Veja os cuidados de projeto para implantar sistemas de automação

Embora esteja altamente disseminada tanto na área comercial quanto na residencial, a automação predial ainda enfrenta percalços na hora de ser colocada em prática. Não é raro encontrar no mercado empreendimentos equipados com sistemas de automação predial subaproveitados na operação.

“Esses problemas de mau uso da automação predial acontecem, sobretudo, no segmento residencial. A construtora fica com o encargo de fazer o projeto de automação, mas a sua implantação e operação são entregues à administradora do prédio. Muitas vezes, ela desconhece o funcionamento da automação e os benefícios que ela traz”, observa o engenheiro José Roberto Muratori, diretor-executivo da Associação Brasileira de Automação Residencial e Predial (Aureside).

Os sistemas de automação predial integram sistemas prediais, equipamentos e softwares, e devem ser previstos desde o início do projeto. “Para que tudo funcione harmoniosamente, esse conceito deve nascer junto com o projeto de arquitetura do prédio, com os espaços devidamente previstos para receber esses sistemas”, explica Muratori. Um empreendimento desse tipo deve contar com cabeamento estruturado, essencial para uma boa rede de comunicação. O sistema deve ser implantado por um integrador credenciado pelos fabricantes, que fará a adequada compatibilização dos projetos de automação com todas outras disciplinas.

E a solução para que um condomínio possa usufruir de todo o potencial que a automação predial pode proporcionar está na contratação de uma empresa do ramo apta a implantar o sistema. “Em geral, quando essa função fica na mão do condomínio, ele acaba se perdendo porque é mais um encargo que se perde no meio de outras decisões que precisam ser tomadas. Isso acaba adiando irremediavelmente a implementação do projeto da automação predial na íntegra”, observa Muratori.

Tela de supervisão do sistema de automação da central de água gelada do edifício-sede da Cemig em Belo Horizonte. Sistema permite monitorar o funcionamento de todos os equipamentos da central de ar-condicionado (Fonte: Projelet Ecom/Somitec Automação)

Josenei Spinelli, responsável pela área de Novas Tecnologias da Porte Engenharia, observa que a automação predial pode gerar uma economia entre 25% e 30% nos edifícios inteligentes, além de prolongar a vida útil dos equipamentos.”A automação é baseada em sensores e controladores, não há limites para a sua aplicação, desde que se defina uma lista de entradas e saídas para automatizar o que já está funcionando e energizado. Podemos automatizar desde o monitoramento de dióxido de carbono nos subsolos, por exemplo, ao controle de acesso remoto por meio da internet”, explica.

Ele lembra que entre as maiores preocupações de quem gerencia um edifício, independente do seu uso, figuram os consumos de energia e água, além do custo da manutenção, que influencia diretamente o valor do condomínio. “Geralmente são sistemas inteligentes que convergem para um software de gestão predial, também conhecido como Building Management System (BMS), que controlam e monitoram de forma integrada aquecimento, ventilação e ar-condicionado, iluminação, circuito fechado de TV (CFTV), segurança patrimonial e perimetral, controle de acesso, gerenciamento de energia, sistema de detecção e alarme de incêndio, irrigação, supervisão de bombas e muitos outros sistemas”, enumera.

Para desfrutar dos benefícios da automação, no entanto, o condomínio precisa de profissionais habilitados para operar os sistemas, local ou remotamente. “É uma medida primordial para a obtenção do resultado planejado”, aponta Spinelli.

Segundo ele, antes de fazer o projeto de automação predial, a construtora deve considerar se há normas técnicas orientando a adoção dessa solução, como deve ser o contrato com a fornecedora e o que a construtora deve fazer caso o sistema não apresente o desempenho esperado.

Muratori lembra que os fabricantes de automação não vendem seus produtos e soluções diretamente para os clientes, sejam eles usuários finais ou construtores. “Esta etapa é feita por um integrador certificado pelo fabricante, devidamente treinado para atuar desde o projeto, especificação dos equipamentos e da infraestrutura, instalação e programação. No caso dos produtos utilizados em automação, muitos ainda não têm certificação específica no Brasil, mas podem atender normas internacionalmente aceitas. Exceções são fios e cabos e soluções sem fio que na maior parte já têm padrões estabelecidos pelos órgãos reguladores ou certificadores”, diz.

Dessa forma, segundo ele, é recomendável que o contratante tenha certeza das certificações do integrador e também que o pagamento do contrato sempre tenha eventos vinculados à entrega dos produtos e à sua posterior instalação e seja feito mediante eventos finalizados.

No caso de irregularidades em relação aos equipamentos, Muratori chama a atenção para o fato de que, em sistemas de maior porte, é comum contar com um inspetor terceirizado que poderá também fazer o papel de fiscal e acompanhar o comissionamento final na entrega dos sistemas. “Esse profissional pode ter uma atuação mais efetiva do que o próprio contratante, pois este último nem sempre tem conhecimento necessário para acompanhar uma instalação passo a passo. Mas é preciso mencionar que a primeira providência do contratante consiste na elaboração de um projeto integrado de automação bem detalhado logo no início dos trabalhos. O projeto e demais documentos, tais como memoriais descritivos e cadernos de encargos, é que garantem uma contratação correta e, posteriormente, um padrão de acompanhamento e de entrega dos serviços”, esclarece.

Umas das telas do software de supervisão do shopping Praça Nova Araçatuba em que se monitora, controla ou programa o horário de funcionamento dos diversos circuitos de iluminação (Fonte: Jugend Engenharia/Somitec Automação)

Dicas para elaboração de um projeto de automação predial

– Contratar projetista com experiência e conhecimento no assunto
– Definir orçamento para fazer o projeto com filosofias compatíveis com o investimento previsto
– Definir claramente as premissas de projeto
– Utilizar equipamentos que tenham suporte técnico acessível
– Definir áreas técnicas com dimensões adequadas
– Utilizar tecnologias abertas para viabilizar possíveis expansões ou necessidade de trocas futuras de equipamentos
– Definir as formas de interface e operação conforme o perfil do usuário final
– Contratar integradora com know-how em instalações similares
– Sempre estar atento às inovações tecnológicas
– Avaliar constantemente a compatibilidade do projeto com as demais disciplinas

VEJA ALGUNS SISTEMAS QUE PODEM SER INTEGRADOS PELO SISTEMA DE AUTOMAÇÃO

Iluminação integrada

Em março de 2012, a JVP elaborou o projeto de reforma do sistema de iluminação da Câmara Municipal de Belo Horizonte, com área de cerca de 13,6 mil m². A automação da iluminação dos corredores, gabinetes, áreas administrativas, área externa, fachadas e áreas comuns empregou o protocolo Digital Addressable Lighting Interface (Dali) de comunicação. O sistema possibilita a dimerização, a programação horária e a supervisão de funcionamento de reatores e lâmpadas. O controle de iluminação dos corredores é feito por sensor de presença interligado ao sistema de automação. Nos gabinetes e áreas administrativas, utilizaram-se interruptores sem fio e sem bateria, de forma a facilitar as futuras mudanças de layout. Nas fachadas adotou-se sistema RGB para permitir a variação de cores decorativas e temas comemorativos.

Câmara Municipal de Belo Horizonte
Local: Belo Horizonte
Projeto de automação: JVP Engenharia (Carla de Paula Amaral Macedo e Nádia Corrêa Portes)

Por Rosa Simanski (colaborou: Renato Faria)

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