Construtoras estão descobrindo os caminhos para superar dúvidas e dificuldades para o atendimento da NBR 15.575

Três anos depois de entrar em vigor, a NBR 15.575:2013 – Edificações Habitacionais – Desempenho ainda é uma ilustre desconhecida para boa parte das empresas de construção civil. Motivos não faltam. Resistência ao novo, dificuldade para compreender ou se adaptar às exigências da norma, falta de cultura no País para o cumprimento de normas técnicas, número reduzido de laboratórios para a realização de ensaios, produtos sem laudos de desempenho e até mesmo a estagnação econômica estão entre os principais fatores que explicam o avanço lento da Norma de Desempenho entre os escritórios de arquitetura, construtoras e fornecedores de materiais, componentes e sistemas.

A boa notícia é que, apesar dos obstáculos, as empresas de referência do mercado estão mobilizadas, incorporando a norma em sua rotina e criando novos modelos de trabalho. “Existe um grupo, especialmente no Rio Grande do Sul e em São Paulo, que tem se mobilizado bastante para atender à norma”, afirma a engenheira Maria Angélica Covelo Silva, sócia da NGI Consultoria e integrante das comissões de elaboração e revisão da Norma de Desempenho. Ela relata que tem feito seminários concorridos sobre o tema em várias cidades. “No interior do Rio Grande do Sul, vemos 150 pessoas na plateia e todas participando com muito interesse”, exemplifica.

Márcia Menezes, diretora de Inovação & Tecnologia do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), cita outras cidades, entre elas Rio de Janeiro, Uberlândia, Maceió, Aracaju e Goiânia, onde a consultoria já realizou treinamentos. “Como a Norma de Desempenho vale somente para projetos aprovados a partir de 2013, ainda não existe um volume razoável de obras que nos permita saber o quanto essas empresas já colocaram em prática”, comenta.

Edifício Chronos, da Athivabrasil, construído em Novo Hamburgo (RS): estrutura projetada para durar no mínimo 75 anos. No detalhe, tratamento acústico em pisos e paredes
Ensaios acústicos e esquadrias de desempenho superior no Edifício Chronos

O engenheiro Carlos Borges, presidente- executivo da construtora Tarjab e coordenador entre 2004 e 2008 da comissão de estudos da ABNT que resultou na NBR 15.575, afirma que o objetivo da norma é estabelecer, de maneira clara, quais são os requisitos de desempenho, os critérios para seu atendimento e a forma de mensuração, facilitando e tornando menos subjetiva a verificação da qualidade da edificação habitacional. “Isso dá ao consumidor a possibilidade de avaliar o comportamento do edifício e suas partes perante todas as condições de exposição a que está sujeito no uso e operação, incluindo a questão da vida útil e da qualidade no longo prazo”, afirma. Dessa forma, evita-se a concorrência desleal e o cliente passa a ter condições de comparar desempenho, e não apenas o preço.

Segundo Borges, o mercado está saindo da inércia e começando um longo processo de aculturamento. “A Caixa Econômica Federal poderia acelerar esse processo se exigisse auditoria em projetos, ensaios por amostragem e avaliação pós-ocupação dos imóveis que financia”, exemplifica. Deficiências na formação profissional também contribuem para a lentidão do processo. A NBR 15.575 remete a 232 outras normas técnicas, algumas delas internacionais. “A carreira acadêmica ainda está muito longe da realidade, está na hora de rever os programas de ensino. Existem muitos projetistas que desconhecem as normas, com exceção dos engenheiros calculistas e de instalações, que já estão mais habituados a trabalhar dentro desses parâmetros”, afirma.

Mão na massa
A implementação da NBR 15.575 na Tarjab demandou treinamento das equipes e adaptação dos procedimentos de projeto, compras e execução da obra. A empresa passou a exigir de seus fornecedores ensaios e laudos que agora fazem parte da documentação do projeto, investiu na realização de outros ensaios, como os de acústica ou de arrancamento de fachada, e treinou equipes próprias para realizar ensaios de estanqueidade. O primeiro fruto desse trabalho é o empreendimento residencial Soberano, lançado em junho último, na Vila Mariana, zona Sul da capital paulista. De acordo com a Tarjab, o edifício é o primeiro do Estado de São Paulo que comprova com ensaios e laudos o pleno atendimento a todos os critérios da NBR 15.575. A adaptação à norma, prevê a Tarjab, deve elevar o custo dos empreendimentos a partir de 2%, conforme o padrão.

O arquiteto na mira

A formação dos arquitetos tem sido alvo de críticas por se concentrar mais na discussão teórica da arquitetura do que nas demandas do mercado. Segundo o arquiteto Marcelo Nudel, professor de Sustentabilidade de Edificações na Universidade Mackenzie, em São Paulo, e sócio-diretor da Ca2 Consultores Ambientais Associados, as boas normas internacionais de eficiência energética, assim como a NBR 15.575, colocam a responsabilidade do conforto ambiental no projeto de arquitetura. O consultor explica que é comum no Brasil o arquiteto não assumir responsabilidades técnicas sobre o projeto e por isso vem perdendo espaço. “O arquiteto só vai mudar quando o contratante passar a pedir laudos para ter a garantia de que o projeto atende a todas as exigências”, afirma. Nudel sugere a avaliação dos níveis de desempenho térmico pelo método da simulação a partir de modelos computacionais. “Se o resultado for igual ou melhor do que o obtido pelo método prescritivo, o projeto vai atender à norma.”

 

Manual Desempenho: Sistemas de alvenaria com blocos cerâmicos Pauluzzi apresenta o desempenho de todas as linhas de produtos da empresa em acordo com mais de 160 ensaios

Um manual para mil leitores

Nem só projetistas e construtoras estão se empenhando para implementar a NBR 15.575 em sua rotina. A indústria fornecedora também está trabalhando para atender às exigências em relação ao desempenho e à durabilidade de seus materiais, componentes e sistemas. Entre os trabalhos mais abrangentes está o do Sinduscon-RS em parceria com o ITT Performance, da Unisinos. Depois de formar um grupo de estudo com construtoras e incorporadoras associadas, a Comissão de Materiais, Tecnologia, Qualidade e Produtividade (Comat/Sinduscon-RS) concentrou esforços para ajudar na qualificação da cadeia local, explica o engenheiro Roberto Sukster, integrante da comissão. Além de ensaios solicitados aos fabricantes, a iniciativa inclui encontros que alternam workshops teóricos e visitas a canteiros, para que os participantes troquem experiências e conheçam in loco as soluções adotadas. “Ainda tem muita gente no início desse percurso, mas cada vez há mais empresas interessadas, se envolvendo e buscando informações”, diz Sukster. Uma dessas empresas é a Pauluzzi, fabricante de blocos cerâmicos, localizada em Sapucaia do Sul (RS). Ela participou de uma das reuniões com o objetivo de identificar quais de seus produtos os construtores queriam ensaios. O resultado está nos mais de 160 ensaios que deram origem ao manual técnico “Desempenho: Sistemas de alvenaria com blocos cerâmicos

Ensaio para avaliação de desempenho das alvenarias com blocos de concreto

Pauluzzi”, desenvolvido com a ajuda da consultora Maria Angélica Covelo Silva. De acordo com Juan Carlos Germano, diretor da empresa, a publicação apresenta os requisitos da norma e o desempenho de todas as linhas de produtos da Pauluzzi de acordo com a NBR 15.575 e pode ser usada como referência. O evento para o lançamento do manual reuniu mais mil pessoas em Porto Alegre, número que dá a dimensão do quanto o mercado busca informações técnicas para se ajustar à norma. As ações dos fornecedores de produtos cerâmicos não se restringem à Pauluzzi. De acordo com Natel Moraes, presidente da Associação Nacional da Indústria Cerâmica (Anicer), o setor está focado nos ensaios de caracterização das amostras de blocos e telhas e o resultado deste trabalho logo será disponibilizado.

Desde a publicação da NBR 15.575, o setor de blocos de concreto também vem realizando diversos ensaios do Sistema de Vedação Vertical com alvenaria de blocos para conhecer, validar e apresentar aos projetistas e construtores os seus respectivos desempenhos. Segundo o engenheiro Anderson Oliveira, do Sinaprocim/Sinprocim e gerente do PSQ de Blocos de Concreto, os resultados dos primeiros ensaios estão disponíveis desde 2014 no site da Bloco Brasil – Associação Brasileira da Indústria de Blocos de Concreto.

O setor de cimento também vem realizando, desde a publicação da norma, diversas ações de difusão e discussão da NBR 15.575. Por meio do movimento Comunidade da Construção, a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) promove oficinas e seminários em várias cidades brasileiras.

Muitas das principais mudanças trazidas pela norma dizem respeito ao projeto de arquitetura. “Nem tudo é custo”, afirma Borges. O arquiteto Marcelo Nudel, professor de Sustentabilidade de Edificações na Universidade Mackenzie, em São Paulo, e sócio-diretor da Ca2 Consultores Ambientais Associados, concorda. “A NBR 15.575 não traz um alto nível de exigências técnicas, não requer soluções onerosas e pode ser atendida com materiais tradicionais na grande maioria das vezes. A parede de alvenaria, com emboço e reboco, variando apenas as espessuras conforme o posicionamento do prédio, o tamanho e o espaço, atende a exigências de desempenho térmico em todo o Brasil”, exemplifica.

A corrida para o atendimento à norma envolve também empresas de arquitetura. O escritório Aflalo/Gasperini, que possui diversos edifícios residenciais no portfólio, buscou consultoria do CTE para treinar a equipe de projeto e especificação, a fim de garantir que os empreendimentos residenciais protocolados após julho de 2013 já atendessem às exigências da NBR 15.575. Além disso, realizou um trabalho de sensibilização de projetistas complementares, construtoras, incorporadoras e proprietários, a respeito das responsabilidades de cada um. “Melhora muito a qualidade da obra que atende à norma”, afirma Flávia Marcondes, diretora- associada do escritório.

Residencial La Casa, empreendimento da Incoben em Passo Fundo (RS). O edifício está na fase inicial das obras

Baixo impacto nos custos
Apontada pelo ranking ITC (Inteligência Empresarial da Construção) como a maior construtora do País pelo quarto ano consecutivo, a mineira MRV Engenharia e Participações atua no segmento de empreendimentos residenciais populares em mais de 140 cidades de 20 Estados brasileiros. Segundo o engenheiro Flávio Paulino de Andrade e Silva, gestor-executivo de projetos, a empresa criou um grupo de trabalho multidisciplinar e contratou consultorias para estudar a NBR 156.575:2013 e realizar as adequações necessárias. Como muitos fornecedores não conheciam o desempenho dos materiais que fabricavam, a MRV financiou ao longo de dois anos mais de 250 ensaios próprios e de terceiros, todos realizados por laboratórios acreditados pelo Inmetro. O resultado está no Caderno de Desempenho, que abrange os sistemas construtivos utilizados pela empresa e todas as variações de materiais, já com as adequações necessárias para atender à norma. Os manuais de projetos da empresa também foram adaptados, assim como os contratos com os projetistas.

Entre as principais dificuldades, o executivo da MRV destaca o despreparo dos profissionais para trabalhar com o aspecto multidisciplinar da norma, o que foi solucionado com o treinamento das equipes. “Projetistas e consultores não tinham a visão sistêmica multidisciplinar. O projetista de acústica entende muito de desempenho acústico, mas não conhecia nada sobre desempenho térmico. E o inverso também ocorria. Assim, eles especificavam adequações conflitantes para um mesmo material ou sistema construtivo.”

De acordo com Andrade e Silva, a MRV segue todas as normas técnicas e códigos da construção, o que simplificou sua adaptação à NBR 15.575. Sem grande impacto sobre o total da obra, o aumento de custos está na faixa entre 2% e 4%, dependendo do empreendimento e de sua localização. “Algumas adequações de materiais e sistemas construtivos tiveram maior impacto sobre o custo. Por exemplo, os que se referem ao desempenho acústico e térmico, que variam entre as regiões mais quentes e mais frias do País”, explica. As principais modificações de projeto e execução da obra abrangeram os sistemas de pisos, janelas, portas e cobertura, mas a construtora não revela os detalhes.

Na MRV, a compra de suprimentos passou a ser balizada pelos requisitos de desempenho da norma. Uma ficha de aquisição de materiais que agrega as especificações de desempenho estabelecidas nos projetos agora orienta o trabalho do departamento de compras. A empresa investe continuamente em cursos para as equipes, alguns fora do campo da produção, como os oferecidos aos corretores, para que possam informar os consumidores.

NBR tem força de lei

A obrigatoriedade de acatar as
normas técnicas é um dos
temas abordados no livro
Direito na Construção Civil, do
advogado Carlos Pinto Del Mar

Ainda há quem acredite que o atendimento às normas técnicas é voluntário, mas esse é um grande equívoco que o mercado precisa desfazer. A obrigatoriedade de acatar as normas técnicas é tema do livro “Direito na Construção Civil”, do advogado Carlos Pinto Del Mar, que também participou da comissão de elaboração da NBR 15.575. Em setembro último, a obra rendeu ao autor seu terceiro prêmio Master Imobiliário na categoria Profissional – Trabalho Acadêmico. Para Maria Angélica, da NGI Consultoria, há um grande desconhecimento sobre as responsabilidades envolvidas. “Muita gente acha que ao contratar um projetista, a responsabilidade passa a ser totalmente desse profissional, mas não é bem assim. O Código Civil diz que os primeiros responsáveis são o construtor e o incorporador. Não basta delegar, tem que exigir por contrato o atendimento a todas as normas técnicas incidentes em cada projeto”, afirma.

Carlos Borges, da Tarjab, compartilha essa preocupação e alerta que a obrigatoriedade de seguir as normas técnicas está explícita no Código de Defesa do Consumidor, nos códigos de ética dos conselhos profissionais Confea, Crea e CAU, ou em leis específicas, como a 8.666/1993, que coloca o atendimento às normas como condição para a contratação pelo poder público. “O Tribunal de Justiça de São Paulo já leva em conta o atendimento às normas técnicas em suas decisões. Para quem ainda tem dúvidas, sugiro a leitura de ‘Tragédias, crimes e práticas infrativas decorrentes da não observância de normas técnicas brasileiras’, de Maurício Ferraz de Paiva”, recomenda.

No processo de aprendizagem da norma, a Incoben testou soluções no Centro Executivo Presidente Vargas, um de seus empreendimentos comerciais

Nível superior
Situado em Novo Hamburgo (RS), o Residencial Chronos, empreendimento da Athivabrasil, talvez seja o primeiro edifício do País construído em acordo com a NBR 15.575 – a obra está na fase de acabamento. O projeto é de 2013 e já nasceu com a intenção de alcançar o nível superior de desempenho em todos os sistemas abrangidos pela norma. De acordo com Eduardo Frapiccini, diretor- executivo da Athivabrasil, em 2013 a empresa passou a investir em treinamento para a equipe técnica e na elaboração de ensaios no Instituto Tecnológico em Desempenho e Construção Civil, o ITT Performance, da Unisinos.

No início, surgiram dúvidas sobre como atender ao nível superior de 75 anos de durabilidade, uma vez que a NBR 6.118 – Projeto de Estruturas de Concreto – Procedimento não dá indicadores para que tal vida útil seja alcançada, relata Victório Altair Carara Jr., diretor de engenharia da Athivabrasil. Antes da execução das fundações, foram feitos ensaios para avaliar a permeabilidade do solo e a presença de íons de sulfato. Com o assessoramento do ITT Performance, foram realizados estudos de normas internacionais para balizar a escolha do traço de concreto a ser utilizado na obra. O controle tecnológico foi feito em todos os caminhões- -betoneira, assim como a inspeção de fôrmas e armaduras antes das concretagens de pilares, vigas e lajes, sempre trabalhando com amostra total. O ITT Performance acompanhou as concretagens realizadas no Chronos, balizando o procedimento executivo.

A tragédia da boate Kiss, em janeiro de 2013, promoveu a reformulação das leis de segurança contra incêndio no Rio Grande do Sul, o que coincidiu com a fase de anteprojeto do Chronos e levou à readequação do sistema construtivo das lajes e definição das rotas de fuga e saídas de emergência. A edificação foi classificada em relação ao tempo requerido de resistência ao fogo e o projetista estrutural fez o laudo atestando a segurança do edifício em situação de incêndio.

O novo processo de compras da Athivabrasil passou a considerar laudos de ensaio, termos de garantia e vida útil como condições básicas para a contratação de fornecedor e agora conta com diversos checklists para cada tipo de produto ou sistema, relacionando os requisitos da NBR 15.575 e de outras normas específicas que o item deve atender. O setor de engenharia realizou negociações com os fornecedores para reduzir o aumento do custo da obra, o que permitiu manter o preço de vendas no patamar anterior à Norma de Desempenho, sem repassar as diferenças aos clientes.

Projetos compatibilizados
Desenvolver projetos com um nível aprofundado de detalhamento e compatibilizados entre si é essencial para a aplicação da NBR 15.575, explica a engenheira Elvira Lantelme, professora e pesquisadora da Escola de Engenharia da Imed, em Passo Fundo (RS). A professora também é diretora da Capácitas, consultoria em gestão para empresas de construção civil. Na qualidade de consultora, ela vem atuando no projeto do residencial La Casa, da incorporadora e construtora Incoben, de Passo Fundo.

Lançado em agosto passado, o edifício está na fase inicial de obras, com movimentações de terra no canteiro. “Os projetos foram desenvolvidos com alto nível de detalhamento ao longo do processo de aprendizagem. Tivemos 13 versões do projeto de arquitetura até que se pudesse dizer que o empreendimento estava amadurecido para o mercado”, afirma Elvira. Em resposta a uma pesquisa pós-ocupação realizada com clientes de empreendimentos anteriores, o La Casa prevê nível mínimo de desempenho em todos os sistemas, exceto no requisito acústico do impacto entre lajes, item que deve atingir nível superior graças ao uso de manta acústica especificada para isolar até 55 decibéis de ruídos de impacto.

Segundo Elvira, o primeiro grande desafio para essa mudança foi encontrar projetistas com conhecimento sobre a norma. “Naquele primeiro momento não conseguimos esses profissionais aqui. Os projetistas foram contratados em São Paulo e em outras cidades da região sul”, comenta. Um engenheiro foi destinado exclusivamente para a pesquisa de fornecedores e materiais, destaca Sandra Sebben Zornita, sócia-diretora da Incoben.

Outras normas pegam carona

O advento da NBR 15.575 mexeu também com outras normas técnicas relacionadas ao desempenho. Um exemplo é a revisão em andamento da NBR 10.821 – Esquadrias Externas para Edificações, que abrange a cadeia produtiva de esquadrias de alumínio, PVC e aço. Se o texto for aprovado como está, a norma deixará de ser prescritiva e passará a avaliar o desempenho de produtos e componentes. Assim, as diretrizes da NBR 10.821 deixarão de focar o material ou a matéria prima dos sistemas de esquadrias e acessórios para dar lugar aos resultados mínimos de desempenho obrigatórios, a serem obtidos em testes e ensaios realizados em laboratórios acreditados pelo Inmetro. A revisão prevê dois novos itens para a norma: Requisitos Adicionais de Desempenho, com a inserção de desempenho térmico e acústico, e Instalação e Manutenção de Esquadrias.

Base de trabalho para a área de suprimentos, a pesquisa deu origem a um memorial descritivo abrangente, que justifica características do projeto em função de condições urbanísticas e leis, descreve os sistemas e materiais a serem utilizados, aponta o desempenho de cada sistema previsto e relaciona as normas técnicas no projeto. O material é complementado por dois anexos, um para projetos, trazendo registros de ART, CAU e Crea dos profissionais envolvidos, e outro para os revestimentos, detalhando a especificação, o desempenho e a durabilidade de cada um. A empresa também investiu no Caderno do Corretor, manual ilustrado com as soluções adotadas em cada requisito da norma.

Muitos dos parâmetros exigidos pela norma foram previamente testados em um empreendimento comercial da empresa, o Centro Executivo Presidente Vargas, também em Passo Fundo. “Dessa maneira, a NBR 15.575 acabou sendo incorporada aos procedimentos de projeto da empresa e agora também está presente em edificações de outras tipologias”, destaca Elvira.

Queen Perdizes, edifício da Arquiplan em São Paulo. No detalhe, janela com vidro laminado de 6 mm a fim de melhorar o conforto acústico

Mais simples do que parece
As obras em andamento da construtora Arquiplan, de São Paulo, foram protocoladas antes que a norma 15.575 entrasse em vigor. Embora ainda não exista um edifício de referência, a norma vem pautando o futuro da empresa e o trabalho da equipe de engenheiros e arquitetos, que já recebeu treinamento e desenvolve seus novos projetos visando alcançar níveis de desempenho que variam conforme o público de cada empreendimento – o primeiro deve ser lançado no começo de 2017. “Temos a ISO 9000 e já cumpríamos todas as normas, por isso não houve grande impacto em nossa rotina. A equipe técnica já percebeu que atender à Norma de Desempenho não é tão complicado assim”, destaca Guilherme Bertoni, diretor de Engenharia da Arquiplan.

Em alguns pontos, como na alvenaria de vedação, a construtora já alcança o nível superior de desempenho sem a necessidade de mudar o projeto ou os procedimentos da obra. “Sempre contratamos um consultor de fachadas para garantir um bom projeto”, explica Bertoni. No item esquadrias, dependendo da posição da fachada e do nível de ruídos, a empresa está trocando os vidros comuns pelos laminados. Em alguns casos, a substituição ocorrerá apenas nos dormitórios, a fim de garantir o desempenho acústico exigido. “A diferença de custo entre o vidro comum e o laminado não é tão impactante. Somente a janela totalmente acústica, a ser usada nos empreendimentos de desempenho superior, é que vai ter custo mais elevado”, compara.

A estimativa da Arquiplan é que as obras realizadas em pleno acordo com a norma tenham um aumento de custo na faixa entre 2% e 3%. As principais mudanças nas obras estão relacionadas ao atendimento dos requisitos acústicos e incluem o isolamento do sistema hidrossanitário e a aplicação de manta entre lajes nos empreendimentos de padrão superior.

LEIA MAIS

Publicações diversas sobre a NBR 15.575:2013
Análise dos Critérios de Atendimento à Norma de Desempenho ABNT NBR 15.575 (CBIC, 2016) – http://cbic.org.br/ pagina/publicacoes-comat
Dúvidas sobre a Norma de Desempenho (CBIC) – http://www. sinduscondf.org.br/portal/curso/256/ divulgacao-voce-ja-conhece-essaspublicacoes
Manual Desempenho: Sistemas de alvenaria com blocos cerâmicos Pauluzzi – http://www.pauluzzi.com. br/nbr-15575-pdf-download.php
Ministério das Cidades – Desempenho Técnico para Habitação de Interesse Social – http://app.cidades.gov.br/catalogo/
Curso ABNT – http://www.abntcatalogo.com.br/curs.aspx?ID=157
Guia para Arquitetos na Aplicação da Norma de Desempenho – http:// www.caubr.gov.br/wp-content/ uploads/2015/09/2_guia_normas_ final.pdf

Por Nanci Corbioli

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