Gerente de Desenvolvimento Tecnológico da Tecnisa conta como a pesquisa gera inovação na construtora

De acordo com o Relatório Anual Tecnisa 2015, divulgado em março de 2016 pela construtora, o espaço dado à cultura de inovação na empresa tem sido cada vez mais valorizado por meio do estímulo à produção de novos conhecimentos que aprimorem os negócios e influenciem positivamente o setor. Criada em 1977, a companhia completa 40 anos em setembro exercendo o que prega no desenvolvimento de tecnologia, pesquisa e soluções inovadoras para produtos e serviços, agregando valor aos seus empreendimentos e adotando uma posição de vanguarda no mercado.

Ações e programas de inovação e pesquisa desenvolvidos internamente vêm trazendo prêmios e conquistas. Exemplos disso são a plataforma Tecnisa Wiki; o Fast Dating, que realiza encontros de empreendedores com profissionais de seis áreas distintas da companhia: facilities, marketing, P&D, projetos, negócios e recursos humanos; e o portal Tecnisa Ideias, criado em 2010, no qual stakeholders diversos são convidados a dar sugestões e colaborações, incluindo consumidores e estudantes. Um dos reconhecimentos veio em 2011, quando a empresa recebeu em Washington, nos Estados Unidos, com o case “GC no Setor Imobiliário: uma Quebra de Paradigma”, o Make Award Brasil, prêmio internacionalmente reconhecido de gestão do conhecimento (GC) que destaca anualmente as instituições e as organizações que melhor compartilham ideias e projetos inovadores.

Em 2015, a Tecnisa conquistou o primeiro lugar na categoria Construção e Infraestrutura do Prêmio Valor Inovação Brasil, do jornal Valor Econômico e da consultoria Strategy&. No mesmo ano, figurou como décimo terceiro colocado no ranking geral das 100 empresas mais inovadoras do Brasil. Todas essas conquistas, entretanto, só foram possíveis graças ao trabalho do Departamento de Desenvolvimento Tecnológico (DDT), que concentra os investimentos e pesquisas em inovação e capital intelectual. Sob o comando do engenheiro civil Maurício Bernardes, as iniciativas focam em quatro grandes frentes: apoio técnico, racionalização, processos e apoio corporativo. Segundo Bernardes, todas têm vinculação com o tripé da sustentabilidade, busimcando novos modelos para a execução de projetos e para a oferta de serviços e produtos diferenciados ao cliente.imcando novos modelos para a execução de projetos e para a oferta de serviços e produtos diferenciados ao cliente.

O DDT foi criado na Tecnisa, em 1995, pelo engenheiro civil Fernando Henrique Sabbatini, mestre e doutor em engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – Sabbatini é um nome que é referência em inovação, juntamente com o engenheiro civil Valério Dornelles. O foco da área era pesquisa visando à racionalização construtiva. Agora, o departamento é gerenciado por Maurício Bernardes, que assumiu o comando em 2005. Embora não divulgue valores, ele afirma que somente a partir de 2008 o DDT ganhou orçamento diretamente e que isso vem trazendo ótimos frutos à empresa e ao mercado. Conheça a trajetória do engenheiro à frente das pesquisas e inovação e o retorno para a companhia graças aos investimentos nesse segmento.

Como foi sua trajetória na Tecnisa?
Estou na empresa desde 1998. Entrei como engenheiro de obras e permaneci por sete anos nessa função. Depois, fui para o Departamento de Tecnologia, Pesquisa e Inovação. Acredito que esse percurso foi muito importante para o sucesso do setor porque é preciso conhecer a realidade do chão de obra. Ter uma visão completa do modo de se construir é essencial para conseguir desenvolver um projeto, ou conceito, do que é verdadeiramente aplicável naquele ambiente. É preciso separar o que é sonho daquilo que pode ser executado com êxito.

Quantas pessoas trabalham na sua equipe?
Qual é o perfil dos profissionais? Somos um time de cinco profissionais com formação multidisciplinar, além de alguns consultores externos para demandas específicas. Nossa equipe interna é composta de pessoas com expertises diferentes, mas que têm em comum o gosto por estudar e se atualizar constantemente para contribuir com visões distintas na solução de um mesmo problema, oferecendo ideias que se complementam. Todos são mestres ou mestrandos em engenharia, e alguns têm dupla formação, em arquitetura. Eu mesmo fiz três cursos que acredito sejam importantes para quem trabalha com pesquisa e inovação: pós-graduação em Engenharia de Produção na Fundação Vanzolini, que proporcionou uma visão de indústria na construção civil; MBA na Fundação Getulio Vargas (FGV-Ceag) em Administração de Empresas, adicionando conhecimentos de marketing, demanda de clientes, cadeia de suprimentos; e mestrado em Tecnologia na USP. Atualmente, para integrar esse time, um profissional apenas com MBA não seria o ideal.

“Avaliamos internamente novas tecnologias para aprimorar o desempenho acústico de nossos empreendimentos, uma de nossas grandes preocupações.”

Como é o cotidiano do departamento?
Nosso trabalho é bastante intenso. Nos dedicamos a reuniões com várias equipes internas para orientação e organização dos estudos. Fazemos contato com fornecedores para fomentar o desenvolvimento tecnológico junto à indústria, participamos do desenvolvimento de projetos, da consultoria de especificação de sistemas construtivos e da geração de patentes. O departamento também é responsável pelas práticas de sustentabilidade, além de coordenar o portal de gestão do conhecimento, formado pela base de dados, ações de benchmarking e relatórios de outras áreas. Além disso, um dos meus papéis é atuar como consultor interno para os diversos setores da construtora e participar de congressos e palestras representando a Tecnisa. Contudo, seguimos olhando para o canteiro de obras com foco na otimização de procedimentos.

Como essas atuações se transformam em ganhos no processo construtivo?
Hoje, temos o orgulho de apresentar resultados positivos em redução de ciclos construtivos, desenvolvemos diretrizes que facilitam a implantação de projetos, especialmente em obras nas grandes capitais do país, que oferecem condições para que todos os processos sejam implantados sem muitas adaptações. Afinal, somos uma empresa de operação nacional, e é preciso ter diretrizes claras para que a cultura construtiva se reproduza em todos os empreendimentos. Temos um Núcleo de Redução de Ciclos e Custo de Obras, que obtém resultados em até 7% com as inovações. Esse núcleo também cuida do desdobramento das normas de desempenho e de assuntos como prospecção e orientação para a compra de terrenos.

Qual é o trabalho da frente de apoio técnico em relação às normatizações?
Há impacto nos custos? Na frente de apoio técnico destaca-se recentemente a adequação à norma de acessibilidade, com o desenvolvimento de uma bibliografia interna sobre o assunto, que garante total conformidade dos novos projetos à NBR 9050. No apoio corporativo, o Caderno de Diferenciais de Produtos, por exemplo, é um dos principais resultados. Desde 2014, também avaliamos internamente novas tecnologias para aprimorar o desempenho acústico de nossos empreendimentos, uma de nossas grandes preocupações, especialmente em relação aos ruídos de descarga. Temos um laboratório de acústica específico para testes e protótipos. Cito um case recente no qual, até o início de 2016, foram feitas 30 análises, 14 delas somente em 2015, gerando economia de R$ 190 mil (2014 e 2015). Em 2015, também foi iniciada a avaliação do imcando pacto dos ruídos das obras do entorno do canteiro.

Quanto tempo leva um estudo, desde a detecção de um problema até a solução e implantação?
Depende da demanda. Para solucionar o problema de ruído nas descargas, por exemplo, passamos mais de um ano pesquisando. Construímos mais de dez protótipos nesse período até encontrar uma solução satistatória. Esse processo envolveu passos como instalação, encanamento, forro, jeito de segurar o tubo, capa do tubo. Depois, a construção de um piloto em ambiente real, ou seja, em uma obra em andamento. Quando tudo isso é aprovado, entra em cena uma nova fase, que é a transformação desse procedimento em norma, que se torna padrão para toda a construtora, o treinamento das equipes de engenharia para a adequação à nova norma e, posteriormente, o treinamento das equipes de obra para a construção em si. Por fim, há a etapa de fiscalização dessa aplicação inédita. Uma nova norma precisa ser acompanhada de perto até que ela seja absorvida naturalmente dentro dos procedimentos cotidianos da construção e se torne comum.

Qual outro case de sucesso recente do departamento o senhor destacaria?
Os projetos junto às diretrizes Procel, desenvolvidos pelo Núcleo de Eficiência Energética e Uso Racional de Obras, que avalia os empreendimentos com base na metodologia do Procel Edifica, além de ter equipe interna de homologação dos produtos utilizados nas obras para garantir a qualidade dos empreendimentos. Em 2015, o retorno sobre o investimento das ações foi maior que duas vezes e meia, comprovando o benefício do estudo de novas tecnologias. A etiqueta PBE Edifica é um reconhecimento da excelência na eficiência energética de edifícios. Ela avalia fatores como os sistemas de aquecimento de água mais eficientes, as melhores condições de ventilação, a iluminação natural e o uso racional da água. Isso promove a saúde e o bem-estar dos usuários ao elevar o conforto térmico dos apartamentos, diminuindo o consumo de energia elétrica de aparelhos de ar condicionado e iluminação artificial. A empresa tem mais de 1.200 apartamentos etiquetados com nível máximo (A). Esse número representa 90% de todos os empreendimentos já etiquetados no Brasil com esse nível.

As inovações chegam ao consumidor?
Alguns de nossos projetos são aplicados no stand de vendas, para a observação do consumidor final. Por exemplo, em nossas unidades usamos um sistema especial de descarga que produz menos ruído. Disponibilizamos no stand de vendas o som gravado de uma descarga de nossos banheiros e outro, da concorrência. O cliente compara a diferença. Nós nos preocupamos bastante com a opinião do consumidor. Ele é ouvido e suas demandas são atendidas em pesquisas e protótipos. A descarga é um item que partiu de sugestões de clientes para se transformar em solução e norma em todos os empreendimentos.

As tecnologias desenvolvidas são perceptíveis nas unidades?
Sim, disponibilizar tecnologia para os clientes é outra preocupação constante do departamento. Por exemplo, desenvolvemos um medidor que monitora o consumo de energia pela empregada doméstica, que pode ser conferido pelo celular ou tablet. Utilizamos apenas iluminação LED e chegamos a patentear um protótipo desenvolvido em nossos laboratórios, pensando tanto no meio ambiente quanto na economia do usuário com a conta de luz. Esse tipo de estratégia também consegue mensurar os anseios do consumidor na hora de adquirir um imóvel. No edifício Flex Guarulhos, lançado em 2014 como o pioneiro em atributos Procel, fizemos uma pesquisa com os consumidores para saber se os atributos do empreendimento decorrentes do Procel influenciariam a decisão final de compra. A resposta foi surpreendente: 65% afirmaram que pagariam 5% a mais por apartamento com os atributos.

A que o senhor atribui esse resultado?
Observamos que há uma nova geração de consumidores surgindo, com necessidades que vão muito além do que apenas adquirir um lugar para viver. Há mais preocupação com o meio ambiente, a sustentabilidade, as relações de responsabilidade social, e é preciso estar antenado a essas demandas, oferecendo soluções viáveis a esses clientes. Nós acreditamos na causa da sustentabilidade, da saúde, do conforto, do bem-estar – tanto dos clientes quanto dos colaboradores envolvidos em cada etapa dos negócios da empresa. Acreditamos que temos um papel a cumprir na sociedade ao aplicar soluções sustentáveis em nossas unidades. É um drive importante, que tem um impacto direto na economia.

Todas as ideias discutidas do DDT resultam em bons frutos?
Nem todas, mas analisamos exaustivamente as possibilidades de cada uma. Desenhamos tecnologias e produtos em nossos laboratórios. Algumas dessas ideias acabam não vingando, como a criação de uma empresa interna de pequenas reformas, que ficaria à disposição do morador.

O senhor poderia falar mais sobre as patentes registradas pelo departamento?
Recentemente começamos a enveredar pelo caminho das patentes. Um exemplo é o case de energia solar para aquecedores, o Sistema de Bomba de Calor, patenteado em 2014. Patenteamos o sistema criado pela P&D que reduz o consumo de gás no sistema de backup de aquecimento solar com economia potencial mensal de R$ 1.400 por torre e payback de 24 meses. Para cada watt captado, o sistema gera 4 watts, e já está implementado no edifício Jardim das Perdizes, em São Paulo. O sistema foi um insight surgido durante uma feira de sustentabilidade que visitei nos Estados Unidos em 2009. Começamos os estudos de viabilidade em 2011 e o implantamos em 2014.

“Na execução do revestimento de gesso, a perda do material foi de 5% no novo sistema, muito abaixo dos 40% do modelo convencional.”

Todos esses processos necessitam de investimentos. Como fica a relação custo-benefício do DDT?
Há investimentos, mas a equipe precisa justificá-los com normas de redução de ciclos e diminuição de custos de obras. Meu time tem de se pagar pelas inovações que traz. Para cada R$ 1 investido em pesquisa e inovação, R$ 4 voltam para a companhia. Em alguns projetos essas aplicações significam uma economia de cerca de R$ 100 mil por prédio, como no bairro planejado Jardim das Perdizes, localizado na Zona Oeste da capital paulista, que resultou em uma economia de 5% a 7% nas obras das primeiras torres. Porém, para chegar ao patamar desse case específico, foram necessários mais de 200 ensaios em um ano ininterrupto de estudos. Um investimento de peso para ter retorno com uma visão sistêmica das ações adotadas. As inovações têm influência direta nos resultados de vendas, na satisfação dos clientes e no reconhecimento do posicionamento inovador da construtora no mercado.

Quais são os destaques entre as inovações recentes?
A tecnologia de gesso e a de argamassa projetadas continuamente para revestimento em áreas internas e externas, respectivamente. Na execução do revestimento de gesso, a perda do material foi de 5% no novo sistema, muito abaixo dos 40% no modelo convencional. Na execução de revestimento externo, o índice de perda de argamassa caiu de 21% para 15%, graças à projeção contínua. O sistema de vedação horizontal também deu resultados positivos, com mais de 60 dias de redução no ciclo de obra e cerca de R$ 4,9 milhões de economia total gerada pelas inovações para obras. O consumo hídrico também vem demandando estudos. Em todos os empreendimentos usamos válvulas de duplo acionamento, que adequam o consumo à necessidade de uso dos lavatórios, com economia de mais de 30% na bacia sanitária. Em 2015, foram instaladas 6.007 bacias, uma economia potencial de 17,6 mil m³ de água por ano. Outras unidades têm restritores de vazão para duchas, com economia média de 10% no consumo, segundo estudo sobre hábitos de consumo em um edifício no qual nos debruçamos ao longo de dois anos. Com esses resultados em mãos, em 2015 foram instalados 4.862 restritores.

E os projetos de inovação com interfaces externas?
A Tecnisa tem uma cultura de inovação com práticas de mapear, criar e solucionar problemas. O design thinking faz parte do DNA da empresa, bem como o Fast Dating Tecnisa, uma oportunidade para empreendedores inovadores apresentarem seus produtos ou serviços. Na história dessa ferramenta, muitos participantes tiveram a Tecnisa como o primeiro grande cliente. Há também o Blog Tecnisa, pioneiro no mercado imobiliário, que é um meio de comunicação e de relacionamento com pessoas que queiram informações sobre a empresa e o mercado imobiliário. Nele, há um link dedicado apenas à inovação.

Quais fontes de inspiração para o trabalho desenvolvido no DDT o senhor citaria?
Vamos beber em muitas fontes para nos inspirar em novos projetos e soluções. Nossa equipe viaja constantemente à Europa e ao Estados Unidos para observar o que tem sido lançado em feiras, congressos e também em canteiros de obras. Os Estados Unidos costumam ser o principal foco de observação porque acredito que no quesito de gestão da produção em canteiro de obras eles são muito eficientes e estão bastante à frente do Brasil. Há toda uma cadeia orquestrada, que envolve suprimentos, logística, fornecedores, colaboradores, tudo voltado para que não ocorram atrasos, focando na otimização de todas as etapas da obra, independentemente do tamanho. A Alemanha também oferece soluções invejáveis, especialmente em qualidade de produtos e serviços.

Quais são as expectativas para o futuro do departamento?
Investir em pesquisa e desenvolvimento de práticas e produtos inovadores é um dinheiro muito bem empregado dentro de qualquer indústria séria, independentemente do segmento. Na construção civil somos pioneiros nessa prática, e o departamento tem se posicionado cada vez mais próximo das estratégias da empresa. A economia gerada faz parte dos objetivos do trabalho. Trazemos resultados em sustentabilidade, em cases de inovação, em práticas que podem ser aplicadas no mercado para o benefício de todos. No futuro, pretendemos ampliar a disseminação desse conhecimento. Inovação não é algo ligado exclusivamente à tecnologia, mas às ações provenientes das pesquisas. Temos integração de áreas, o que retroalimenta todos os processos. Isso é algo bastante positivo e promissor.

Por Alexandra Gonsalez

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