Especialista em modelagem da informação na construção fala sobre o uso do BIM no Brasil

WILTON SILVA CATELANI

Engenheiro civil formado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em 1986, atualmente é coordenador da Comissão de Estudos (CE-134) da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), responsável pelo desenvolvimento da primeira norma BIM brasileira, a NBR 15.965, que consiste num Sistema de Classificação da Informação para a Construção. Atua ainda como consultor BIM da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Possui 29 anos de experiência profissional. Concluiu MBA pela Fundação Dom Cabral (2004) e atuou como consultor independente em Engenharia de Custos. Foi standards & development engineer da Shell (1995-2006), resources manager da Accenture (2008-2009) e gerente de softwares da PINI (2010- 2012). Trabalhou como gerente de Desenvolvimento de Negócios na Autodesk do Brasil e como consultor contratado pela Unesco (2013).

Para quem só ouviu falar, mas nunca viu como funciona o Building Information Modeling (BIM), ou Modelagem da Informação na Construção, em português, o lançamento em agosto da coletânea de cinco e-books “Implantação BIM para Construtoras e Incorporadoras” é a chance de mergulhar no mundo virtual e tridimensional proposto pela ferramenta de modelagem.

Patrocinada pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), a coletânea foi escrita pelo consultor Wilton Catelani, que tem descrito uma trajetória de devoção ao tema, inclusive como coordenador da comissão ABNT da primeira norma brasileira do BIM.

O guia aborda os principais aspectos do BIM e mostra-se neutro em relação às tecnologias disponíveis. Segundo Catelani, o trabalho apresenta uma grande novidade ao publicar um quadro com todos os softwares oferecidos no Brasil separados por funcionalidades, dando uma visão comparativa das soluções possíveis ao longo de todo o ciclo de vida da construção. Os volumes podem ser baixados em: http://cbic.org.br/bim/.

Qual é a aplicabilidade do BIM e quais são as novidades nessa área?
O BIM é uma tecnologia baseada em objetos virtuais tridimensionais que correspondem aos componentes de uma edificação. Por definição, é aplicável a todas as etapas do ciclo de vida de um empreendimento, desde a ideia, passando pela viabilidade, projeto, execução e gestão do prédio pronto. Mas a ideia de BIM não é nova. Com outros nomes, já existiam soluções e tecnologias similares usadas em outras indústrias, como a automobilística e a aeronáutica, onde a escala de repetição de projeto faz muito sentido, ou então nas empresas offshore, cuja complexidade logística é muito grande. O que é novo é o acesso da construção civil à modelagem da informação. Isto foi possível graças ao barateamento do hardware e dos softwares.

A tridimensionalidade é o princípio básico do BIM?
É mais do que isso. O BIM é um conjunto de processos e novas ferramentas e políticas de trabalho. Nem tudo que é 3D é BIM, mas se for BIM será 3D. Além da representação geométrica, os objetos, genéricos ou específicos, contêm outras camadas de informação, podendo ser mais aprofundados ou não no nível de dados embarcados. Não é BIM se o objeto tiver, como no CAD, só a geometria, sem esta possibilidade de incorporar camadas. Trata-se de uma grande mudança para a construção. As pessoas acham que já entenderam, mas isso não é muito fácil.

Pode explicar melhor?
Os objetos BIM são inteligentes e paramétricos. Não é preciso modelar um objeto virtual para cada tamanho e capacidade reais, o que facilita a formação de famílias de objetos e de bibliote bibliotecas virtuais. Basta fazer um único objeto e programar nele as várias dimensões e capacidades dos equipamentos disponíveis no mercado para promover sua parametrização. O conceito de objeto inteligente pode ser comparado ao de uma pessoa que se conhece, sabe quem é, em que ambiente se encontra e com quem se relaciona, e consegue se adaptar, reagir a mudanças. Esta é uma grande potencialidade do BIM. Uma janela, por exemplo, não flutua no ar, precisa sempre de uma parede. O objeto em BIM sabe que é janela e que está inserida em uma parede; sabe que a parede tem, por exemplo, 15 cm de espessura. Se o usuário muda essa medida, o elemento janela percebe que houve alteração e ajusta apenas as suas partes necessárias para manter a coerência construtiva do sistema. Se o objeto BIM for do tipo específico, funciona como um dublê da janela real e suas dimensões serão limitadas, podendo incluir a inteligência de detectar que não há um produto real correspondente possível de atender àquela adaptação do alargamento da parede. Caso o objeto virtual seja genérico, não terá essas limitações e é mais simples. Ou seja, o nível de aprofundamento dessas potencialidades depende de como esses elementos são criados, do quanto o usuário embarca de programação neles.

Num mundo ideal, versões diferentes de bibliotecas deveriam ser desenvolvidas. Mas isso não é feito, por desconhecimento. Temos aí um aprendizado que ainda não aconteceu no Brasil

Qual a função dos objetos genéricos, então?
A riqueza desses objetos é terem informações nativas, ou seja, que foram incorporadas ao elemento no momento de sua criação, e a possibilidade de que outros usuários incluam mais camadas de informação ao componente virtual. Antes de comprado, um ar- -condicionado modelado é genérico. Tem a geometria de um equipamento desse tipo, mas suas dimensões não são exatas e não carrega dados sobre sua capacidade e voltagem, por exemplo. Depois de adquirido, essas e outras camadas de informação podem ser embarcadas no objeto, como as posições das entradas e saídas de tubulação e de cabos, fundamentais para o projeto de condicionamento de ar, e marca, modelo e número de série, que serão usados na gestão de facilities.

Em qual nível são desenvolvidas hoje as bibliotecas BIM no Brasil? Elas embarcam este detalhamento profundo nos objetos?
Os softwares de desenvolvimento de projetos autorais (arquitetura, estruturas e instalações) já vêm com bibliotecas internas de objetos genéricos. Não estão no nível de especificar o produto de determinado fabricante. Em geral, estas bibliotecas já são muito espertas e vêm com muita parametrização, muita inteligência embarcada. Fora do Brasil, este universo é muito rico e já se tem ótimas bibliotecas. No Brasil, o cenário ainda é incipiente. Somente grandes empresas, como Deca, Docol e Tigre, oferecem famílias de objetos BIM correspondentes aos seus produtos. E, mesmo estas bibliotecas pioneiras não têm um alto nível de sofisticação e inteligência. Ao contrário, mostram até algumas inadequações quando criam a biblioteca pensando em um só cliente (no caso o arquiteto), para quem cor e brilho do objeto são importantes. Então, os objetos dessas bibliotecas têm um nível de renderização e acabamento muito elevado, só que esse mesmo elemento interessa para o projetista de hidráulica, que vai dimensionar as instalações. Para ele, cor e brilho não só não importam como são um problema, porque o arquivo fica pesado e atrapalha o desempenho do software que ele usa.

Qual a solução ideal?
Num mundo ideal, versões diferentes de bibliotecas deveriam ser desenvolvidas. Mas isso não é feito, por desconhecimento. Temos aí um aprendizado que ainda não aconteceu no Brasil. Estamos tateando. Sou coordenador da norma CE-134 e temos há mais de dois anos um grupo desenhado para criar as referências técnicas para o mercado desenvolver objetos. Só que este grupo, mesmo tendo gerado muito trabalho, não publicou nada ainda.

O que é preciso fazer para agilizar o desenvolvimento das bibliotecas?
O que falta é informação. Existem iniciativas, mas os trabalhos ficaram pelo meio. Os Ministérios do Desenvolvimento e da Ciência e Tecnologia provocaram um projeto para desenvolver famílias de objetos BIM e criar um portal público para divulgar o material. As referências todas para desenvolver objetos foram mapeadas, para ensinar o mercado como fazer. Mas o portal não foi criado ainda. As únicas ações disponíveis ficaram mesmo nas mãos das empresas. Muitos fabricantes têm ido à ABNT sedentos de informação. Mas estamos parados no meio do caminho. Temos muita coisa pronta, só que não conseguimos entregar!

Neste momento, o mercado vive de iniciativas isoladas…
São isoladas, mas importantes. Quando uma grande empresa testa o BIM em projetos abre os olhos do mercado. O fundamental, a partir do momento em que se decide trabalhar em BIM, é saber o que se está fazendo e também como aproveitar depois o conhecimento acumulado. Por isso o processo precisa incorporar as próprias equipes e não apenas os projetistas terceirizados, para que todos aprendam internamente. Se não, o conhecimento fica na cadeia de fornecedores, não na construtora. Um entrave a ser resolvido é que muitas informações importantes para que o BIM realmente entregue valor estão na cabeça de um profissional responsável pela execução atolado de coisas para fazer em campo.

Há um entrave a ser resolvido: muitas informações importantes para que o BIM entregue valor estão na cabeça de um profissional atolado de coisas para fazer em campo

A interoperabilidade dos softwares ainda é um sonho?
Não. Dependendo do que se quer fazer, tem muita coisa já bem resolvida. No planejamento é quando se deve definir quais softwares serão necessários, quais deles conversam entre si. Quando a empresa sabe antes, procura logo uma solução (plug in ou aplicativo) para possíveis dificuldades. Isso também ajuda a não limitar o número de fornecedores que trabalhem com diferentes ferramentas. Existem maneiras de enfrentar isso, mas é necessário testar tudo antes.

Qual seria o maior benefício do BIM para a construtora?
Óbvio que ela ganha muito com projetos feitos em BIM, mas a ferramenta é ampla demais. Onde está o maior benefício é na gestão da obra, uma parte importantíssima de todo o processo. Mas também há aí uma lição a ser entendida. As pessoas dizem que as informações da execução já estão no modelo do projeto. Não! Deve haver versões diferentes de modelos, dependendo de sua finalidade.

Como assim?
As pessoas não entendem que o modelo de execução é necessariamente diferente do de projeto. Modelos de projeto, gestão da obra e gestão do empreendimento são muito distintos. Evidente que há interligações e que um deriva do outro, mas são bem diferentes. Em um modelo de projeto, por exemplo, a fachada inteira pode ser uma coisa só. Já para quem vai construir, o modelo tem de ser quebrado detalhadamente nas fases de execução, nos andares, de acordo com a sequência construtiva. No modelo de gestão do prédio, pode-se limpar um monte de informação, porque só algumas interessam. No entanto, outras devem ser incluídas, como os planos de manutenção preventiva. Há aí um retrabalho, um ajuste.

Hoje já se fala de 5D, 6D. O que significa isso?
É só um jargão do mercado. Os acadêmicos questionam muito isso. Fala- -se muito em 4D, que é tempo, 5D, que significa orçamento, e até 6D, que se refere à gestão do edifício. Mas o termo é impreciso. Porque, no fundo, o olho humano só enxerga mesmo o 3D.

Como o BIM vem sendo utilizado no Brasil, do ponto de vista de organização e aprofundamento do trabalho?
Tem de tudo. Dou como exemplo uma construtora que implantou BIM em São Paulo começando de um jeito bem simples: comprou um software e contratou um especialista para fazer modelagem interna de execução da obra. O projeto executivo já tinha sido feito em 2D. É um retrabalho, não é a coisa mais inteligente do mundo, mas o investimento foi muito baixo. Brinco que a empresa não queria fazer BIM naquele momento, mas parece estar fazendo. Só que a coisa ganhou corpo, porque o BIM fotografa bem. Quando ela chamava o cliente e mostrava a modelagem, ele se encantava e dizia querer mais daquilo. Hoje, a construtora faz muita coisa bacana com a tecnologia. Aquele operador de software virou o gerente BIM da empresa, porque começou a ter necessidade de entender como a empresa atuava, pois precisava disso para fazer o modelo de construção. Ou seja, foi incorporando a cultura e os métodos construtivos da empresa ao modelo de execução. Aquele detalhe informal e difuso, que só está na cabeça do mestre de obras ou de um engenheiro mais experiente, acabou sendo documentado. E olha que ouvi muita besteira de gente dizendo não querer o BIM porque todo conhecimento ficaria concentrado nas mãos de uma pessoa só.

Esta é a maior resistência?
O orçamentista relutou muito, obrigando que a extração de quantidades originada no modelo batesse as vírgulas da mesma forma que ele já fazia. Ou seja, para que o BIM seja bom para a construtora, é preciso documentar o conhecimento que está lá dentro, seja de processo de construção, seja de orçamentação ou dos subprocessos. Nesta construtora, apesar de tudo isso, pensava-se ainda que o pessoal da obra seria resistente ao BIM no canteiro. Ledo engano. A recepção na obra foi assustadoramente positiva. O fato é que o projeto é um exercício de documentação e comunicação muito intenso, feito em um momento por uns para ser executado por outros em outro momento. A hora que isso chegou à obra, os trabalhadores mais simples adoraram, porque eram carentes de informações e tinham de se virar para construir com plantas horríveis.

Nossos engenheiros estão preparados para a mudança que o BIM significa?
O que pode ajudá-los nesta mudança? A graduação está ruim. Não tem grandes iniciativas nas universidades. O professor ganha mal e não está motivado a se qualificar, a investir em algo que não lhe trará benefício financeiro, embora haja muito interesse dos alunos e bons cursos de pós-graduação. Não estamos preparados e não vejo ação alguma alguma para romper barreiras. Por isso a importância desta coletânea da CBIC.

Pensava-se que o pessoal da obra seria resistente ao BIM no canteiro. Ledo engano. A recepção na obra foi assustadoramente positiva

Qual a contribuição desta coletânea?
Temos outros guias no mercado, mas nenhum é tão abrangente. Muitos dizem que a tecnologia é muito complexa, mas a construção é ainda mais. Só para especificar um parafuso é preciso ver três normas técnicas, e você nem pôs a mão no parafuso ainda… A construção implica muitas informações, muitas pessoas envolvidas, com interesses e capacidades diferentes e muitos pontos de contato. O BIM tem abordagem holística e a coleção fala sobre isso. Da ideia original da edificação e ao longo de sua vida útil, o BIM olha para tudo utilizando o trabalho colaborativo e um sistema de classificação da informação. Só depois decide de que maneira se dividem as coisas. Ou seja, num mundo ideal, o esforço realizado num determinado momento por um poderá ser aproveitado por outro, em um outro momento. É aí que está a beleza da coisa.

Esta visão é inovadora…
A dinâmica que o BIM propõe, ao contrário de assustar, pode despertar as pessoas para o fato de que, se hoje uma empresa só faz determinada tarefa, ela pode passar a oferecer outras, caso se reorganize. Penso que oferecer conteúdo de qualidade em português ajuda a remover estas barreiras de entendimento. A coletânea é uma tentativa de contribuir com isso. Mas é claro que quem quer mesmo se qualificar tem que correr atrás, e isso pode ser feito sozinho, por esforço próprio. Infelizmente, o brasileiro é muito infantil nesta coisa de educação. Ele quer que alguém pegue no colo, lhe dê mamadeirinha. O mundo não está assim mais, não.

A mesma coisa é com uma empresa. Ela é como um filhote, mas pode crescer e ganhar o mundo. Por que não?
A metáfora é boa. Um bebê não sai correndo uma maratona, vai aprendendo com o tempo. Os estágios do BIM também são assim, e o conhecimento é muito particular de cada empresa. O que serve para uma não vai servir totalmente para outra. Já ouvi muito empresário dizer que vai esperar para ver se o BIM realmente pega e só depois embarcar na esteira de alguém. Os processos são outros e dependem muito do que você faz, onde e para quem.

A construtora pode ainda decidir contratar o modelo fora…
Aí entram as famosas diretrizes de modelagem. Se a empresa aventureira quer a modelagem, mas não diz como quer, vai receber qualquer porcaria, que não serve para nada. A gente tem visto muito isso acontecer. É preciso entregar um caderno que defina para que a empresa quer o modelo e como ela quer que ele seja organizado, quais os sistemas e como eles devem ser classificados, por exemplo, em cores. É muito chato modelar as prumadas de água quente e fria separadas. Se a empresa não pedir isso, provavelmente o modelo não vai ter. Será apenas um balão de ensaio e a construtora não vai aprender; só terá uma má experiência.

Por que as construtoras não entendem isso?
É muito pior. Tudo tem que começar com uma capacitação de quem vai pedir o modelo. Primeiro é necessário entender o que realmente precisa. Com exceção daquelas construtoras que fazem tudo internamente, muitas não entendem que não precisam ter Revit ou Archicad, pois não vão modelar. O que elas precisam ter é a diretriz de modelagem e um software chamado model checker, para analisar se os modelos de arquitetura e estruturas estão de acordo com o que foi solicitado.

O BIM resolve tudo? 
O BIM não é bala de prata; não vai resolver tudo, mas pode ser um atalho para o Brasil, porque ele forma uma organização que o setor hoje não tem. A sustentabilidade começa a fazer uma enorme pressão sobre o setor, que vai precisar inovar. Os consumidores compram de modo diferente e estão mais exigentes: querem desempenho e tecnologia embarcada. A forma de produzir mudou. Hoje tem o cloud, que dá uma capacidade de armazenagem de dados que antes só uma grande empresa podia ter, e também há novas formas de financiamento que a construção sequer considera, como o crowdfunding, e equipes remotas executando tarefas complexas. É um mundo muito diferente. Mas temos uma construção civil arcaica, medieval, que ainda joga a massa, espera secar, alisa. Não vejo outro caminho que não pela inovação. E o BIM é um desses drivers. Qualquer profissional hoje precisa de muita informação para tomar boas decisões.

Mesmo neste momento de crise?
Sobretudo neste momento. Em 2008, quando veio a crise do mercado imobiliário norte-americano, foi quando o BIM mais cresceu lá. Quando a empresa tem muita atividade, não encontra tempo para rever processos, treinar gente e melhorar a eficiência. Se o empresário enxerga o amanhã, entende que é o melhor momento para se preparar e se tornar mais eficiente. Até porque o futuro será muito mais competitivo. Será mais fácil fazer esta mudança agora do que quando o mercado retomar a aceleração.

O que, então, freia o crescimento do BIM no País?
Para escrever a coletânea, fiz algumas entrevistas e uma das respostas indicava uma grande resistência dos engenheiros mais velhos e bem-sucedidos, acostumados a trabalhar da mesma forma a vida toda. O BIM é uma ameaça para eles num primeiro momento. São poucos os inovadores. A maioria vai ter de trabalhar com um geek do lado. Tem uma questão cultural forte aí.

Um bebê não sai correndo uma maratona, vai aprendendo com o tempo. Os estágios do BIM também são assim, e o conhecimento é muito particular de cada empresa

Mas não é o dono que deve impor o BIM, de cima para baixo?
O maior beneficiado, sem dúvida, é ele. Só que não vemos no Brasil o empresário entendendo isso. Especialmente na Escandinávia e em países mais maduros em BIM, existem bancos que oferecem taxas menores de financiamento se o projeto for desenvolvido em BIM, porque sabem que o risco é menor. Nos Estados Unidos, as seguradoras também consideram o BIM na hora de fechar o seguro da obra, porque sabem que a construção tem mais precisão e muito menos chance de erro e descolamento dos orçamentos. Outra coisa que a gente estuda é a maturidade BIM. Olhando para países mais maduros, percebe-se um papel intenso do governo. Cingapura é pequena, mas só usa BIM. Há dois anos, o Chile ligou para a ABNT para saber o que o Brasil já havia feito, mas nem conseguimos ajudá-los. Neste ano, o governo chileno anunciou que vai exigir BIM, ou seja, eles nos passaram de lavada.

Significa que o BIM engatinha no País?
Não há dados confiáveis sobre o uso do BIM no Brasil. Esta é mais uma lacuna que temos. Por outro lado, existem ações muito consistentes. Já há empresas brasileiras fazendo BIM direitinho, de forma completa, mas de bico calado, por considerar que é uma vantagem competitiva que não vai durar muito.

Existem então ilhas de excelência do BIM no Brasil?
Sim. Pelo menos uma empresa de projetos faz BIM de gente grande, mas prefere ficar no anonimato. Há outras, em Santa Catarina, por exemplo, que me surpreenderam, mas cuja notícia de excelência em BIM não chega por aqui. A mesma coisa acontece no Rio Grande do Sul. Em minha experiência dentro da Autodesk, tive a oportunidade de criar a BIM Leadership Tour, que levou no primeiro ano eventos de divulgação do BIM a 14 capitais. Foi um sucesso e revelou um monte de empresas que já tinham começado a trabalhar com a tecnologia fora do eixo Rio-São Paulo, até em Manaus (AM) e Recife (PE).

Para você, o BIM é abrangente demais. Qual seria o limite?
Ele é abrangente porque não é só para edificações. Serve também para infraestrutura, rodovias, cidades inteiras, offshore e outras indústrias. Onde vemos as maiores oportunidades de desenvolvimento, mas poucas soluções, especialmente no Brasil, é na fase de gestão e operação de facilities. Esta é ainda a parte mais crua. Um bom espelho é a Rede Globo, que usa há anos um software do tipo Integrated Workplace Management System (IWMS) chamado Manhattan, da Trimble. Trata-se de um integrador de todas as informações e ações de gestão do negócio. Ele integra desde o sistema SAP até o de reserva de uma van ou o de programação de manutenção dos estúdios. No Brasil, já existe um bom concorrente chamado Archibus, que faz as mesmas coisas. Olhando o ciclo de vida da construção como um todo, atualmente tem muita iniciativa no chamado meio do processo: as soluções para projeto, onde tudo começou, é onde o Brasil está mais maduro; as soluções para execução estão crescendo muito atualmente – fortes tendências são levar o BIM para a obra e adotar soluções como o laser scanning. A parte inicial, de conceituação, também conhecida como macroBIM, tem poucas soluções no País, embora já existam há muito tempo bons softwares como o DProfile. Esta fase também tem um potencial imenso e um espaço grande para crescer.

Por: Nathalia Barboza

Veja também: