra, que podem ser em apartamentos, pavimentos, instalação de canalizações de saneamento, a construção de pavimentos de rodovia etc. O tempo de duração das atividades em ciclos define o ritmo do trabalho para obter a linha balanceada. O planejamento das atividades é feita em forma de gráfico, de fácil interpretação e visualização, que fornece o tipo de atividade em execução, o posicionamento das equipes técnicas nas unidades em construção, a programação futura para deslocamentos dessas equipes, duração etc. Essa facilidade em obter essas informações é a principal vantagem da linha de balanço.

Ainda conforme cita o referido autor, pelo conceito da LDB as atividades são executadas durante todo o projeto de forma linear, a produtividade de cada serviço é a mesma em todo o trajeto. Portanto, o ritmo de cada atividade é calculado levando-se em consideração os índices de produtividade da equipe, a quantidade de serviço a ser executada e a disponibilização dos recursos, como máquinas e mão de obra. Isso permite programar o número de entregas pelas equipes envolvidas para um determinado período de tempo.

PPCP – Planejamento, Programação e Controle da Produção
O conceito do PPCP é programar as atividades de produção a fim de garantir que todos os recursos envolvidos no processo estejam sendo utilizados nos produtos previstos e prioritários, atendendo aos planos estabelecidos (CORRÊA; GIANESI; CAON, 2001).

As etapas do PPCP têm função específica no desenvolvimento e atividades em um projeto. A etapa de Controle da Produção objetiva a extração de dados e informações das tarefas, conforme elas são realizadas, e permite determinar desvios em tempo hábil para tomadas de ações corretivas e/ou preventivas. Outro fator importante do Controle da Produção é a medição da produtividade de cada uma das equipes, possibilitando estabelecer referencias reais da produção de cada equipe, e consequentemente aperfeiçoa-se o dimensionamento de equipes na etapa do Planejamento, permitindo que se trabalhe com dados próximos à realidade da empresa.

Estudo de caso
Pelo que foi exposto nos itens anteriores, a aplicação da técnica de LDB requer informações corretas e precisas dos índices de produtividade da mão de obra, utilizados em cada atividade a ser executada na obra. Esse conjunto de informações precisas permite definir o ritmo das tarefas a partir da quantidade de serviço a ser realizada e o número de mão de obra necessária, ajustando as datas de inicio de cada atividade, a fim de eliminar as folgas e caminhos críticos, e programar as tarefas paralelamente.

Para o levantamento dessas informações precisas foi utilizada a técnica do PPCP com a finalidade de medir a produtividade de todas as equipes envolvidas, dimensionar o emprego dos equipamentos de acordo com a necessidade e prioridade do serviço executado. As informações coletadas neste estudo de caso foram dos serviços de alvenaria, laje, emboço (reboco interno + contrapiso), gesso corrido, cerâmica e pintura (emassamento + demão). As fundações e o cintamento já estavam executados no período desse levantamento.

Com a coleta dessas informações foi possível montar um banco de dados como parâmetro para o uso da linha de balanço, tanto na obra em questão quanto nas demais obras da mesma coordenação da empresa.

O presente estudo de caso foi realizado em um empreendimento constituído de 672 apartamentos distribuídos em 6 torres com 14 pavimentos e 8 apartamentos por andar. O método utilizado para a construção dos edifícios é do tipo alvenaria estrutural com laje maciça. A construtora responsável pelo projeto possui centenas de obras distribuídas em todo o território nacional.

Todo o levantamento dos índices de produtividade a ser apresentado foi realizado num período de 15 dias, coletando-se as informações em todas as frentes de serviços citadas. O tempo de duração das atividades foi medido em minutos e foram considerados os períodos de serviços produtivos e improdutivos.

Os levantamentos foram realizados de forma sigilosa para evitar desvios nos dados, decorrentes de atuações diferenciadas dos funcionários das equipes que executavam as atividades. Com essa medida é possível obter-se resultados que ilustrem a realidade da produção da obra.

Posteriormente ao inicio da tarefa, foi realizada a coleta de dados da produtividade de cada funcionário, ou da sua equipe. Registre-se que foi de extrema importância anotar as condições climáticas durante o período de execução do serviço, já que influenciam no índice de produtividade do funcionário que executa atividades expostas ao clima.

Para os equipamentos, no caso a grua e as betoneiras, também realizaram-se coletas de dados para determinar a produtividade, contabilizando o tempo em minutos para as betoneiras produzirem massa de alvenaria e o grout, assim como o tempo que a grua demandava para abastecer cada estação de trabalho.

Após todas as medições efetuadas, os dados coletados foram consolidados em um banco digital para permitir a extração dos índices de produtividade de cada funcionário ou da equipe técnica.

Na Figura 1 apresenta-se um exemplo de horas trabalhadas de uma equipe para execução de alvenaria em cada pavimento, bem como pode-se obter a média acumulada de produção. As informações do gráfico estão em horas.

Outro dado coletado foi o índice de produtividade da equipe de alvenaria, como mostra a Figura 2. Os indicadores estão em m²/hora de uma equipe, e os gráficos foram gerados para todos os serviços e em todas as frentes de trabalhos mencionadas. A partir desses dados podem-se realizar análises estatísticas e fazer comparações entre equipes, cujas médias devem ser próximas para evitar desequilíbrios na técnica da LDB (BERNARDES, 2003).

Após os levantamentos e para a aplicação da linha de balanço, utilizou-se como duração principal a atividade de alvenaria, por ser a atividade que demanda o ritmo do projeto. Para o Planejamento das demais tarefas estabeleceu-se o mesmo tempo de duração da alvenaria para determinar e dimensionar as equipes necessárias, de acordo com as informações precisas das produtividades de cada uma delas.

Para estimar o tempo de duração no planejamento para execução da alvenaria, foi utilizada a fórmula PERT – Program Evaluation and Review Technique – (eq. 1), indicada pelo PMI – Project Management Institute (2013, p.169), como estimativa de três pontos para definir uma faixa aproximada para a duração de uma atividade:

Onde:
 Otimista (tO). A duração da atividade é baseada na analise do melhor cenário para a atividade.

 Mais provável (tM). Essa estimativa é baseada na duração da atividade, dados os recursos prováveis de serem designados, sua produtividade, expectativas realistas de disponibilidade para executar a Pessimista (tP). A duração da atividade é baseada na analise do pior cenário para a atividade.

Assim a duração da alvenaria foi calculada e resultada em 32,33 horas, ou seja, 3,6 dias.

Finalmente, foram definidas as equipes de acordo com as quantidades de serviços a serem realizadas e dimensionadas em função com a duração programada para cada tarefa. Para as atividades de alvenaria e laje, foram atribuídos os equipamentos utilizados (grua e betoneira), com as devidas programações de acordo com o tempo obtido no banco de dados sobre a operação de cada equipamento e a duração para a realização das atividades. A Tabela 1 resume para cada atividade a média de produtividade, demanda de mão de obra e quantitativos em cada equipe.

Após a definição das equipes e suas durações, construiu-se a rede lógica dos serviços, que tem por objetivo analisar as dependências entre as atividades, determinando a sequência de execução dos serviços.

Assim, foram traçadas as linhas de balanço, como mostra na Figura 3, nas quais pode-se observar o planejamento da cada atividade prevista na obra, com as mesmas durações e sem que haja equipe ociosa.

RESULTADOS OBTIDOS
O levantamento de dados da produtividade utilizando o controle do PPCP foi um diferencial para a programação pela técnica da Linha de Balanço, e principalmente aproximou o cronograma do planejamento bem próximo ao executado. Portanto, a coleta de dados das equipes e a aplicação dos conceitos da LDB permitiram elaborar programação próxima à realidade e os índices de produtividade das equipes ajudaram a montar um planejamento eficaz.

Fonte: Empresa (2015)

Com os números levantados foram dimensionadas as equipes e demandados os ritmos de duração de cada atividade. Isso ajudou a planejar a data correta para iniciar os serviços sem que houvesse ociosidade de funcionários e de equipes, ou mesmo interferências com outras atividades.

Adicionalmente, o emprego correto dessa técnica possibilitou realizar contratações de um número exato de funcionários, evitando equipe com excesso de mão de obra e, portanto, mantendo custo enxuto da folha de pagamento. Registra-se que a construtora conseguiu reduzir o custo de mão de obra orçado na etapa de planejamento.

Na Tabela 3 são apresentadas as reduções conseguidas na mão de obra para os diferentes tipos de serviços executados em relação ao orçamento previsto para a obra (que tem como base a tabela de preços praticados na regional), ou seja, houve redução comparando aos preços praticados nas demais obras da construtora.

Destacam-se as reduções significativas nos serviços de laje, onde o levantamento constatou que somente a equipe de oficiais de carpinteiro, com o fato de ter a grua, pode realizar o serviço de acordo com o prazo sem a necessidade de serventes. Outro serviço com redução significativa foi o emboço, em que foi possível englobar o serviço de reboco interno e contrapiso no mesmo pedreiro.

Já para as atividades de alvenaria, gesso e pintura as redução se deram principalmente pelo aumento da produtividade das equipes que foram dimensionadas para que não exista ociosidade e com isso redução na folha de pagamento, principalmente no gesso e pintura interna que foram realizados por empresas terceirizados e com isso maior poder de negociação de preços com os empreiteiros.

CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
O principal objetivo deste estudo é apresentar a utilização da Linha de Balanço para a construção de um edifício residencial com 14 pavimentos. Para utilizar essa técnica foi necessário desmembrar a unidade de repetição, identificar as principais atividades e aquela que estabelecia o ritmo da construção para o dimensionamento das demais equipes de construção.

Utilizaram-se os dados coletados pelo PPCP – Planejamento, Programação e Controle da Produção e aplicaram-se as equações do PERT – Program Evaluation and Review Technique para determinar os tempos de duração para execução de cada uma das atividades previstas.

Pelo exposto, concluiu-se que a LDB é uma ferramenta eficiente e eficaz na programação das atividades de edifícios, principalmente nos casos em que há poucas atividades ocorrendo em paralelo. É uma metodologia de fácil entendimento e permite o acompanhamento diário, sendo possível saber qual frente de serviço e o local que deve estar ocorrendo em uma determinada data.

Para o emprego da Linha de Balanço recomenda-se realizar levantamento das produtividades das equipes envolvidas e adotar os conceitos estabelecidos, seja no PPCP, PERT e na LDB.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERNARDES, Maurício Moreira e Silva. Planejamento e controle da produção para empresas de construção civil. Rio de Janeiro: LTC, 2003.

CORRÊA, H. L.; GIANESI, I. G. N.; CAON, M. Planejamento, Programação e Controle da Produção. 4 ed. São Paulo: Atlas, 2001.

MAZIERO, Lucia Teresinha Peixe. Aplicação do conceito do método da linha de balanço no planejamento de obras repetitivas. Um levantamento das decisões fundamentais para a sua aplicação. 1990. 160 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Engenharia, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1990.

MENDES JUNIOR, Ricardo. Programação da produção na construção de edifícios de múltiplos pavimentos. 1999. 194 f. Tese (Doutorado) – Curso de Engenharia de Produção, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1999.

PMI – PROJECT MAGEMENT INSTITUTE. Um guia do conhecimento em gerenciamento de projetos (GUIA PMBOK), 5ªed. São Paulo: Saraiva.

SOUZA, Leonardo Viana Frugoni de. Aplicação do método da linha de balanço no planejamento e controle de atividades repetitivas. 2014. 20 f. Monografia (Especialização) – Curso de Engenharia, Universidade Salvador – Unifacs, Salvador, 2014. Disponível em: . Acesso em: 24 abr. 2016

VARGAS, Ricardo Viana; MOREIRA, Felipe Fernandes. Modelando Linhas de Balanço com Relacionamentos “Início-Término”. Disponível em: . Acesso em: 24 abr. 2016.