Solução para inserir espaços verdes nos centros urbanos, jardins verticais atuam como isolantes e reduzem o gasto energético das edificações

Criados para amenizar a falta de áreas verdes nas grandes cidades, os jardins verticais são intervenções paisagísticas montadas em painéis acoplados a paredes internas ou externas de edifícios. Um de seus principais benefícios é a melhora na qualidade do ar: na medida em que as plantas realizam a fotossíntese, o sistema funciona como um purificador atmosférico capaz de reduzir cerca de 30% dos gases poluentes do entorno – no caso das micropartículas em suspensão, essa redução pode chegar a até 60%.

A edificação na qual a parede verde é instalada também leva vantagens, a exemplo de um significativo aumento em seu desempenho termoacústico. Isso acontece principalmente porque, ao contrário das fachadas recobertas por heras e trepadeiras que sobem desde o solo em contato direto com o edifício, o jardim vertical é formado por plantas alocadas em painéis distanciados da construção. Além de evitar problemas relativos a umidade, a estratégia forma um colchão de ar que atua como isolante, impedindo a transferência de calor ou frio, bem como de ruídos, de fora para dentro do prédio. Por meio da evapotranspiração e da fotossíntese, a cobertura vegetal também diminui a amplitude térmica no interior do edifício. Consequentemente, ganha-se conforto e reduz-se o consumo de energia com aquecimento ou refrigeração.

Acredita-se ainda que, por sua capacidade de diminuição da temperatura ambiental, os jardins consigam atenuar os problemas criados pelas chamadas “ilhas de calor” – áreas de cidades altamente urbanizadas que apresentam temperaturas mais elevadas em comparação com outras mais arborizadas. Além disso, as paredes verdes colaboram com o equilíbrio da umidade relativa do ar e, desde que as espécies escolhidas sejam nativas, formam um novo ecossistema que funciona como ponto de atração de pássaros e borboletas.

Somado ao inegável valor ornamental, esse conjunto de benefícios ambientais ajuda a explicar porque, apesar de introduzidos recentemente no país, os jardins verticais vêm ganhando tanta aceitação no mercado brasileiro – sua implantação, inclusive, pode favorecer a obtenção de pontos em certificações de sustentabilidade como o Leadership in Energy and Environmental Design (Leed).

O Edifício Odebrecht, às margens do Rio Pinheiros, em São Paulo, ostenta o maior jardim vertical brasileiro. Até mesmo o gigante encontrou, após a instalação da parede verde, um desafio: o ponto de exaustão do gerador autônomo de energia a gás e diesel do edifício desembocava justamente acima de uma das faces do jardim vertical

Fachadas verdes do Minhocão
Na capital paulista, um decreto de 2015 abriu caminho para a disseminação da técnica ao permitir sua utilização como forma de compensação ambiental. De acordo com a nova resolução municipal, empresas e pessoas físicas que prejudiquem a vegetação local ao construir suas edificações têm, entre outras opções de ressarcimento dos danos causados, a possibilidade de construir telhados verdes e jardins verticais em áreas determinadas pela prefeitura.

Na prática, os condomínios que desejam implantar um jardim vertical inscrevem-se na prefeitura e têm o projeto analisado pela Câmara Técnica de Compensação. Então, a empresa que optou por fazer a compensação custeia a execução da parede verde e se responsabiliza por sua manutenção durante os seis primeiros meses. Terminado esse prazo, a prefeitura recorre a outra empresa interessada nessa modalidade de compensação para “adotar” o jardim.

Um exemplo concreto de como essa medida pode funcionar é o Corredor Verde que está sendo realizado no centro da cidade, na área próxima ao Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão. O responsável pelo projeto é o Movimento 90º, formado por jovens arquitetos urbanistas, paisagistas, artistas plásticos, engenheiros e biólogos que vêm se dedicando, desde 2013, à implantação de jardins verticais na deteriorada região central paulistana.

Os parques verticais – possível nomenclatura para os jardins em escala urbana, aplicados em empenas cegas de grandes edifícios – ao redor do Minhocão estão sendo implantados aos poucos. Somando cerca de 5 mil m², já são sete concluídos, com projetos assinados por paisagistas e artistas plásticos integrantes do Movimento 90º: Christopher Page (Edifício Minerva), Daniel Steegmann (Edifício Santa Cruz), Guil Blanche (Edifício Mackenzie), Matthew Wood (Edifício Huds), Paulo Monteiro (Edifício Bonfim), Pedro Wirz (Edifício Santa Filomena) e Renata de Bonis (Edifício Santos). A expectativa do coletivo é de que a iniciativa crie um forte impacto ambiental na paisagem da metrópole e, assim, ganhe fôlego para poder ser reproduzida em outras áreas da cidade.

Implementação de parede verde pelo Movimento 90o na região do Minhocão, em São Paulo

Versão brasileira do Mur Vegetal

Quanto à técnica, o Movimento 90º propõe uma adaptação às condições brasileiras do sistema chamado Mur Vegetal, desenvolvido no fim dos anos 1980 pelo botânico francês Patrick Blanc, precursor desse tipo de jardim e autor de centenas de obras em todo o mundo. Trata-se de um modelo hidropônico, ou seja, que cultiva as plantas em água e sais minerais, sem a necessidade de terra ou de outro substrato semelhante – no caso dos jardins verticalizados, a maior vantagem dessa opção é garantir a leveza do conjunto.

A montagem é iniciada com a instalação de uma estrutura de perfis de aço galvanizado chumbada à empena, que servirá de base para todo o sistema. Em seguida, essa estrutura recebe espaçadores de alumínio, onde serão fixados os painéis do jardim, mantendo uma distância de 5 a 10 centímetros entre eles e a superfície do prédio – eis o colchão de ar que atuará como isolante térmico e acústico. “As empenas não recebem nenhum tratamento de impermeabilização, pois ficam afastadas e protegidas, sem contato com a umidade dos jardins”, explica o paisagista Guil Blanche, que lidera o Movimento 90º.

O segundo passo é a criação dos painéis modulares formados por chapas ecológicas impermeáveis, feitas de embalagens Tetra Pak recicladas, que conferem rigidez ao conjunto. Em seguida, duas camadas de uma manta de feltro sintético imputrescível e de alta densidade (com espessura de 3 mm cada) são grampeadas a essas chapas. A primeira camada de feltro serve para reter a umidade e fixar as raízes. Na segunda, são abertos rasgos horizontais de cerca de 20 cm para formar os bolsos que irão acomodar as plantas. Então, os bolsos são preenchidos com uma solução de água e sais nutritivos que substitui o substrato convencional.

O sistema de irrigação funciona em circuito fechado, que economiza água, comandado por um timer com válvula solenoide. A partir do timer é instalado um tubo vertical do qual ramificam canos gotejadores de 1 em 1 metro na horizontal, com furos a cada 30 cm. De baixo fluxo e autorregulação, o sistema funciona por gravidade e capilaridade. A rega é programada de acordo com a necessidade das plantas, e pode ser realizada de quatro a doze vezes ao dia. Na parte inferior do painel, ao longo de toda sua largura, uma calha coleta o excesso de água que escorre da manta. Em seguida, essa água é filtrada em um tanque, de onde é bombeada e reencaminhada – através de mangueiras presas à estrutura por abraçadeiras e parafusos – até um reservatório no alto do edifício, onde é enriquecida com a solução nutritiva e novamente bombeada e reinjetada nos tubos gotejadores.

Segundo o engenheiro Danny Braz, da Regatec, empresa responsável pela irrigação dos jardins do Corredor Verde, o monitoramento diário é imprescindível: “Recebemos todos os dias, logo cedo, o comunicado por e-mail do consumo de água de cada um dos painéis. Caso alguma falha seja verificada, a equipe de manutenção é acionada imediatamente. Como as plantas não têm solo para reter a água e o feltro seca muito rápido, se o sistema falhar, elas não resistem”.

 

 

Edifício Mackenzie, no encontro do Elevado João Goulart com a Rua da Consolação

O maior jardim vertical do Brasil
Com cerca de 1.500 m², o jardim que recobre a fachada do Edifício Odebrecht São Paulo, sede da construtora no bairro do Butantã, é considerado o maior do país. Com projeto arquitetônico do escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos, o prédio padrão Triple A, concluído no fim de 2013, recebeu do Green Building Council Brasil (GBC Brasil) a certificação Leed Gold na categoria Core & Shell, destinada a edificações comerciais que seguem preceitos sustentáveis.

“Ao conceber esse edifício, nossa demanda era justamente comunicar o conceito de sustentabilidade à sociedade, por isso a opção pela parede verde veio a calhar”, explica Marcelo Valadão, diretor de construção da Odebrecht. Um estudo minucioso foi realizado para a definição das tecnologias que seriam empregadas no muro vegetal, realizado pela empresa francesa Canevaflor e com paisagismo assinado pelo escritório Soma Arquitetos. “Gastamos mais tempo com o planejamento – de seis a sete meses – do que com a implantação – que levou por volta de cinco meses”, ressalta Valadão.

O jardim fica localizado na fachada do embasamento que abraça a torre, volume estruturado em concreto que abriga garagens e áreas especiais do programa, como auditório, restaurante e uma praça elevada. Ao contrário das situações em que um jardim vertical é construído sobre uma empena ou parede preexistente, nesse caso, o muro vegetal foi constituído como a própria parede/fachada, criando uma condição extremamente favorável de ventilação natural para os pavimentos do estacionamento.

Como foi montado o jardim da Odebrecht
A montagem teve início com a execução da estrutura metálica que sustenta uma moldura de cristalato branco, revestimento produzido por meio da cristalização de material vítreo. O mesmo material recobre outros trechos do embasamento: a ideia era ter um acabamento resistente a manchas e poluição, mas de tonalidade clara, que contrastasse com o verde-escuro das plantas.

Em seguida, foi realizado uma trama de ancoragem em aço cortén, que funciona como estrutura principal da parede verde, fixada no encontro entre a estrutura de concreto da edificação e o esqueleto metálico que sustenta a moldura de cristalato. Nessa ancoragem, foram acoplados os dois elementos que completam a instalação: a estrutura metálica secundária, composta de casiers – gaiolas de aço galvanizado que atuam como suporte para as plantas e para o substrato à base de fibra de coco -, e o sistema de irrigação automatizado, que funciona por gotejamento e aspersão. O fechamento interno dos casiers foi feito com manta geotêxtil de tela imputrescível (com classificação ao fogo M1, não inflamável) e o frontal, com carenagem de PVC.

Asparagus, Begonia, Clerodendrum, Ficus e Hedera são alguns dos gêneros aos quais pertencem as mais de 20 espécies que compõem o jardim. “A conservação do arranjo – que envolve plantas com diferentes ritmos de desenvolvimento, além de muitas outras especificidades – se revelou um processo de aprendizado intenso e constante”, afirma Manoel Marques, responsável pela administração do Edifício Odebrecht.

Realizados diariamente, os cuidados envolvem poda, controle de nutrientes, combate de pragas e reposição de exemplares. “Se um trecho adoece, é preciso atuar rapidamente para evitar a proliferação do problema”, lembra Marcelo Valadão, diretor da Odebrecht. Instalado em um trilho na parte superior da moldura de cristalato, um cesto com movimentação horizontal e vertical serve de veículo para que os funcionários consigam alcançar toda a área da parede. A checagem dos níveis de umidade, realizada por sonda, garante que as folhagens não ressequem, o que as tornaria propícias à propagação de fogo.

Após a conclusão do projeto, foi ainda preciso contornar um desafio peculiar: o ponto de exaustão do gerador autônomo de energia a gás e diesel do edifício desembocava justamente acima de uma das faces da parede verde, lançando sobre as plantas um calor acima de 70ºC. Logo, boa parte das plantas sucumbiram. “Assim que constatamos o problema, foi possível desviar o fluxo de ar, mas não reduzir a temperatura, que ainda atingia parte do jardim”, aponta Manoel Marques. “A solução, então, foi substituir a vegetação dessa região por uma espécie nativa do cerrado brasileiro, resistente a altíssimas temperaturas”, completa Marques.

Instalação da parede verde – 2 meses de duração

Fachada inacabada, pronta para receber o esqueleto metálico que sustenta a moldura de cristalato
Mês 1: instalação completa do sistema

 

 

 

 

 

Mês 2: vegetação plantada, em desenvolvimento

 

 

 

 

 

 

Redes de alimentação e irrigação

 

 

Cada uma das cores do esquema ao lado representa uma rede independente de irrigação. À direita, estão representadas as colunas de alimentação:

a) água – com 5 barras de 40 milímetros de diâmetro e fluxo de 1.000 litros/hora.

b) elétrica 1 – 8 fios de 1 milímetro quadrado rígidos, em tubo de 32 milímetros de diâmetro.

c) elétrica 2 – alimentação das sondas, com 4 fios de 0,35 milímetros quadrados, flexíveis em tubulação de 20 milímetros.

d) Evacuação da água em tubo de PVC de 40 milímetros.

Fachada lateral do Tryptique. O traço mais espesso indica a tubulação de irrigação. As faces verdes são indicadas na volumetria (parte inferior da imagem)

 

Alternativa premiada

Valendo-se de uma técnica completamente diversa, o Edifício Harmonia 57, projetado pelo escritório de arquitetura franco-brasileiro Triptyque – dos arquitetos Greg Bousquet, Carolina Bueno, Guillaume Sibaud e Olivier Raffaelli -, oferece um exemplo criativo de jardim vertical. Em 2010, o projeto localizado na Vila Madalena, em São Paulo, recebeu o prêmio Zumbotel, um dos mais importantes para a arquitetura sustentável. Com dois blocos unidos por uma ponte metálica, o edifício tem sua superfície externa pontuada por plantas que parecem brotar do concreto.

A fachada é formada por uma parede dupla de concreto orgânico. As grossas camadas são afastadas entre si e a mais externa é dotada de nichos abertos na superfície para acomodar as mais de 5 mil mudas que compõem o jardim. A hidráulica projetada faz com que a irrigação, por nebulização, chegue a esses nichos através de um sistema de coletores, reservatórios e de uma tubulação integrada à própria arquitetura, que percorre os dois blocos externamente e internamente, inclusive na forma de corrimão.

O sistema permite que a água da chuva e as águas cinza sejam recolhidas, tratadas e reaproveitadas na irrigação e nos sanitários. A camada vegetal externa e a cobertura verde do teto propiciam a proteção térmica e acústica do interior do edifício e colaboram para a redução do uso de ar-condicionado.

Como funciona o sistema adotado no Tryptique

Ciclo da água no sistema adotado no Tryptique

 

 

Decoração de interiores
Desde que haja luz suficiente, as paredes verdes também podem ser instaladas em áreas internas. Construída sob uma abertura no teto que oferece abundante iluminação zenital, esta versão de médio porte, com projeto paisagístico de Rafaela Novaes e Marcelo Novaes, é o chamariz de uma unidade da loja de móveis Artefacto, no Jardim Anália Franco, em São Paulo.

Samambaias, peperômias-pendentes e antúrios estão entre as espécies que cobrem o jardim de pouco mais de 15 m², executado pela empresa Paredes Vivas com o sistema GreenWall Ceramic – blocos cerâmicos modulares (29 cm x 25 cm x 19 cm) especialmente desenhados no formato de cunha para o cultivo das espécies em qualquer substrato. Entre as maiores vantagens do sistema estão a facilidade de construção, uma vez que os blocos são assentados diretamente sobre um muro ou parede de alvenaria, e a inexistência de barreiras nas laterais de cada módulo, possibilitando o livre desenvolvimento horizontal das raízes. Automatizado, o sistema de irrigação funciona por gotejamento e não necessita de cuidados especiais.

A técnica empregada pela Paredes Vivas pode ser utilizada em ambien tes internos e externos, para a criação de jardins de qualquer tamanho. O peso por metro quadrado da parede finalizada, ou seja, assentada e plantada, é de aproximadamente 120 quilos.

Módulos cerâmicos para jardim vertical

 

Por: Carine Savietto e Éride Moura

 

 

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