Ênio Padilha, autor do “Manual do Engenheiro Recém-formado”, responde sobre formação profissional, especialização e imagem pessoal

ÊNIO PADILHA
Engenheiro eletricista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 1986 e mestre em Administração pela Univali em 2007. Foi fundador e diretor da Trifase Engenharia, empresa de projetos, consultoria e assessoria técnica, onde atuou durante 12 anos e realizou mais de 500 trabalhos em diversos Estados brasileiros. Desde 1998 é diretor da editora e produtora Oitonovetrês Produções, sediada em Balneário Camboriú (SC). Professor em cursos de pós-graduação nas disciplinas de gestão de carreira e marca pessoal e administração de escritórios de arquitetura e engenharia, atua também como palestrante, tendo ministrado mais de 180 palestras, no Brasil e em Portugal (Lisboa, Coimbra e Porto). É ainda articulista de jornais e sites, além de autor de dez livros nas áreas de marketing e negócios voltados à engenharia e arquitetura, obras que resultaram em mais de 44 mil exemplares vendidos no País.

Marketing, orientação profissional e desenvolvimento de carreira são atividades olhadas com desconfiança pelo meio técnico, compreensivelmente envolvido com os desafios tecnológicos da área. Mas o que acontece quando esses temas das “ciências humanas” se cruzam com a vida profissional do jovem engenheiro? Dito de outra forma, como o recém-formado em engenharia deve proceder para construir uma carreira sólida e ao mesmo tempo manter seu interesse pelas ciências exatas? Ênio Padilha, engenheiro, professor, consultor e palestrante, dedica-se há quase 20 anos a essa e a outras questões ligadas ao posicionamento de pessoas e marcas no mercado. Autor de quase 400 artigos publicados e uma dezena de livros na área – algumas dessas edições com apoio do sistema Crea/Confea – o professor Ênio Padilha costuma ter grande receptividade entre os profissionais e estudantes, que já consumiram mais de 44 mil exemplares de suas obras. Seu último lançamento, “Manual do Engenheiro Recém-formado”, em sua segunda edição pela Oitonovetrês Editora (2015), promete ter o mesmo sucesso. Nesta entrevista para Téchne, o autor dá dicas para a formação dos profissionais, fala das lacunas do meio acadêmico e de habilidades a serem desenvolvidas. “A gestão da própria imagem pública, que vem a ser o marketing pessoal, e a construção da sua marca pessoal são duas coisas importantíssimas, que todos os profissionais devem começar a fazer no momento em que entram na faculdade. Quem começa a se preocupar com isso somente depois de formado já está um pouco atrasado. A imagem pessoal é inseparável da imagem profissional”, afirma.

“Manual do Engenheiro Recém- Formado” foi lançado em 2015. Qual foi sua motivação para produzir esse trabalho?
É uma longa história. Em 2003 recebi um e-mail de um engenheiro recém-formado pedindo alguns conselhos para o início da sua carreira. Minha resposta acabou se tornando a “Carta a um Engenheiro Recém-formado”, um artigo com meia dúzia de recomendações que fizeram grande sucesso. Tornou-se um dos artigos mais lidos do meu site por muito tempo, além de ter sido replicado em muitos jornais e revistas em todo o País. Dez anos depois de publicada a carta, em março de 2013, tive o privilégio de ser convidado para ser paraninfo da turma de Engenharia Elétrica da UFSC,no mesmo curso e na mesma universidade onde eu me formei, em 1986. Os alunos chegaram até a mim, entre outras coisas, por terem lido a tal carta e queriam que o meu discurso tivesse aquele tom. No início de 2015, depois de ter lido o discurso, a Associação de Engenheiros e Arquitetos de Maringá, numa parceria com o Crea-PR, me convidou para apresentar uma palestra num evento de entrega dos registros profissionais aos novos engenheiros da região. A apresentação foi um sucesso e a palestra despertou a ideia de escrever um livro destinado a esses jovens profissionais. Assim, em julho de 2015 foi lançada a primeira edição do livro, totalmente adquirida pelo Crea-SC e distribuído em eventos destinados a jovens engenheiros do Estado. O sucesso da primeira edição levou ao lançamento da segunda edição já em agosto de 2015 e o livro segue cumprindo seu principal objetivo: ser uma âncora para jovens profissionais, para que eles possam se orientar e realizar com maiores acertos os primeiros passos no exercício profissional. Ou seja: aquela “carta a um engenheiro recém-formado” produziu muitos frutos.

“O controle frouxo das especializações traz dois problemas: os conselhos e as entidades de classe não ajudam a separar alhos de bugalhos e cria-se um exército de generalistas”

Você assinala que a engenharia, embora traga a especialização para o nível da graduação (diferentemente da medicina e do direito), é uma profissão desregulamentada. O que isso significa e que riscos ou problemas essa situação pode trazer ao mercado e aos próprios profissionais?
Não. A engenharia é, sim, regulamentada pelas leis federais (NE: Lei no 5.194, de 24 de dezembro de 1966). O que não é regulamentada é a especialização. A Engenharia Civil, por exemplo, é uma profissão regulamentada. No entanto, as especializações dentro da Engenharia Civil não são. Qualquer engenheiro civil pode, a qualquer tempo, intitular- se especialista em estruturas de concreto armado, mesmo que nunca tenha feito um curso de pós- -graduação na área e nem lido um único livro sobre o tema além daqueles que são estudados na graduação. Até mesmo entidades de classe de especialistas, como a Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece), não exigem de seus associados nenhuma comprovação de cursos de pós-graduação. Na Engenharia Elétrica, por exemplo, qualquer engenheiro eletricista pode se intitular especialista em instalações elétricas industriais. Não existem cursos de pós-graduação na área e tampouco os conselhos profissionais exigem isso dos engenheiros. Esse tipo de controle frouxo das especializações é uma coisa absolutamente impensável tanto na medicina quanto na odontologia, para ficar nesses dois exemplos. Eu vejo aí dois problemas: o primeiro é que os conselhos profissionais e as entidades de classe não ajudam a sociedade a separar alhos de bugalhos o que, obviamente, é ruim para o mercado. A segunda coisa preocupante é que esse sistema reduz consideravelmente a procura pelos profissionais por especialidades profissionais. Cria-se, assim, um enorme exército de generalistas.

É fato que um recém-formado não possui experiência profissional, mas é comum atribuir algum despreparo técnico a lacunas no currículo universitário. Como a universidade e os alunos podem se preparar melhor para formar os profissionais que o mercado espera?
Eu sou contra o discurso segundo o qual um engenheiro recém-formado precisa ter “experiência profissional” e domínio do conhecimento prático. Já discuti isso exaustivamente num artigo no meu site, cujo sugestivo título é “Na contramão”. Portanto, penso que as boas universidades devem esclarecer melhor os seus alunos e o mercado sobre as verdadeiras funções da formação superior: desenvolver nos seus alunos a capacidade de pensar e conectar conceitos. Os engenheiros precisam se dedicar mais ao engenho. Ao pensar antes de fazer. E não, simplesmente, ser mão de obra braçal nos canteiros de obra e nos chãos de fábrica.

“A capacidade gerencial e a habilidade de administrar processos, pessoas e finanças é um recurso residual da formação dos engenheiros. Por isso, quem gosta de Administração costuma se dar bem”

É certo que o papel do engenheiro, além do domínio técnico em sua área, é também o de administrador de pessoas, custos e processos? Essa é uma exigência funcional, profissional ou de nossa sociedade?
A capacidade gerencial e a habilidade de administrar processos, pessoas e finanças é, na verdade, um recurso residual da formação dos engenheiros. Ao desenvolver o raciocínio lógico e abstrato com os estudos de matemática, física e química, os engenheiros acabam se apropriando do conhecimento e das habilidades que são a base para a Economia e a Administração. Por isso, engenheiros que gostam da área da Administração costumam se dar muito bem, pois têm muita facilidade de lidar com os fundamentos daquela profissão.

A sociedade moderna introduz novas tecnologias, materiais e processos todos os dias. Caso, por exemplo, de materiais concebidos com nanotecnologia, recursos de realidade virtual e aumentada, modelagem de projetos (BIM), IoT (Internet das Coisas) e tantas outras novidades. Como se preparar para tudo isso?
Esse é um dos grandes desafios para o engenheiro que quer construir uma carreira bem-sucedida e sustentável: manter-se atualizado sobre o que há de novo em termos de desenvolvimento da ciência e da tecnologia. O engenheiro, qualquer que seja a sua área ou especialidade, deve ter uma sólida cultura tecnológica. Para isso ele não pode perder o fio da meada. Não deve ficar tempo sem ler livros e revistas técnicas, sem participar de congressos ou de cursos de formação continuada. Tem de se manter “em forma”.

Em seu livro, você afirma que o recém-formado tem o direito à ignorância. Fale um pouco sobre isso. Esse direito dura pouco, certo?
Ah, sim. Acho isso muito importante. As atividades profissionais dos arquitetos e engenheiros são baseadas na capacidade intelectual e nos conhecimentos adquiridos. Um profissional sem conhecimentos, especialmente os conhecimentos técnicos, terá poucas chances na disputa pelas melhores oportunidades. É natural, portanto, que as pessoas nessas atividades sintam um certo desconforto quando precisam admitir que não sabem alguma coisa. Afinal, o profissional vale pelo que sabe, pelo que conhece. Admitir a ignorância significa reduzir seu próprio valor como profissional. Não deveria ser assim, mas é. Se um engenheiro formado há dez anos diz que não sabe o que é a tecnologia BIM, ou que nunca ouviu falar de concreto protendido, por exemplo, isso não é bom para sua imagem profissional. Soa, no mínimo, como desatualização. Mas, para os estudantes e para os recém-formados, essa regra não se aplica: manifestar a sua ignorância, fazendo perguntas ou admitindo que não sabe algo, não reduz seu valor profissional. Muito pelo contrário: se um estudante faz perguntas, recorre aos professores ou a outros profissionais mais velhos, estes não olham para o estudante como um coitado, desatualizado, que não sabe das coisas e não tem futuro. Eles o veem como alguém curioso e interessado, dedicado a aprender coisas novas e com um bom futuro pela frente. Além disso, os veteranos geralmente gostam de poder ajudar com conselhos e recomendações a um jovem estudante ou profissional em início de carreira. Por isso, os estudantes e recém- -formados devem aproveitar esse curto período ao máximo. Depois de um ano e meio ou dois anos da graduação esse “direito à ignorância” deixa de ser uma realidade.

“O ensino a distância depende muito da capacidade de o aluno aprender sozinho ou com pouca ajuda. A formação em engenharia é muito dura e exige muita dedicação e disciplina”

O que é mais promissor ao engenheiro: uma formação generalista ou altamente especializada?
Nem uma coisa nem outra. Nem saber tudo sobre quase nada, nem saber quase nada sobre tudo. Minha sugestão é que o profissional se especialize numa área. Por exemplo: em vez de ser ultraespecialista em concreto protendido, recomendo que o profissional se torne especialista em estruturas de concreto. É uma área bem grande, mas não deixa de ser uma especialidade.

Qual sua avaliação sobre a efetividade do ensino a distância (EAD)? É um caminho necessário, dado que a população cresce mais que a oferta de escolas?
Eu já fui mais cético em relação ao ensino a distância. Depois que li o livro “Os tortuosos caminhos da educação brasileira”, de Cláudio de Moura Castro, fiquei menos reticente e procurei saber mais a respeito. Ainda assim, estou convencido de que o EAD depende muito da capacidade de o aluno se resolver por conta própria e aprender sozinho ou com pouca ajuda. A formação em engenharia é muito dura e exige muita dedicação e disciplina. O EAD ainda vive de exemplos isolados, de pontos fora da curva. Ainda não produz, na média, ótimos profissionais.

A dificuldade de o profissional arrumar trabalho se deve, muitas vezes, a uma formação deficiente. Quais são afinal os pilares da formação profissional?
Os fundamentos da Engenharia são a matemática (cálculo e geometria), a física (teórica e experimental), a química (principalmente a química tecnológica) e a computação (cálculo numérico e linguagem de programação). São as áreas de conhecimento que os engenheiros precisam dominar. Isso não significa que um engenheiro precisa ter, na ponta da língua, todas as soluções para problemas que demandem esses conhecimentos. Se ele for capaz de esclarecer as dúvidas ou resolver os exercícios de um estudante de segundo ano de engenharia, mesmo que para isso tenha de pegar os livros e estudar durante algumas horas, já pode considerar que domina os fundamentos da profissão. Uma vez dominados os fundamentos, ele conseguirá aprender qualquer coisa dentro da sua área de atuação e interesse.

“A gestão da própria imagem pública e a construção da marca pessoal são importantíssimas. Todos os profissionais devem começar a fazê-las assim que entram na faculdade”

Seu livro trata de imagem pública e marca pessoal. Como esses conceitos devem ser abordados pelo recém-formado?
A gestão da própria imagem pública, ou marketing pessoal, e a construção da sua marca pessoal são duas coisas importantíssimas, que todos os profissionais devem começar a fazer no momento em que entram na faculdade. Quem começa a se preocupar com isso somente depois de formado já está um pouco atrasado. A imagem pessoal é inseparável da imagem profissional. Não existe essa coisa de que “a vida pessoal não interfere nas questões profissionais”. Interfere sim. Especialmente para os prestadores de serviços. O mundo está cheio de exemplos em que o comportamento na vida pessoal acabou interferindo na reputação profissional de engenheiros, médicos, advogados etc. Quem contrata um prestador de serviços está contratando uma pessoa. Está fazendo negócios com uma pessoa. É pessoal. Ponto final. Ninguém gosta de fazer negócios com pessoas que não tenham valores pessoais positivos. Mesmo que isso não interfira nos resultados do negócio. O cuidado com a imagem pública é uma disciplina essencial para o exercício comercial das profissões liberais. É uma atividade que concorre fortemente e decisivamente para a aceitação ou não do seu produto no mercado.

O País vive um momento econômico ruim, mas em tese as oportunidades de trabalho para os engenheiros são amplas e variadas. Qual seria o caminho mais natural para o engenheiro recém-formado construir sua carreira?
Recentemente, publiquei um artigo sob o título “Crise. Não é a primeira e não será a última” (http://www. eniopadilha.com.br/artigo/8241), em que conto a minha experiência com as crises econômicas e políticas nos últimos 40 anos. Nele, digo que a melhor coisa a se fazer, em relação a uma crise econômica, é não ser atingido por ela. O problema é que isso não pode ser feito se a crise já está esmurrando a sua porta. É importante não deixar a crise chegar nem perto da sua porta. Mas isso é uma coisa que se faz, principalmente, em tempos de vacas gordas, pela adoção de estratégias de crescimento, estabilidade e segurança, formação profissional, aperfeiçoamento técnico, domínio de técnicas de administração, crescimento profissional etc. Em todas as crises econômicas, e em todos os segmentos, existem as empresas que não são atingidas pela crise, que sofrem menos o seu impacto ou que demoram mais do que outras até sofrer alguma consequência. Essas empresas são justamente aquelas que estão melhor posicionadas. As que possuem diferenciais competitivos. São aquelas que estão disputando o campeonato da primeira divisão. São as empresas e os profissionais mais criativos e com mais recursos, desenvolvidos ou cultivados durante os tempos bons, e que conseguem encontrar oportunidades na crise. Algumas vezes, elas até se beneficiam dela.

Por: Eder Santin

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