Na UFPR, futuros engenheiros são avaliados em gestão de serviços

Disciplina obrigatória em alguns cursos de Engenharia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), como Civil, Elétrica, Mecânica, Cartográfica e Agrimensura, Ambiental e Bioprocessos, o curso de Administração e Organização de Empresas de Engenharia tem o objetivo de preparar o engenheiro para que compreenda e aplique conhecimentos de administração. Para isso, apresenta e discute conceitos como produtividade, eficiência e eficácia do trabalho, processos de produção e circulação de bens e serviços de engenharia. O curso aborda ainda temas como: processo de trabalho e de produção; tecnologias de processo e reestruturação produtiva; administração estratégica e posicionamento de mercado; planejamento, avaliação e controle; análise de cenários; organizações; produção e operações; finanças; gestão de pessoas e liderança; e noções de Direito Empresarial, Trabalhista e Tributário. As questões de prova apresentadas a seguir exemplificam a abordagem dos temas tratados e a ênfase na articulação entre conhecimentos teóricos da administração e aplicações práticas em situações vivenciadas no exercício profissional dos engenheiros.

Engenheiro civil, mestre em Administração pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutor pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/ UFRJ). Professor do Departamento de Transportes e dos Programas de Pós- Graduação em Políticas Públicas (4P) e em Planejamento Urbano (PPU) da UFPR. É colíder do Grupo de Pesquisa em Economia Política do Poder e Estudos Organizacionais (EPPEO/ UFPR). Foi sócio-fundador da Ambiens Sociedade Cooperativa, atuando com consultoria nas áreas de Administração Pública, Planejamento e Políticas Urbanas. Nessa organização, também exerceu mandatos, entre 2000 e 2013, de diretor técnico, conselheiro fiscal e presidente. Desde 2014 dedica-se exclusivamente à UFPR.

Tecnologia de processo e valor excedente

“O termo tecnologia tem sido usado para identificar máquinas ou a utilização de novas máquinas no processo produtivo. Esta concepção é evidentemente restrita, o que acaba prejudicando a interpretação e análise dos problemas relativos aos efeitos da tecnologia sobre o processo de trabalho bem como o encaminhamento de soluções” (FARIA, José Henrique. Tecnologia e Processo de Trabalho. Curitiba: UFPR, 1992. pp.29). Neste sentido, o autor propõe o conceito de tecnologia de processo como forma de melhor compreender a integração exigida para o exercício do controle nos processos de produção. Com base no texto extraído da obra de FARIA (2004) e nas questões discutidas em sala de aula, explique:
a) O conceito de valor excedente e sua relação com os fatores de produção (instrumentos de trabalho, matériaprima e força de trabalho).
b) O conceito de tecnologia de processo.
c) A relação entre tecnologia, produtividade do trabalho e valor excedente.

Comentários
Nessa questão o aluno é instado a dissertar sobre o processo de geração de valor excedente, fundamental no processo de reprodução do capital, enfatizando, principalmente, a ideia de valor excedente relativo. Neste conceito, o valor excedente é obtido pela economia de trabalho resultante do aumento da produtividade. A incorporação de tecnologias de processo (físicas e de gestão) visa a racionalização e otimização da produção e, portanto, é um elemento central no aumento de produtividade e geração de valor excedente.

Resposta
Considerando que há uma unidade entre o processo de produção e o processo de valorização, o Valor Excedente é o valor produzido além daquele aplicado no processo de produção em instrumentos de trabalho, matéria-prima e força de trabalho. Destaca-se que os instrumentos de trabalho e a matéria-prima não transmitem para o produto/mercadoria mais valor que o seu próprio e por isso são considerados como Capital Constante. A Força de Trabalho, Capital Variável, é o fator de produção capaz de criar valor, inclusive além do seu próprio, que é o custo de reprodução da força de trabalho. Em um primeiro momento, o Valor Excedente é condicionado pela aplicação de mais trabalho no processo produtivo, denominado de Valor Excedente Absoluto, que está relacionado com a jornada de trabalho e a intensidade do trabalho.

Além disso, também é possível ampliar a taxa de valor excedente pela ampliação da força produtiva do trabalho, considerado como Valor Excedente Relativo.

Considerando as limitações de ampliação da jornada e da intensidade de trabalho, é a tecnologia que detém a capacidade de aumentar a produtividade do trabalho e, consequentemente, a taxa de valor excedente. A tecnologia aplicada ao processo de produção, definida por Faria (2004) como Tecnologia de Processo, compreende o conjunto de conhecimentos que tem por finalidade a modificação, organização e racionalização do processo produtivo, sejam tais técnicas de origem física (máquinas, peças e componentes), sejam de origem gerencial.

As tecnologias de origem física compreendem as “máquinas, equipamentos, peças, instalações e métodos, geralmente informacionais, utilizados, direta ou indiretamente, no processo produtivo” (FARIA, 2004) e variam desde ferramentas simples até os processos de automação e controle informacional da produção. As tecnologias de gestão compreendem as de ordem instrumental, que são as “técnicas-estratégicas de racionalização do trabalho; estudos de tempo e movimento, disposição racional de máquinas e equipamentos na unidade produtiva; sequência de etapas de produção (layout físico e de processo); organização, sistemas e métodos, entre outras” (FARIA, 2004) e as de ordem comportamental e ideológicas, como “seminários de criatividade, mecanismos de motivação e integração, planos de treinamento e desenvolvimento de pessoal, trabalhos em grupos participativos entre outros mecanismos que favoreçam o comprometimento, o envolvimento, a cooperação”.

Em síntese, as Tecnologias de Processo visam ampliar a produtividade do trabalho incidindo sobre a produção de Valor Excedente Relativo.

Gestão de pessoas e liderança

Você é o sócio-diretor de uma empresa de engenharia que desenvolve projetos industriais no ramo de alimentos e bebidas. A complexidade dos projetos exige equipes interdisciplinares (engenharias civil, química, mecânica, de bioprocessos, elétrica e arquitetura) e o trabalho envolve alto nível de conhecimento técnico. Recentemente, a empresa tem ampliado sua demanda, implicando a contratação de novos profissionais. Alguns profissionais, apesar de terem boa qualificação formal, têm pouca experiência. Para um dos projetos contratados você montou uma equipe jovem e, como coordenador, confiou no profissional com a melhor formação (especialização e mestrado na área) e maior conhecimento do trabalho, mesmo conhecendo os riscos relacionados à sua pouca experiência em coordenação de projetos. Apesar das dificuldades naturais de integração da equipe nas primeiras semanas, com um bom trabalho de grupo você conseguiu fazer com que a equipe funcionasse bem. Contudo, uma falha do coordenador, que implicou um significativo retrabalho, criou uma situação nova. A equipe perdeu a confiança no coordenador e, mesmo não sabendo exatamente o que deve fazer, acredita que está melhor sem ele. Esta perda de legitimidade tem gerado mais resistência e atrasos. Com base nestas informações responda e justifique sua resposta para as seguintes questões:
a. Em que base de autoridade estava fundamentada a liderança do coordenador?
b. Segundo o modelo da Grade Gerencial, que tipo de liderança seria mais adequada neste caso?
c. Qual o grau de maturidade da equipe? Segundo a concepção de liderança situacional de Hersey e Blanchard, que tipo de liderança deveria ser adotada?
d. Com base nos conhecimentos sobre liderança, o que você faria para reverter a situação?

Comentários
O tema da liderança é atual e importante no contexto das organizações contemporâneas. Os profissionais de engenharia, assim como os trabalhadores de maneira geral, vivenciam experiências diárias de conflitos e outras relações interpessoais no ambiente de trabalho que podem ser melhor Nessa questão o aluno é confrontado com uma situação hipotética e se solicita que reflita, apoiando-se em conhecimentos sobre teorias clássicas de liderança e autoridade, sobre a solução para o problema.

Resposta
O coordenador foi escolhido pela sua competência técnica e essa era sua base de autoridade. Como destaca MAXIMIANO (2011), a competência técnica não deve ser o único fator considerado para escolha de pessoas que ocupam posições de gerência. Os gestores são demandados a desenvolver habilidades além da sua especialização básica, relacionadas ao exercício de liderança.

O Modelo da Grade Gerencial se baseia na ideia de que os gerentes consideram dois aspectos não concorrentes no exercício da gerência: as tarefas e as pessoas. A Grade Gerencial é uma matriz que combina esses aspectos com nove graus em cada eixo. MAXIMIANO (2011) destaca que para os autores da Grade Gerencial, William Blake e Jane Mouton, as posições superiores de gerência são sempre as mais adequadas e o melhor comportamento de liderança é aquele que combina alta ênfase nas tarefas e alta ênfase nas pessoas, posição “9-9” denominada de “Gerência de Equipe”.

Depois de alcançar grande repercussão, esse modelo passou a ser criticado por propor que um mesmo comportamento funcionaria bem em qualquer situação, dando origem às teorias da liderança situacional MAXIMIANO (2011). A concepção de liderança situacional de Hersey e Blanchard associa o estilo de liderança ao Grau de Maturidade dos liderados. Utilizando a mesma matriz da grade gerencial, sugere quatro estilos ideais para cada um dos quatro graus típicos de maturidade, conforme a imagem abaixo. No caso em tela, dado o baixo grau de maturidade da equipe, seria recomendado um estilo de Comando.

Modelo de liderança situacional de Hersey e Blanchard

Fonte: Introdução à Administração. MAXIMIANO, A.C.A. 8ª ed. São Paulo, Atlas, 2011

GRADE GERENCIAL DE BLAKE E MOUTON

Fonte: Introdução à Administração. MAXIMIANO, A.C.A. 8ª ed. São Paulo, Atlas, 2011

Finanças e contabilidade

A empresa Maradona Engenharia Ltda. está com dificuldades no gerenciamento do seu capital de giro e contratou uma consultoria em finanças para auxiliar na resolução deste problema. O consultor solicitou algumas informações, como o balanço patrimonial simplificado do exercício anterior, a análise do ciclo operacional e as estratégias de pagamento de fornecedores e de cobrança. O sóciogerente, sr. Diego, repassou ao consultor o seguinte balanço simplificado:

 

Além disso, o sr. Diego informou que:
– O tempo médio entre o início da aquisição de materiais (média ponderada por volume de recurso aplicado) e a conclusão dos serviços tem sido de 190 dias;
– A Maradona Engenharia Ltda. negocia prazos médios de 30 dias para pagamento de fornecedores;
– Em função da política de vendas adotada, a empresa recebe o pagamento pelos serviços realizados, em média, após 90 dias da conclusão e entrega dos produtos. Com base nessas informações, indique:
a. Quais são os ativos de maior liquidez da empresa?
b. Considerando os tempos médios, qual é o ciclo de caixa da Maradona Engenharia?
c. Considerando ainda os tempos médios, qual é o ciclo operacional?
d. Descreva duas estratégias possíveis que podem ser adotadas pelo sr. Diego para melhorar seu fluxo de caixa.

Comentários
Apesar da amplitude do tema das finanças nas organizações, que envolve desde gestão de ativos, financiamento, investimento, avaliação de risco etc., a gestão do caixa é uma das questões que tem impacto significativo na viabilidade das empresas. Nessa questão, solicita-se ao aluno que interprete informações básicas de contabilidade e finanças para propor estratégias de redução do ciclo de caixa da empresa, como, por exemplo, antecipação de recebíveis, negociação de prazos com fornecedores, redução de estoque e aceleração do ciclo operacional (ou de produção).

Resposta
Os ativos são apresentados no balanço em ordem decrescente do grau de liquidez. Portanto, o Caixa e os Bancos são os ativos de maior liquidez. Conforme LEMES Jr. (et.al, 2002), o Ciclo de Caixa é “o período em que os recursos da empresa foram utilizados para o pagamento dos bens e/ou matérias-primas até o recebimento pela venda do produto acabado resultante” e o Ciclo Operacional é o tempo que transcorre “entre a entrada da matéria-prima no estoque da empresa até a venda dos produtos elaborados e respectivo recebimento”. Assim, no caso em tela, o Ciclo Operacional é de 190 + 90 dias ou 280 dias e o Ciclo de Caixa é de 190 – 30 + 90 dias ou 250 dias.

Segundo LEMES Jr. (et.al, 2002), reduzir o ciclo de caixa contribui para a “diminuição das aplicações no ativo circulante e consequente redução do saldo mínimo de caixa”. Negociar melhores prazos de pagamento dos fornecedores e diminuir o ciclo de produção contribuem com a redução do ciclo de caixa.

Fonte: Administração Financeira, Antonio Barbosa Lemes Jr., Ana Paula Cherobim e Claudio Miessa Rigo, Editora Campus, Rio de Janeiro, 2002

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