Construtoras paulistas são exemplo no fluxo de descarte e reaproveitamento de resíduos gerados em canteiros de obras

As construtoras paulistas podem ser parabenizadas. Passados 14 anos desde a entrada em vigor do plano de gestão de tratamento de resíduos na construção, estabelecido pela resolução 307/2002 do Conama, pode-se atestar que 100% das construtoras paulistas têm feito a lição de casa e estão cientes da importância da correta gestão e destino do entulho no canteiro de obras. “Hoje há uma grande consciência das construtoras desde que as regras foram implantadas”, atesta Francisco Vasconcellos, vice-presidente do Sinduscon-SP.

Ele observa, no entanto, que as construtoras são responsáveis por apenas 30% do total de resíduos gerados na cidade de São Paulo. “O restante, 70%, vem de pequenos geradores, como apontaram estudos realizados anos atrás”, afirma Vasconcellos.

O fim certeiro para o destino de materiais descartados como um todo, no entanto, ainda enfrenta um forte obstáculo: a ausência de um plano municipal de gestão de resíduos. “Esse plano envolveria a participação de todos. Construção civil, residências, setor hospitalar, entre outros setores. Caso contrário, não se conseguirá alcançar uma gestão de resíduos plena”, diz Vasconcellos.

Mas na construção civil prevaleceu a boa vontade de fazer valer regras adequadas de tratamento de resíduos a partir de ações de entidades que superaram, até mesmo, contratempos legais. “Em São Paulo, tivemos um plano municipal de resíduos que não foi regulamentado por lei. Porém, apesar da ausência dessa regulamentação, implantou-se uma série de medidas que ajuda os munícipes como os ecopontos, que são locais de entrega voluntária de pequenos volumes de entulho (até 1 m³), grandes objetos, como móveis, poda de árvores e resíduos recicláveis”, aponta Vasconcellos.

“Em São Paulo, tivemos um plano municipal de resíduos que não foi regulamentado por lei. Porém, apesar da ausência dessa regulamentação, implantou-se uma série de medidas como os ecopontos, que são locais de entrega voluntária de pequenos volumes de entulho (até 1 m³), grandes objetos e resíduos recicláveis.”

Francisco Vasconcellos, vice-presidente do Sinduscon-SP

A reciclagem de resíduos também virou uma etapa imprescindível para a reutilização do entulho depois que este deixa a obra. “A prefeitura, juntamente com órgãos de meio ambiente e a Cetesb, publica a lista de empresas de transporte, os chamados caçambeiros, que recolhem os resíduos, encaminhando esse material para as ATTs (Áreas de Transbordo de Triagem)”, descreve.

 

Abaixo, gerenciamento e reciclagem dos resíduos de construção e demolição, que visa à capacitação técnica em reciclagem em Novo Horizonte (SP). À direita, o professor Sergio Cirelli Angulo, da Poli-USP

Sergio Cirelli Angulo, porta-voz do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da USP, afirma que os custos de destinação dos resíduos de construção podem variar dentro da cidade, dependendo da disponibilidade das empresas em determinadas regiões. “Em São Paulo, os custos de destinação de resíduos da construção de 2013 a 2015 estavam entre R$ 20 e R$ 30/m³, quando dispostos em ATTs. Há também os custos com a triagem de resíduos, entre R$ 15 e R$ 25/m³, quando depositados nos aterros de resíduos inertes da construção civil.

Neste caso, segundo ele, só são recebidos resíduos classe A – aqueles que podem ser usados e reciclados na própria obra, entre R$ 8 e R$ 16/m³ – em usinas fixas de reciclagem. Nesse grupo incluem-se os agregados (materiais cerâmicos, tijolos, azulejos, blocos, telhas, placas de revestimento, argamassa, concreto e solos resultantes de obras de terraplenagem).

Segundo Angulo, os custos de transporte dependem das distâncias envolvidas entre as obras e os locais de destino. “Em geral, os valores praticados nesses últimos anos estavam em torno de R$ 0,6 a R$ 1/m³ por quilômetro. Dessa forma, os custos unitários de transporte de resíduos podem variar de R$ 4,5 a R$ 23/m³”, explica.

No entanto, esses custos de destinação e transporte de resíduos de construção podem ser reduzidos quando se opta por fazer triagem dos refugos nas próprias obras, encaminhando- os, em seguida, para as usinas de reciclagem (fixas ou móveis).

CIMENTÍCIOS E CERÂMICOS

Resíduos cimentícios e cerâmicos também podem ser reciclados como agregados nas usinas de reciclagem (fixas ou móveis). Em alguns casos, pode haver logística reversa de resíduos de blocos de concreto diretamente para empresas que fabricam esses componentes. “Os agregados reciclados são utilizados como vias provisórias de obras, sub-bases de pavimentos, argamassas de assentamento, contrapisos, novos componentes pré-fabricados não estruturais (blocos de vedação) etc.”, descreve Angulo.

MADEIRA

Os resíduos de madeira são geralmente reutilizados como biomassa – cavaco, briquete (energia), e requerem condições de queima controladas, acima de 800o C no processo. “As indústrias que compram os cavacos e briquetes são químicas, que usam caldeiras. Mas a madeira pode ser usada também na própria indústria de madeira industrializada (compensados, formas), além de outras aplicações como em paisagismo e jardinagem. Nesse caso, não se deve incluir madeiras tratadas ou industrializadas, por riscos de contaminação ambiental do local”, ensina Angulo.

 

 

GESSO

Quanto ao destino de resíduos de gesso, se não estiverem devidamente triados, devem ser direcionados a aterros específicos do tipo Classe II A (resíduos não inertes). “São poucos os locais que recebem esse tipo de refugo, que nunca deve ser misturado com o de aterros sanitários, pois a presença de sulfato implica formação de gás sulfídrico, gerando mau cheiro. Se devidamente triados, sem contar com a presença de materiais cimentícios e solos, os resíduos de gesso podem ser encaminhados para uso agrícola ou para cimenteiras em substituição da gipsita, que trata da mistura durante a fabricação do clínquer”, aponta Angulo.

Nesse caso, segundo ele, a pureza do resíduo de gesso, na hora da reciclagem, é um fator primordial. “Há também alternativas de reciclagem de gesso por equipamentos móveis, feita diretamente nas obras. Esse processo recalcina o gesso e recupera parte de suas características novamente. Então, o gesso reciclado é misturado com o gesso natural e aplicado como revestimento interno”, descreve Angulo.

O reúso de resíduos requer atenção

Raphael Baldusco da Silva, engenheiro civil do Laboratório de Materiais de Construção Civil do IPT, lembra que, para realizar a reciclagem, é necessário, inicialmente, fazer uma amostragem representativa, seguida de ensaios específicos para a caracterização dos agregados para cada fim, ou seja, concreto ou pavimento. “Por fim, para a aplicação dos resíduos devem ser seguidas as orientações da ABNT NBR 15.116:2004. Os exemplos mais frequentes do uso de resíduos da construção civil no Brasil são as sub-bases de pavimentos e blocos de concreto para vedação”, diz o engenheiro.

Por: Rosa Symanski

 

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