Graute: microconcreto ou argamassa?

Teste de fluidez realizado com graute durante recebimento do produto na obra

O impasse da classificação do graute se dá, principalmente, devido a uma falta de normatização brasileira exclusiva para o material e também à grande quantidade de tipos do produto disponíveis no mercado, que variam de acordo com a finalidade de uso. Os dois principais campos de utilização dos grautes são as obras de alvenaria estrutural e as de recuperação estrutural.

“Na realidade, eu digo que o graute é um filho sem dono”, afirma Fabio Campora, diretor executivo da Associação Brasileira de Argamassa Industrializada (Abai), que acredita que o produto deve ser tratado como uma argamassa por não possuir agregado graúdo (brita) em sua composição.

O graute até pode utilizar o agregado graúdo, mas numa fração pequena, os chamados pedriscos, com uma composição granométrica distribuída para garantir um maior nível de compactação possível. Além disso, possui cimento, areia e aditivos, que podem variar de acordo com a finalidade de sua aplicação.

Para Antonio Figueiredo, professor da Escola Politécnica Universidade de São Paulo, o graute é um microconcreto autoadensável que possui “um pouco dos dois mundos”. “Se a gente tomar por hipótese que tudo que não tem agregrado graúdo é argamassa, então o graute é argamassa. Mas essa é uma definição muito simplista porque a finalidade de aplicação de argamassa é outra”, explica Figueiredo.

Cutelos para a realização de ensaio do graute à flexão

O impasse da classificação
Ao contrário das argamassas, o graute tem exigências vinculadas a um comportamento estrutural. Isso é devido principalmente às suas características como alta resistência (maior que 14 MPa nas primeiras 24 horas), alta fluidez (com slump entre 20 e 28 cm), baixa ou nenhuma retração, não deve apresentar segregação e exsudação pronunciadas, autoadensabilidade, expansão controlada. Para minimizar ou ressaltar algumas dessas características, são usados os aditivos, que podem ser dispersantes (plastificantes) ou não plastificantes.

A variedade de aplicações do graute é uma das maneiras de se classificar os diversos tipos existentes no mercado. “Para cada segmento, há um tipo de graute. Existe o segmento da alvenaria estrutural, que é um tipo de graute. Existe o segmento da indústria que usa graute para piso ou graute industrial. E há o graute de alto desempenho, que é para junção de pré-moldados, e o graute de reparo”, explica Daniel Franco da Silva, gerente de unidade do Grupo Falcão Bauer.

“Antigamente, o pessoal fazia muita confusão porque o termo graute tradicionalmente era mais usado para um produto que servia para reforço de estrutura ou fazer peças especiais, que eram grautes poliméricos, extremamente resistentes e caros, e que não têm nada a ver com o graute usado na alvenaria

Ensaio da resistência do graute à compressão

estrutural. O graute que se usa na alvenaria é um microconcreto, e foi chamado de graute porque a literatura internacional sempre o chamou assim”, diz Luiz Sérgio Franco, diretor técnico da Arco Assessoria em Racionalização Construtiva.

Ultimamente essa classificação tem sido feita pelos próprios fabricantes do produto, que criam as denominações de acordo com as necessidades do setor, uma vez que não há ainda normatização específica para o graute, tal como existe para o concreto e para a argamassa.

“É um produto que está com uso crescente, e por isso precisa ter normas técnicas criadas, mas acaba ficando em uma situação indefinida. Porque nem o pessoal do concreto nem o pessoal da argamassa desenvolveram normas técnicas para o graute”, afirma Fabio Campora, da Abai, e também coordenador da CE18:400.04 Comissão de Estudos de Argamassa de Assentamento e Revestimento da ABNT. A expectativa é que os estudos referentes ao graute na ABNT comecem neste ano.

Ensaios do graute para verificação de fluidez do materia

Outra forma de organizar a tipologia é basear-se no tamanho do agregado. Os grautes injetáveis utilizados em reparos e recuperação estrutural possuem agregado muito fino (partículas menores que 75 mícron m); os grautes de argamassa são usados para piso de alto desempenho e têm em sua composição o agregado miúdo (menor ou igual a 4,8 mm); os grautes de microconcreto, muito utilizados em alvenaria estrutural, possuem o pedrisco ou a brita 0 (menor ou igual a 9,5 mm); e os grautes de concreto, também para a mesma finalidade, têm adição de até 30% de brita 1 (menor ou igual a 19 mm).

Fachada do empreendimento Living Magic, que utilizou em três torres de 19 pavimentos (cada) 300 m3 de graute

Alvenaria estrutural
Em projetos de alvenaria estrutural, a utilização do graute é indispensável, uma vez que o uso do produto é responsável pelo aumento da resistência da estrutura. “Observamos dois tipos principais de aplicação: graute horizontal, para preenchimento de vergas, contravergas e cintas de respaldo, sempre usando blocos canaleta; e graute vertical, em caso de uso da técnica como função estrutural (resistência à compressão ou envolvimento de armaduras verticais)”, explica Rodrigo Muller, diretor de engenharia da Cyrela São Paulo, dona da marca Living, que utilizou o sistema de alvenaria estrutural em 93% de suas obras realizadas no ano passado.

Alvenaria estrutural da Cyrela opta pelo uso de graute usinado

Um dos empreendimentos da marca, o Living Magic, localizado em Osasco (SP) e que será entregue em fevereiro de 2018, utilizou nas suas três torres de 19 pavimentos cada aproximadamente 300m³ de graute InterCement, com resistências que variam de 10MPa a 40MPa. Devido à grande quantidade empregada, não valia a pena comprar o graute ensacado, uma vez que o produto costuma ser mais caro e também requer uma preocupação com seu preparo na obra, esquema de dosagem, tempo hábil para o estudo e cálculo do traço.

Por isso, a empresa optou por comprar o graute diretamente de uma concreteira, o chamado graute usinado. “A escolha entre usinado e ensacado depende muito da quantidade de graute necessária em cada pavimento. Nossas obras são executadas 100% com graute usinado, e o graute ensacado é reservado somente para um eventual reparo na estrutura”, explica Muller.

FICHA TÉCNICA

Living Magic
Localidade: Osasco (SP)
Características da obra:
3 torres
19 pavimentos
449 apartamentos
Apartamentos-tipo:
2 dormitórios | 55m²
3 dormitórios | 83m²
Área total do terreno: 9.639,47 m²
Graute utilizado: 10 MPa a 40 MPa – InterCement (usinado)
Consumo de graute: aproximadamente 300 m³
Incorporação: Grupo Cyrela Brazil Realty
Realização e vendas: Grupo Cyrela Brazil Realty
Construção: Living Construtora
Projeto arquitetônico: Carlos Rossi / MCAA Arquitetos / Takeda Paisagismo & Urbanismo
Lançamento: agosto de 2015
Entrega: fevereiro de 2018

Detalhe da alvenaria estrutural já concretada com o graute usinado

O diretor técnico da Socalculo Projetos Estruturais, Valdir Silva da Cruz, explica que o graute usinado é menos utilizado em alvenaria estrutural não por causa da sua qualidade – que costuma ser boa -, mas por ser inviável economicamente. “Em um andar, você deve usar uns 5 a 6 m³ de graute. Então, vale a pena comprar um caminhão [do tipo betoneira, com capacidade para misturar de 5 m³ a 10 m³ de graute]. Se fosse precisar de 50 ou 100 litros, aí sim usaríamos o ensacado”, explica Cruz.

Outra possibilidade é dosar uma certa quantidade de cada um dos dois tipos. “Quando eu tenho um volume razoável de graute a ser aplicado, normalmente o usinado é mais barato e já está pronto, então a gente dá preferência ao produto vindo da concreteira. Dependendo da situação da obra, eu não consigo consumir os 5 m³ de um caminhão e, como não compensa pedir quantidades pequenas, a gente usa o graute de silos [ensacado]”, afirma Elias Koshevnikoff, gerente de projetos da F.A. Oliva Empreendimentos Imobiliários.

Esse cenário aconteceu, por exemplo, no edifício Contemporâneo, lançado pela construtora em 2015 e que será entregue em 2018. Localizado na cidade de Jundiaí (SP), o empreendimento possui duas torres – uma com 12 e outra com 13 pavimentos – e uma área de alvenaria estrutural de blocos de concreto de 20.000 m2, e precisou de 300 m³ de graute (50% ensacado e 50% usinado) para garantir a resistência da estrutura. Os modelos utilizados foram um graute com resistência de 30 MPa, da Pavmix, e um graute de 30

Fachada renderizada de empreendimento da F. A. Oliva em Jundiaí (SP). A empreiteira optou pelo uso de graute para a execução da alvenaria estrutural

MPa da Supermix. A maior quantidade foi aplicada nas canaletas e em furos verticais do bloco de concreto.

Para atestar a qualidade do produto comprado e também garantir o controle tecnológico, a F.A. Oliva Empreendimentos Imobiliários possui um laboratório próprio, onde é feito um ensaio quanto à resistência à compressão do produto, de acordo com o solicitado na norma da alvenaria estrutural (ABNT-NBR-15961-2). “No caso do graute, é só o ensaio de resistência, que é o que está previsto na norma de alvenaria estrutural. É exatamente o mesmo ensaio feito com o concreto. A forma é a mesma, o tamanho do corpo de prova é o mesmo, os cuidados de ruptura são exatamente os mesmos”, explica Koshevnikoff.

Edifício Contemporâneo, lançamento da F. A. Oliva em Jundaí, São Paulo

A única diferença em relação ao concreto é que, no caso do graute, o ensaio da resistência à compressão é feito aos 28 dias. “Isso acontece porque existem reações que ocorrem dentro da pasta de cimento que formam cristais que vão dar a resistência mecânica, e essas reações estão 90% prontas aos 28 dias”, explica Heloisa Bolorino, diretora de Avaliações e Laboratório da Concremat. Como o graute não tem uma normatização, são utilizadas as normas do concreto como referência para ensaio (ABNT NBR 5739) e amostragem (ABNT NBR 5738).

FICHA TÉCNICA

Contemporâneo
Localidade: Jundiaí (SP)
Características da obra:
2 torres
Bloco 1 – 12 pavimentos
Bloco 2 – 13 pavimentos
144 apartamentos
Apartamentos-tipo: 2 dormitórios | 66m² – 1 ou 2 vagas cobertas – 3 dormitórios | 79 m² – 2 vagas cobertas
Área total do terreno: 4.934,64m²
Área da alvenaria estrutural de blocos de concreto: 20.000 m²
Graute utilizado: 30 MPa – Pavmix (ensacado) e 30 MPa – Supermix (usinado)
Consumo de graute: 300 m³/ 600 toneladas
Incorporação: Oliva Empreendimentos
Realização e vendas: F. A. Oliva & Cia. Ltda.
Construção: Urbitec Construções
Projeto arquitetônico: Eliana Parrillo e Marcelo Antoniazzi
Lançamento: julho de 2015
Entrega: julho de 2018

F. A. Oliva

F.A. Oliva opta por graute usinado em obra residencial em Jundiaí (SP)

Recuperação estrutural
Enquanto o graute usinado é mais utilizado no sistema de alvenaria estrutural, para a finalidade de reparos ou recuperação estrutural é mais comum usar o graute industrializado – afinal, as quantidades são menores e o produto possui melhor qualidade, uma vez que agrega alguns estágios tecnológicos acima dos grautes fabricados.

Segundo Luiz Sérgio Franco, da Arco, os grautes para reparo de estrutura geralmente são muito mais fluidos, muito mais líquidos, com adição de resina, muitas vezes com a resina epóxi. “É um material específico para construções específicas, quando você tem uma necessidade específica. O contraponto é que é um produto mais caro do que o concreto tradicional”, afirma Cesar Henrique Daher, vice-presidente da Associação Brasileira de Patologia das Construções (Alconpat Brasil).

Daher explica que toda vez que é necessário fazer um reparo profundo, a mais de 1 polegada, por volta de 2,5 cm, utiliza-se graute para reconstituir aquele concreto que estava ruim. Isso ocorre em situações de formação das bicheiras (espaços vazios detectados ao desformar uma estrutura de concreto armado) e até em caso de

Estrutura danificada por corrosão, recuperada com o uso de graute usinado. O material, mais fluido, preencheu as “bicheiras” decorrentes da oxidação dos vergalhões de aço

corrosão de armaduras, em que é necessário fazer toda a recuperação estrutural. “O graute tem essa finalidade de preencher e dar continuidade à estrutura, garantir que ela volte a ser monolítica e que cada elemento funcione como uma peça só”, explica o professor Antonio Figueiredo, da Escola Politécnica da USP.

Foi o que aconteceu em 2012 com um edifício residencial de 19 pavimentos na Grande São Paulo, conforme explica Marcelo Carrilho, sócio-proprietário da Reforço Engenharia e Recuperação, empresa especializada nesse tipo de procedimento. “As bases dos pilares (cerca de 18) estavam praticamente todas oxidadas, então as ferragens se oxidaram, aumentando de volume e expulsando o concreto”, diz. Isso acabou ocasionando falhas de concretagens (bicheiras) em praticamente todos os pilares.

Para a recuperação, foi feita a limpeza da estrutura e removido o concreto nas regiões problemáticas. Os trechos mais comprometidos foram substituídos. Depois, a equipe acoplou um ânodo de sacrifício (pastilha à base de zinco que atrai a oxidação) para inibir a oxidação futura da armadura. Em seguida, foram deixados os tubos para injeção futura de epóxi. Então, com a fôrma já pronta, foi realizado o grauteamento em camadas da área recuperada. Por fim, foi realizada a injeção de epóxi.

O graute utilizado nessa recuperação foi o Viapol com resistência de 70 MPa. “É um graute que já vem pronto. Nós adicionamos 30% de pedrisco por causa do problema de retração. Porque só o graute fica muito forte e você corre o risco de retrair e fissurar”, explica Carrilho.

De acordo com Daher, da Alconpart, “se o material não tiver uma aderência mínima ao concreto original da peça (>= 15 MPa), pode ocorrer o descolamento do reparo e não funcionar. Um método de ensaio bastante usual para avaliar a resistência de aderência do material de reparo é o da norma norte-americana ASTM C 882”.

FICHA TÉCNICA

Recuperação de pilares de edifício residencial
Localidade: São Paulo (SP)
Características da obra:
19 pavimentos com 4 subsolos
Patologia: corrosão de armaduras (bases de cerca de 18 pilares oxidadas)
Graute utilizado: 70 MPa – Viapol
Recuperação estrutural: Reforço Engenharia

 

 

 

À esquerda, fôrma montada ao redor da base do pilar danificado. O graute preencheu os espaços gerados pela corrosão da estrutura de aço. À direita e abaixo, reparo concluído

Por: Dirceu Neto

Veja também: