Especialista fala das novidades e vantagens do concreto autoadensável

BERNARDO FONSECA TUTIKIAN

Engenheiro civil formado em 2002 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre e doutor em engenharia, ambos os títulos obtidos na UFRGS, em 2004 e 2007, respectivamente, fez pós-doutorado pela Universidad Tecnológica de La Habana (Cujae) em 2013 e é professor visitante da Missouri University of Science and Technology. Especialista e consultor em dosagem de concretos autoadensáveis (CAA), publicou mais de 100 trabalhos em periódicos e eventos e é coautor (ao lado de Denise Dal Molin) do livro “Concreto autoadensável” (PINI, 2015, 2ª edição). Coordena o Instituto Tecnológico de Desempenho para Construção Civil – ITT Performance e o projeto Redetec. É docente permanente do mestrado profissional e das disciplinas de tecnologias construtivas, materiais de construção e patologia na Unisinos, além de coordenar os cursos de especialização em construção civil e patologia nas obras civis. No Instituto Brasileiro do Concreto (Ibracon), é diretor regional do Rio Grande do Sul, diretor de eventos e conselheiro. Também é membro fundador e presidente de honra da Alconpat Brasil e gestor da Alconpat Internacional.

Se existe uma tendência pela industrialização da construção civil, é certo também que o concreto autoadensável (CAA) será um dos personagens desse cenário futuro. Foi assim nos países mais avançados e deve ocorrer o mesmo no Brasil, conforme determinarem o ritmo da oferta de mão de obra e também os preços dos aditivos superplastificantes e modificadores de viscosidade. No livro “Concreto Autoadensável” (PINI, 2015, 2a edição), dos professores Bernardo Fonseca Tutikian e Denise Carpena Dal Molin, os autores são assertivos nesse prognóstico, ao destacar as vantagens do CAA: “elimina-se a necessidade de adensamento, o qual se traduz em ganho de tempo, redução de mão de obra e minimização dos inconvenientes da vibração (…). Além disso, elimina-se a heterogeneidade causada à vibração do concreto”. O tema, que está na pauta do 58o Congresso Brasileiro do Concreto, entre 11 e 14 de outubro de 2016, em Belo Horizonte, é objeto também desta entrevista do engenheiro e professor Bernardo Tutikian, um dos principais especialistas brasileiros no assunto.

O concreto autoadensável (CAA) foi desenvolvido no Japão por volta de 1988, portanto há quase 30 anos. Em linhas gerais, e sucintamente, como foi a evolução do material a partir de então?
Tivemos um grande avanço nos aditivos químicos, tanto em qualidade quanto em valor de mercado, o que fez com que o CAA ficasse viável em muitas aplicações. Ocorreu, ainda, um avanço em pesquisas e métodos de dosagem, solucionando lacunas e pontos negativos que havia na tecnologia do CAA. Isto tudo tornou o material mais conhecido, mais aplicável, tanto em empresas grandes quanto em pequenas. Temos um concreto disponível para todos.

O senhor é autor de um método de dosagem experimental para concretos autoadensáveis em uma época (2007) em que se conhecia mais profundamente as propriedades mecânicas do CAA no estado endurecido. Como o estudo da dosagem contribuiu para a evolução do material?
Por meio de estudos de dosagens racionais se evita a mistura feita por tentativa e erro. Assim, chegamos a composições mais racionais, em menos tempo e com maior qualidade. Isto é benéfico para a indústria como um todo. Os fornecedores podem desenvolver seus produtos sabendo exatamente o que precisam alcançar; os produtores de CAA conseguem extrair o máximo dos insumos e proporções entre eles; e o consumidor receberá um concreto racional, econômico e durável. Todos se beneficiam.

O 58º Congresso Brasileiro do Concreto, do Ibracon, incluiu no programa um seminário sobre pesquisas e obras em concreto autoadensável. O que esse evento traz de novo ao mercado?
Primeiro é importante ressaltar que temos neste evento uma perfeita harmonia entre indústria e academia, entre a prática e a teoria. No 3º Seminário de CAA existem palestras mais acadêmicas, mostrando a evolução científica da tecnologia, e palestras aplicadas, com cases de sucesso e formas de viabilização do CAA nas empresas. Como grande novidade há uma palestra sobre a robustez do CAA, ou seja, a capacidade de o produto não sofrer tanta interferência quando, durante a mistura, se alteram algumas quantidades de material. Por exemplo, o operador da central colocar 10 kg de cimento a mais que o traço previsto. Isto é muito comum de ocorrer na prática e o CAA deve ter robustez, deve ter a capacidade de suportar esta variação sem grandes interferências no seu estado fresco e endurecido. Temos ainda palestra sobre as atualizações da norma NBR 15.823, a norma de concreto autoadensável, que está em fase avançada de revisão. Há ainda uma palestra sobre a evolução dos aditivos químicos, matéria-prima tão importante para o sucesso do CAA, e uma sobre implantação da tecnologia em empresas de pré-fabricados no sul do Brasil. Enfim, este é um evento imperdível para quem se interessa por tecnologia do concreto.

“O CAA deve ter robustez, deve ter a capacidade de suportar esta variação sem grandes interferências no seu estado fresco e endurecido”

O CAA tem sido bastante empregado na indústria de pré-fabricados e em muitas obras de infraestrutura, como túneis e pontes. Qual é a sua avaliação sobre o uso do CAA nas obras de edificações que utilizam a concretagem in loco? Quais são as dificuldades neste caso e como contorná-las? A elevada fluidez do concreto pode ser um impedimento, como rebaixos de lajes e escadas?
Sim, realmente. Na indústria de pré-fabricado e obras de infraestrutura temos grandes cases de sucesso, empresas utilizando o material em 100% da sua produção. Eu costumo afirmar, exagerando um pouco, que neste tipo de indústria só não usa o CAA quem não quer ou não conhece, pois o material é viável técnica e economicamente nestes casos. Para construções convencionais o desafio é um pouco maior, um pouco devido ao desconhecimento do público, mas ainda por dificuldade de viabilidade financeira. A grande vantagem econômica do CAA, que é a redução de mão de obra, é pouco sentida em obras convencionais, pois a mão de obra que pode ser reduzida no dia da concretagem é necessária em todas as demais etapas do processo construtivo, não sendo possível uma diminuição drástica, como acontece na indústria de pré-fabricados. Claro que a impossibilidade de executar elementos em desnível, como escadas ou sacadas, é um fator limitante, mas não pode ser considerado como definitivo, pois é facilmente resolvido. Pode-se utilizar um primeiro caminhão com concreto convencional para suprir esta demanda sem problemas ou interferência no processo.

Também há dez anos, experiências reais em obras de Goiás e Santa Catarina demonstraram que o uso do CAA conseguiu reduzir o número de operários durante a concretagem, aumentar a velocidade de execução, melhorar o nivelamento da laje e eliminar as chamadas bicheiras. Todos esses benefícios se traduzem em redução de custos hoje? E atendem à Norma de Desempenho?
O caso de Goiás, principalmente, é emblemático no Brasil. Lá, de uma hora para outra, se passou a usar o CAA em diversas obras convencionais, com grande volume e grandes resultados. O que eles fizeram de diferente? Conseguiram unir, com muito sucesso, a universidade, com o professor André Geyer, da UFG, uma concreteira, uma empresa de aditivo químico e algumas construtoras. Ou seja, ligaram todos os elos da corrente. Com todos remando para o mesmo lado, os eventuais problemas que surgiram ao se migrar para uma tecnologia mais avançada facilmente foram sendo resolvidos, tornando-se um grande case de sucesso e ainda não repetido no Brasil, pelo menos não com aquela escala. Inclusive, este foi o embrião para iniciar a migração para a indústria de pré-fabricados, onde a implantação é mais fácil, pois é uma indústria com maior controle do processo e com atividades sendo repetidas diariamente. Com certeza aumentar a velocidade de concretagem, melhorar o nivelamento e eliminar falhas de concretagem diminui o custo, mas poucas empresas convencionais conseguem quantificar isto. Claro que não quero generalizar, mas o que faz uma construtora quando há uma pequena falha de concretagem em um pilar, por exemplo? Tapa com argamassa de cimento e areia. Qual a durabilidade deste reparo? Muito menor do que a da estrutura. E quanto custa isto? Poucas empresas sabem, infelizmente. Quanto à Norma de Desempenho, o uso do CAA entra apenas na fase da execução. E na fase da execução devemos realizar apenas uma tarefa: executar. É obrigação do construtor executar uma estrutura de acordo com o projeto. O CAA facilita isto, pois melhora o nivelamento, melhora o cobrimento das barras de aço, pois o vibrador usado em construções convencionais pode deslocar os espaçadores. Isto tudo leva a uma estrutura mais durável, buscando atender à Norma de Desempenho. Mas questões relativas ao desempenho térmico, acústico, resistência contra fogo etc. devem ser resolvidas em projeto e não durante a execução.

“O caso de Goiás é emblemático no Brasil. Lá, conseguiram unir, com muito sucesso, universidade, concreteira, empresa de aditivo químico e construtoras”

Que providências o uso do CAA exige em termos de: projeto ou sistema de fôrmas, método de lançamento, cura e controle tecnológico?
Na realidade, praticamente as mesmas providências do concreto convencional. As fôrmas devem ser estanques, como para o concreto convencional; pode-se lançar o CAA com gruas, ser bombeado ou simplesmente espalhado, igual ao concreto convencional; a cura deve seguir o disposto na NBR 14.931, ou seja, até o concreto atingir 15 MPa, da mesma forma que o concreto convencional; e controle tecnológico deve atender à NBR 12.655, igual ao concreto convencional. Ou seja, não é necessário pensar em grandes alterações. Apenas um cuidado maior com a pressão em fôrmas de grande altura e com os desníveis de elementos.

Na prática, como a concretagem com CAA se posiciona no planejamento da obra?
Da mesma maneira que a concretagem com o concreto convencional, com a vantagem de ser mais rápida, ou seja, é possível planejar concretagem de maiores volumes ou até programar atividades na sequência do processo.

Qual é a posição do Brasil quanto ao uso do CAA e qual sua recomendação para as construtoras que desejam utilizá-lo?
O Brasil usa pouco CAA em comparação com países mais desenvolvidos, como Japão, Estados Unidos, Alemanha, França, Inglaterra, entre outros. Mas está com um interessante crescimento e creio que em breve poderá atingir, ou até superar, estes países. A recomendação é seguir o exemplo bem-sucedido de Goiás: convide uma concreteira e uma empresa de aditivo químico para serem parceiros, não apenas fornecedores, e chame um consultor ou projeto com uma universidade para ajudar na superação das dificuldades. Após um ou dois casos de sucesso, a empresa já estará pronta para seguir com o processo e nunca mais irá voltar ao concreto convencional.

“Após um ou dois casos de sucesso, a empresa já estará pronta para seguir com o processo e nunca mais irá voltar ao concreto convencional”

Em 2015, o senhor lançou juntamente com a professora Denise Dal Molin a segunda edição, revista e atualizada, do livro “Concreto Autoadensável”. O que mudou no uso do CAA desde a primeira edição do livro?
Sim, após esgotar a primeira edição, fizemos uma revisão no livro. É muito fácil trabalhar com a professora Denise Dal Molin, uma profissional de grande qualidade técnica e humana, certamente uma inspiração para mim e para tantos outros pesquisadores deste país. Fizemos uma série de atualizações, mantendo a estrutura original do livro. Incluímos cases, novas práticas para dosagem, atualização dos materiais e, principalmente, da norma do concreto autoadensável, que não existia em 2008, quando lançamos a primeira edição.

Por Eder Santin

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