Gestora de meio ambiente no grupo goiano Toctao fala sobre sustentabilidade e tecnologia no canteiro de obras

CINTHIA MARTINS

Graduada em Tecnologia em Saneamento Ambiental pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Goiás (2005), Cinthia possui pósgraduação em Gestão Ambiental pelo Centro Universitário de Goiás UniAnhangüera (2017) e mestrado em Engenharia do Meio Ambiente pela Universidade Federal de Goiás (2012). Entre suas especializações, destacam-se os cursos de Planejamento de Bacias Hidrográficas pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Goiás; Destinação final de embalagens vazias de agrotóxicos, realizado pelo Ipev; Interpretação da norma NBR ISO 14.001 e auditoria interna, realizado pelo IEL-GO; Documentação do sistema de Gestão da Qualidade, realizado pelo IEL-GO; Interpretação dos Requisitos do SiAC/PBQP-H, realizado pelo IEL-GO; Formação de Auditores Internos da Qualidade, realizado pelo Grupo Destra; NR-18 – Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção, realizado pelo Sinduscon-GO e Qualisegma.

Cinthia atua com a colaboração no desenvolvimento do Sistema Integrado de Gestão da empresa, Qualidade, Meio Ambiente, Saúde e Segurança do Trabalho e Responsabilidade Social; responsável pela implantação e manutenção do Sistema de Gestão Ambiental, baseado na norma ISO 14.001, em obras civis no estado de Goiás e Tocantins; na Gestão de resíduos da construção civil; Implantação do programa 5S nos canteiros de obras e sede administrativa; Auditoria interna do Sistema de Gestão Integrado (Qualidade, Meio Ambiente e Saúde e Segurança). É facilitadora no Comitê de Responsabilidade Social; responsável pelos processos de licenciamento ambiental das obras de edificações e loteamentos no município de Goiânia; presta assessoria no desenvolvimento de projetos de Desenvolvimento Urbano e no desenvolvimento de projetos de incorporação imobiliária. Responsável pela supervisão da gestão ambiental da operação de Pequenas Centrais Hidrelétricas localizadas no estado de Tocantins; Gestora de Projetos de inovação na área de sustentabilidade e tratamento de efluentes.

Entre suas qualificações ainda constam as premiações: Menção honrosa no Prêmio Sesi Qualidade no Trabalho 2012, com o projeto “Canteiro Ecológico – Toctao Engenharia”; Prêmio CBIC de Responsabilidade Social 2013, com o projeto “Gestão da Responsabilidade Ambiental na Toctao Engenharia”; Prêmio Abaap-GO de Sustentabilidade 2014, com o projeto de comunicação e educação ambiental voltado aos colaboradores do Grupo Toctao; Prêmio CBIC de Responsabilidade Social 2015, com o projeto “Conta-Gotas” do Grupo Toctao; Troféu Construir Mais 2016 Prêmio Sinduscon-GO de Boas Práticas, na categoria meio ambiente com o projeto “Gestão da Responsabilidade Ambiental na Toctao Engenharia”;Troféu Construir Mais 2016 Prêmio Sinduscon-GO de Boas Práticas, na categoria inovação com o projeto “Ecoágua Toctao – Sustentabilidade em construção” da Toctao Engenharia; Prêmio Crea Goiás de Meio Ambiente 2016, na categoria inovação com o projeto “Ecoágua Toctao – Sustentabilidade em construção” do Grupo Toctao; Prêmio Inova Talentos 2016, na categoria equipe, etapa estadual (Goiás) como projeto de desenvolvimento de indicadores de sustentabilidade para a construção civil no Grupo Toctao; Prêmio CBIC de Inovação e Sustentabilidade 2016, na categoria “Gestão da Produção e P&D” com o projeto “Ecoágua Toctao – Sustentabilidade em construção”.


A dialética entre sustentabilidade e tecnologia no canteiro de obras é um tema desafiador. É preciso desenvolver uma agenda de trabalho voltada para a sustentabilidade envolvendo ações que minimizem o uso da água e energia, reduzam a perda de materiais por uso inadequado dos recursos ferramentais, humanos e tecnológicos, além de envolver as construtoras e incorporadoras na redução das emissões atmosféricas durante o ciclo da construção, diminuindo as emissões totais de CO2 com transporte de insumos. Tudo isso aliado às descobertas e inovações tecnológicas incorporadas no chão da obra.

Adequar o canteiro para todas essas demandas já não é fácil no eixo Rio-São Paulo, onde há insumos, técnicas e fornecedores disponíveis e engajados. Na Região Centro-Oeste do país os desafios são ainda maiores. “Em Goiás essa cultura vem despertando aos poucos, especialmente nos últimos cinco anos. Isso se reflete nos empresários e incorporadoras que estão investindo no sustentável”, afirma Cinthia Martins, gestora de Meio Ambiente no grupo goiano Toctao. Segundo Cinthia, o Brasil ainda está amadurecendo a ideia da construção sustentável se comparado a outros países, principalmente os da Europa. “Na maioria das nações europeias os consumidores já pagam a mais por edifícios sustentáveis porque é uma questão assimilada há décadas nessa indústica e no cotidiano do cidadão”, afirma.

Para a gestora ambiental, no Brasil o preço menor ainda é decisivo na compra de um imóvel porque o cliente finawl até agora não consegue perceber que um edifício sustentável, no longo prazo, irá impactar menos nas contas do condomínio, exigirá menos manutenções e irá economizar água e energia nas unidades. “Os brasileiros têm uma visão imediatista. Muitas vezes a diferença de valor de um apartamento sustentável nem é tão maior assim”, argumenta. Entretanto, Cinthia observa que esse perfil do consumidor vem mudando ao longo dos anos, o que é uma boa notícia para as construtoras envolvidas com a questão do desenvolvimento da tecnologia para o benefício do meio ambiente. “Estamos colhendo frutos de um trabalho iniciado no passado e impulsionando os concorrentes a ir atrás desse diferencial”, diz. De acordo com a gestora, quem sobreviveu à recessão de 2016 em um futuro próximo lançará empreendimentos com diferenciais sustentáveis e tecnológicos, sem greenwashing.

“No Rio de Janeiro, por exemplo, as cobranças são maiores do que na Região Centro-Oeste. Devido a essa exigência, temos profissionais mais bem preparados e estudos técnicos de maior qualidade naquele estado. A abordagem dos processos de licenciamento influenciam bastante na relação com o órgão ambiental de cada região.”

Como foi sua trajetória na Tecnisa? Quais são as suas atribuições na gestão ambiental do grupo?
Entrei para gerenciar os processos de construção civil para ISO 9901 e, desde então, tenho percorrido todas as atividades do grupo em diversos setores, cuidando das questões relacionadas à gestão do meio ambiente. Hoje tenho uma equipe própria, coordenada por mim, e presto assessoria a outras áreas da empresa. Auxilio na gestão ambiental de obras verticais e de condomínios horizontais, cuido da operação dos processos e licenciamentos ambientais e da implantação dessas ações na companhia, especialmente no âmbito da energia. Também estou presente na hora de pensar em novos produtos e na análise de orçamentos para participação em concorrências, gerando propostas técnicas conformes com a gestão ambiental. Atuo no desenvolvimento de novos produtos sustentáveis em empreendimentos imobiliários.

Onde a empresa atua? As rotinas de gestão ambiental variam de uma região para outra do país?
Nossa atuação principal é no estado de Goiás, mas também estamos presentes em Minas Gerais e nas usinas de Tocantins. Em visitas e acompanhamento técnico a esses locais, percebo que as rotinas de gestão ambiental podem diferir bastante. Alguns órgãos são mais estruturados do que outros, ocasionando uma cobrança maior por parte dos estados. No Rio de Janeiro, por exemplo, as cobranças são maiores do que na Região Centro-Oeste. Devido a essa exigência, temos profissionais mais bem preparados e estudos técnicos de maior qualidade naquele estado. A abordagem dos processos de licenciamento influenciam bastante na relação com o órgão ambiental de cada região. Em Araguaína (TO), nas obras de reconstrução da Usina do Corujão, por exemplo, encontramos uma presença atuante e preparada dos órgãos municipais de gestão ambiental. Várias cobranças locais nos levaram a aumentar ainda mais as exigências internas e procedimentos ambientais, que acabaram sendo estendidos a todas as instâncias de aplicação.

De que forma a busca crescente por edifícios sustentáveis tem influenciado na dinâmica da concepção do projeto?
A busca por produtos sustentáveis, com baixo consumo de energia, combustível e água, está cada vez mais presente na sociedade. Já optamos por comprar lâmpadas, eletrodomésticos, veículos e demais bens de consumo que impactam menos o meio ambiente, com reflexos positivos também em nosso bolso. Com o mercado imobiliário não é diferente. Hoje, os clientes começaram a observar se o edifício de seu interesse tem recursos sustentáveis, como reuso de água de chuva, captação de energia solar, lâmpadas de LED, só para citar os itens mais óbvios, percebidos pelo consumidor final. Todas essas demandas, somadas a outras que o comprador nem sequer imagina que existam, como a diminuição das emissões de gases poluentes no canteiro de obra, por exemplo, precisam obrigatoriamente ser introduzidas lá atrás, na fase de projeto, para que aquele empreendimento seja de fato sustentável. Caso contrário, algumas soluções serão inviáveis na fase final, não passando de greenwashing. Depois do projeto vem a preocupação de menores impactos ambientais na obra, a paginação de piso, a concepção de estratégias sustentáveis, entre outras etapas. Vejo que a demanda por edifícios sustentáveis tem aumentado bastante, especialmente nos últimos cinco anos. Os empreendedores já estão percebendo que se não se adaptarem de verdade irão perder mercado. Alguns empreendimentos ainda apresentam um valor mais alto por serem sustentáveis, entretanto há retorno de venda garantido.

Se fôssemos estabelecer um ranking de prioridades, em que lugar estaria a sustentabilidade se comparada a outros aspectos da construção como custo e cronograma, por exemplo?
No grupo Toctao a sustentabilidade caminha lado a lado com custos e cronograma, formando um tripé. Para ser um empreendimento sustentável é preciso que seus custos sejam equilibrados com os valores de venda e execução. Por fim, cronograma atrasado não é sustentável. Muitas empresas já amadureceram o suficiente para desenvolver uma cultura de sustentabilidade e percebem que esse trio não deveria se separar, recebendo o mesmo peso em um ranking de prioridades. Porém, essa é a visão da companhia onde atuo. Infelizmente, em diversas construtoras do mercado brasileiro a questão da sustentabilidade nem sequer é cogitada em projeto.

“No eixo São Paulo-Rio de Janeiro observo que há competitividade tecnológica para a edificação integral de green buildings. Entretanto, na Região Centro-Oeste ainda enfrentamos problemas com o desempenho de materiais, especialmente no quesito energético.”

Temos competitividade tecnológica para atender à demanda global por green buildings?
No eixo São Paulo-Rio de Janeiro observo que há competitividade tecnológica para a edificação integral de green buildings. Entretanto, na Região Centro-Oeste ainda enfrentamos problemas com o desempenho de materiais, especialmente no quesito energético. Temos profissionais preparados, ótimas técnicas, mas nosso maior gargalo é com os fornecedores locais. Muitos ainda não obtiveram sequer as normas do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H). Desde 2012, estamos pressionando fornecedores para que obtenham ao menos a PBQP-H. Alguns conseguiram perceber a importância das normas para se manterem competitivos no mercado, mas quem não se adequou acabou perdendo nossa parceria. Porém, acredito que será uma questão de tempo até a indústria de insumos para a construção civil enxergar a importância de construções sustentáveis. As evoluções constantes das normas de desempenho obrigatórias e o aumento crescente de certificações voluntárias no país são indicativos de aperfeiçoamento no mercado.

Cite um case de sua empresa que tenha alterado uma dinâmica tradicional de construção por causa de um aspecto sustentável.
A principal mudança foi adotar argamassa a granel, que fica armazenada em silos na própria obra antes de ser usada no revestimento de reboco e contrapisos. Neste momento estamos compilando os dados para mensurar os números efetivos dessa ação, mas já observamos os impactos positivos com a alteração dessa dinâmica construtiva. Antes, utilizávamos o serviço de betoneiras e havia grande desperdício de material, que muitas vezes subia por andaimes, pelo lado de fora do edifício. Ao armazenar argamassa em silos e bombeá-la diretamente ao pavimento de destino, eliminamos os resíduos de sacaria, pois não há embalagem – o produto chega em grandes quantidades à obra, de uma única vez. Com isso, também diminuímos os caminhões circulando, impactando diretamente na redução de CO2 e no trânsito da vizinhança da obra. Outra vantagem para o meio ambiente é que o bombeamento da argamassa soluciona o problema da poeira no ar, pois o misturador que recebe o material tem filtros nas extremidades, impedindo sua dispersão e, consequentemente, evitando o desperdício. A perda de material também é atenuada porque a mistura ocorre no momento do uso, sendo feita automaticamente pelo próprio equipamento. Por fim, economizamos energia e mão de obra, pois eliminamos a necessidade de contar com operários destinados a fazer o transporte vertical do material. Também estamos pesquisando outras técnicas, como paredes com estruturas de concreto, com foco em habitações populares, que têm demonstrado bom desempenho, com reduções significativas de material e de mão de obra.

Sempre pensamos no edifício pronto, em funcionamento, como sustentável. De que maneira o canteiro pode ser mais sustentável?
Muitas vezes construímos para incorporadoras e já recebemos um projeto pronto do cliente, que nem sempre tem uma proposta sustentável. Nesses casos, fica quase impossível para a engenharia interferir em processos, e a única maneira de amenizar impactos ambientais é no canteiro de obras, onde diversas ações sustentáveis podem ser adotadas. Em nossas obras mantemos um ou dois gestores ambientais. Essa pessoa é responsável pela gestão dos resíduos, por monitorar a emissão de poluentes e pensar em soluções de logística reversa. Tudo começa com o treinamento dos colaboradores, que são instruídos para entender como o trabalho do chão de obra tem um impacto no meio ambiente. Mostramos como esse impacto pode ser diminuído com ações cotidianas, por exemplo, o reaproveitamento de água de chuva para lavar o canteiro, dar descarga e até para o uso em misturas. Montamos uma estrutura de canteiro ecológico, com iluminação natural e aquecimento solar nos vestiários, mictórios e vasos sanitários com água reutilizada da pia e do chuveiro. Outra medida que vem produzindo resultados positivos é a adoção de 5S nos canteiros. Esse aprendizado está introduzindo uma mudança cultural transportada para o lar dos funcionários. Introduzimos uma premiação para o colaborador que reduzir o consumo de água em casa. Dessa maneira, além de diminuir o uso, ele também obtém um alívio na conta. Incentivamos a coleta seletiva de resíduos na obra e o reaproveitamento de alguns resíduos na construção. Só dá certo porque conseguimos envolver as pessoas, conversamos muito e ouvimos também. O trabalho de educação ambiental é fundamental, do trabalhador de base ao executivo, sendo uma produção coletiva.

Quais são as principais maneiras de se poupar recursos naturais e energéticos durante a construção de um edifício?
Atuamos bastante com o retrofit, especialmente no uso de madeira de reflorestamento e na utilização do entulho na própria obra. O reaproveitamento da água de chuva e o aquecimento por energia solar nos vestiários são outras ações constantes em nosso trabalho.

A norma NBR 15.575 de desempenho mínimo das edificações é suficiente para garantir o básico necessário em termos sustentáveis para os edifícios brasileiros?
A norma NBR 15.575 de desempenho mínimo veio alavancar as questões geradas pelo PBQP-H. É o primeiro passo para as empresas atenderem às normas, especialmente no que diz respeito ao conforto térmico e acústico dos usuários, levando também em consideração as questões de economia energética. É um caminho inicial que faz parte de um processo evolutivo – começa com o cumprimento das normas obrigatórias e evolui para as certificações voluntárias.

“Ao armazenar argamassa em silos e bombeá-la diretamente ao pavimento de destino, eliminamos os resíduos de sacaria, pois não há embalagem – o produto chega em grandes quantidades à obra, de uma única vez.”

Por: Alexandra Gonsalez

Veja também: