Construtoras detalham planejamento de obra para execução de serviços em canteiros apertados

As obras retratadas nessa reportagem têm em comum o fato de se desenvolverem em canteiros pequenos com entorno bastante adensado. Realidade essa que, na opinião do professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e diretor da Produtime, Ubiraci Espinelli Lemes de Souza, irá se repetir cada vez mais. “Na medida em que urbanização é um fenômeno muito forte no Brasil, trabalhar com terrenos menores é uma tendência”, aposta. Afinal, o custo de levar a infraestrutura para cada vez mais longe limita a busca por áreas mais baratas e maiores, que estão, inevitavelmente, mais longe dos centros urbanos. “A melhoria da mobilidade também induz a construir próximo a estações de transporte rápido, normalmente áreas já adensadas”, pontua.

Souza observa, ainda, que no caso da construção civil o produto imobiliário ocupa praticamente a mesma área da fábrica e que as áreas para estocagem de materiais, processamentos e vivência são proporcionais à área construída. Ou seja, quanto maior o empreendimento, maior a área demandada para os processos produtivos. Sendo que não é raro haver, nos centros urbanos, empreendimentos que constroem 10 m² para cada metro quadrado de terreno, a demanda por espaços é bastante acirrada. “Isso se agrava quando a velocidade de construção é alta, levando a uma concentração adicional de insumos num mesmo período de tempo”, lembra.

Isso porque, conforme comenta Sergio Fernando Domingues, diretor técnico da Tarjab, existe uma correlação entre o prazo da obra e o canteiro. Assim, diz ele, se o prazo da obra for extenso, diminuindo os serviços simultâneos, haverá menos material estocado simultaneamente e mesmo um canteiro pequeno poderia atender ao fluxo de serviços e materiais. “A expressão ‘apertado’, de certo modo, é subjetiva, dependendo das circunstâncias e parâmetros da obra e do sistema construtivo atrelado ao cronograma da obra”, complementa.

Acesso inadequado dos caminhões pode interferir diretamente na produtividade da obra

Outra variável levantada por Domingues diz respeito às características do entorno da obra. Para ele, além do espaço físico do terreno, deve se dar atenção ao tipo de via (local, arterial, expressa), topografia (plana ou ladeira), além da infraestrutura, que influencia diretamente o acesso e a logística. As entregas, por exemplo, podem ser diretamente impactadas no caso de haver trânsito intenso na região, incluindo a necessidade de autorização especial dos órgãos competentes para o tráfego de veículos grandes. “A vizinhança tem forte potencial de impacto na logística”, assegura Domingues.

Planejamento abrangente
Para Alexandre Couso, diretor da Edalco Construtora, o tamanho considerado ideal é aquele em que os recuos da edificação com relação às divisas sejam suficientes para abrigar um canteiro definitivo, evitando mobilizações durante a obra. “Isso é identificado por meio de análise prévia dos projetos e com base na estratégia do planejamento da obra”, afirma.

Obras sem recuo exigem galeria de proteção das calçadas e tela envolvendo a fachada

Foi o que aconteceu na obra do SP Next Home, empreendimento da Edalco no Centro da cidade de São Paulo. De acordo com ele, a identificação das restrições de espaço se deu na fase de planejamento da obra. Ele explica que a construtora possui uma rotina de planejamento que envolve, além do cronograma de execução da obra, o estudo prévio de interferências e impactos do canteiro de obra com as projeções da edificação, visando à otimização da logística da obra em todas as etapas construtivas.

É nessa fase que a construtora pode verificar, por exemplo, a quantidade de acessos ao canteiro. “Se houver apenas uma rua de acesso e a frente for estreita, não importa o tamanho do terreno, haverá um funil”, atesta Domingues. Com mais acessos, acredita, a logística de transporte horizontal fica facilitada e a dinâmica se torna mais simples.

Por tais motivos, planejamento é o foco principal do empreendimento que a Tarjab tem na rua Florêncio de Abreu, no Centro da cidade de São Paulo. De acordo com Domingues, o planejamento começou seis meses antes do início das obras, com uma equipe, denominada Engenharia de Valor, voltada a entender o comportamento da microrregião onde se insere o empreendimento. “Temos que pensar em absolutamente tudo, nas pessoas, nos vizinhos, no trânsito, no comportamento dos pedestres”, revela o engenheiro.

Os dados levantados pela equipe têm influenciado diretamente a execução da obra, diz. “Se fosse uma solução meramente técnica, a solução seria uma, mas devido à restrição de espaço e ao entorno, tomamos outras decisões de projeto.”

Para Souza, “a melhor organização do processo de produção é fundamental”, permitindo, por exemplo, conceber uma logística em que os materiais possam ser levados diretamente para o local de uso, sem a necessidade de estoques ao longo do caminho entre a entrada e a frente de serviço.

O professor da Poli afirma, ainda, que para vencer o problema da falta de espaço vários caminhos podem ser estudados. É possível, cita, prever uma contratação de insumos baseada em entregas mais frequentes, mas com menores quantidades por vez. Além disso, o uso de materiais pré-processados, como argamassas industrializadas, e o investimento em industrialização tendem a reduzir o número de pessoas num canteiro. Outro recurso observado por ele é a mecanização visando à eficiência na movimentação de materiais e pessoas.

Para Domingues, o ideal é adotar o sistema just in time baseado em planejamento prévio, com simulação e avaliação de diversos cenários a fim de obter dados que permitam tomar a decisão mais acertada. “Qualquer tomada de decisão que fique a cargo da produção no momento de execução dos serviços vai prejudicar diretamente o planejamento e/ou custo da obra”, salienta.

Como, entretanto, nem sempre é possível adotar tal conceito, ele afirma que as obras acabam optando por “descargas em horários fora do expediente de trabalho, gerando mais vulnerabilidade à conferencia e recebimento, além de aumento de custos”.

Nesse sentido, Souza acredita que o planejamento prévio é o grande trunfo dos gestores de obras em geral, mas em especial as com canteiros apertados. “Um projeto de canteiro, considerando plano de ataque, logística de movimentação de materiais e layout nos vários momentos da obra é instrumento imprescindível para se ter produtividade e segurança”, ressalta.

Movimentação de materiais
Para evitar impactar o entorno quando do recebimento de materiais, Souza acredita ser importante elaborar um plano de ataque que preveja uma área para essa atividade. Tal recurso pode ser acionado, afirma ele, antecipando ou postergando as atividades na região do terreno próxima ao acesso. Assim, a região da entrada do canteiro fica desimpedida e pode ser usada para carga e descarga de materiais. Em alguns casos, lembra, uma laje é mantida escorada no aceso à obra para permitir a entrada de caminhões. “Ter equipamentos e procedimentos para descarregamento rápido é também uma boa arma para fazer frente a tais dificuldades”, pondera.

Fracionar as entregas foi a estratégia adotada na obra do SP Next Home, da Edalco. De acordo com Couso, a obra conta com programação diária de recebimento de insumos, reduzindo as quantidades e priorizando aqueles que serão imediatamente demandados. Isso, associado à distribuição quase imediata dos materiais entre os andares, evita o uso de grandes áreas para estoque, testemunha. Para tanto, internamente, os materiais são mobilizados e escoados entre os andares em paletes para agilizar o transporte vertical e horizontal.

O outro lado da moeda, revela, foi um incremento no custo de freprojeto tes, já que, devido ao trânsito intenso nas proximidades alguns caminhões retornam sem fazer a entrega programada. Além disso, a restrição à circulação dos caminhões em alguns horários exige “a manutenção de uma boa política de vizinhança para mitigar eventuais demandas”, diz. Domingues concorda e afirma que o estabelecimento de um canal de comunicação é ainda mais importante nesse tipo de obra para que se crie um vínculo de respeito mútuo em que a construtora se posiciona de forma proativa para dar segurança e assistência aos vizinhos.

Gargalo em diversas obras, o transporte vertical de materiais exige que a demanda por equipamentos, na análise de Souza, seja “estudada para se prover a quantidade mínima necessária sob o risco de, não alcançando esta condição, ter uma obra com produtividade ruim e ritmo reduzido”.

Como a eventual proximidade de outros prédios restringe o uso de gruas convencionais, alternativas começam a ser consideradas. É o caso do empreendimento da Edalco, que lançou mão do poço do elevador definitivo para a instalação de grua ascensional. A obra ainda conta com dois elevadores cremalheira – um em cada extremidade do prédio para atender ao almoxarifado e à retirada contínua de entulho da edificação. “Essas soluções para transporte vertical têm a finalidade de reduzir a concentração de mão de obra interna e permitem o escoamento eficiente dos materiais dentro da obra”, assegura Couso.

Outra prática adotada na mesma obra é o pleno atendimento aos requisitos da ISO 14.001, que prevê o armazenamento segregado e a destinação controlada de resíduos com a finalidade de manter a segurança, a preservação do meio ambiente e a organização interna do canteiro.

Fatores que influenciam o planejamento de canteiros apertados

1. Acessos ao canteiro
2. Área de circulação interna
3. Disponibilidade de equipamentos para transporte vertical
4. Sistemas construtivos adotados
5. Trânsito na região
6. Legislação de tráfego de caminhões e de ruídos noturnos
7. Disponibilidade de entrega de materiais paletizados
8. Vizinhos próximos
9. Fluxo e comportamento de pedestres
10. Espaço para centrais de produção e estoques de materiais

Adaptado ao entorno

Parte da Operação Urbana Centro, o SP Next Home, da Edalco, está localizado em um terreno com 1.600 m² que faz limite com as ruas Brigadeiro Tobias – que tem corredor exclusivo de ônibus, Washington Luís e avenida Prestes Maia. Com tráfego intenso durante todo o dia, essa região possui restrições de horário quanto à circulação de veículos pesados. Como a Prestes Maia e a Brigadeiro Tobias têm fluxo mais intenso de veículos do que a Washington Luís, os portões para pedestres e veículos são acessados por essa via.

Como a projeção da edificação possui uma área de 1.200 m², o tamanho total do canteiro, em fase inicial de obra, era de 400 m² disponíveis para locação do escritório, áreas de vivência, almoxarifado, acessos e armazenamento e controle de resíduos. Durante a execução, conforme previsto no planejamento da obra, essas áreas foram transferidas para dentro da edificação, liberando espaço para outros serviços. Para elaborar o projeto de canteiro a construtora considera informações como o plano de ataque da obra, o estudo de interferência de equipamentos e acessos, além do posicionamento otimizado do escritório e das áreas de vivência. O layout do Sistema de Gestão da Qualidade (SGI) é outra fonte de informações, explica Alexandre Couso, da Edalco Construtora. Tal documento contém a localização dos materiais armazenados, acessos e trajetos considerados importantes, ligações provisórias e itens da área de vivência.

O estudo identificou que os principais desafios enfrentados na obra seriam lidar com o corredor de ônibus, com a área disponível para armazenamento de materiais na fase de fundações, que abrangem uma grande área do terreno; a dificuldade de mobilização das máquinas de grande porte para as fundações; a restrição de horário para descarga de materiais e insumos volumosos; e a mobilização de equipamentos gerais para transporte vertical como: elevadores cremalheiras, grua, balancins e andaimes.

Mesmo depois de concluídas as fundações a área para armazenamento de materiais continua escassa. Por isso, após as entregas, que ocorrem no período noturno, é preciso que uma equipe transporte rapidamente os materiais para outras áreas, desobstruindo o canteiro e abrindo espaço para a próxima entrega noturna.

Para agilizar esse processo, os equipamentos de transporte vertical, como elevadores cremalheiras e gruas, foram locados próximos às áreas de recebimento e armazenamento. “Foram analisados os impactos mínimos que esses equipamentos deveriam causar na execução da fachada e em atividades relacionadas”, explica Couso. Assim, devido à laje da torre ter comprimento significativo, foi necessária a colocação de um elevador cremalheira em cada extremidade para atender às demandas de transporte horizontal. A grua, por sua vez, foi instalada no poço de um dos elevadores para atender às necessidades de transporte vertical de materiais e respeitar as normas com relação ao limite de alcance do raio. Ou seja, sem avançar além dos limites do terreno.

A dinâmica de recebimento e armazenamento exigiu, ainda, programação diferenciada de entrega junto aos fornecedores, com despacho de quantidades menores e mais frequentes de materiais. “A construtora faz uso da metodologia Lean Construction, que é exatamente a construção enxuta com abastecimento constante de materiais sem interromper a execução da obra”, pontua Couso. Até mesmo no caso de materiais que chegam em quantidades maiores, como cerâmicas e bancadas de granito, a programação é antecipada, com entrega em várias etapas.

SP Next Home
Construtora: Edalco
Localização: São Paulo

Logística dinâmica

Tanto quanto aspectos técnicos, os conceitos logísticos têm pautado o desenvolvimento do projeto do empreendimento Florêncio, da Construtora Tarjab, localizado na rua Florêncio de Abreu, no Centro da cidade de São Paulo. A afirmação é do diretor técnico da construtora, Sérgio Domingues, que conta, ainda, que o projeto contou com a criação do chamado Grupo de Engenharia de Valor, equipe multidisciplinar dedicada a pensar soluções para as especificidades dessa obra. Formado por profissionais técnicos da empresa e por consultorias externas, o grupo analisa e simula técnicas, métodos e processos construtivos disponíveis. Daí, identifica materiais, serviços e equipamentos que não agregam valor e podem ser substituídos por alternativas que proporcionem desempenho similar ou superior.

A logística do canteiro também é foco do Grupo para otimizar o fluxo de transportes vertical e horizontal, considerando a segurança tanto dos funcionários quanto dos vizinhos e transeuntes. Foi essa equipe que apresentou os dados necessários para, por exemplo, decidir sobre a movimentação de materiais no canteiro.

Tabela 1 – COMPARATIVO ENTRE CAMINHÕES TRUCK E VUCS

A primeira opção considerava o uso de uma grua com lança de 40 m e contralança de 12 m. A segunda opção previa uso de duas gruas basculantes com lança de 40 m e contralança de 7 m. “Optou-se por não utilizar gruas devido ao risco de o raio de giro se projetar muito além dos limites do terreno”, comenta Domingues, explicando a escolha dos elevadores cremalheira. Outro tópico de estudo são os acessos para chegada de materiais e pessoal. Os acessos de pedestres considerados são pela Vila Bueno, que faz divisa com os fundos do terreno da Tarjab, e pela própria Florêncio de Abreu, desde que seja compatível com o freprojeto de áreas de vivência. Já o acesso de veículos demanda a retirada de um poste que fica em frente à obra e enfrenta conflitos com a estrutura da edificação. Isso porque o estacionamento de três caminhões truck, com altura de 2,90 m e até 14 m de comprimento, é inviabilizado devido à existência de uma viga de transição no primeiro pavimento.

A solução passou pela divisão da torre – que é única – em duas estruturas independentes. Dessa maneira, primeiro serão executados 2/3 da estrutura e, numa segunda fase, o restante. Com isso, foi reduzida a quantidade de fôrmas, armaduras e concreto utilizados simultaneamente. Além disso, a parte frontal do canteiro será usada para recebimento de materiais na primeira fase. Outra possibilidade é planejar as entregas com Veículos Urbanos de Carga (VUCs), que têm, no máximo, 6,30 m de comprimento e não atingiriam a viga. Em paralelo, foi preciso avaliar o custo adicional do frete decorrente do fracionamento das entregas, pois a quantidade de caminhões circulando praticamente triplicaria.

Residencial Florêncio
Construtora: Tarjab
Localização: São Paulo

Engenharia logística

A localização do terreno foi o ponto de partida para algumas das principais definições referentes à construção do edifício da Forluz, em Belo Horizonte, conforme conta o gerente regional de empreendimentos da Via Engenharia, Tarcísio José Oliveira Filho. Dentre as definições pautadas por um terreno com restrição de espaço e com entorno densamente ocupado estão o tamanho dos equipamentos, a quantidade de pessoas trabalhando na obra, a interferência com os vizinhos, as instalações das concessionárias e até mesmo o sistema construtivo. “A engenharia logística entrou desde a concepção do planejamento da obra, quando desenhamos o projeto de canteiro”, diz.

A fim de otimizar a dinâmica logística de carga e descarga, optou-se por usar materiais industrializados, facilitando a movimentação dos caminhões. A obra adotou, por exemplo, paletização de grande parte dos materiais, que eram transportados por empilhadeiras até as cremalheiras. Coerente com a mecanização da obra, o sistema de monovia treliçada para movimentação horizontal e vertical dos balancins atende à restrição de espaço e também questões de prazo, custo e mão de obra.

Oliveira conta que todas as empresas fornecedoras de mão de obra e material foram reunidas para a apresentação do projeto de logística. “A negociação foi tanto comercial como de logística, garantindo que os fornecedores abraçassem o novo sistema”, lembra. Assim, para cada fornecedor de materiais, foi acordado o formato do palete para se encaixar nas cremalheiras e nos elevadores.

Para dar mais agilidade ao tráfego de caminhões, o canteiro contava com entrada e saída de caminhões, dispensando a necessidade de manobras. Foi dada prioridade à concretagem do piso do subsolo, incluindo a drenagem e a instalação de reservatórios, para permitir o tráfego de empilhadeiras.

Com pouco espaço disponível no canteiro, durante algumas fases da obra a construtora alugou um galpão próximo ao canteiro para estocagem de materiais. Conforme a necessidade, eram transportados, já paletizados, por empilhadeiras e caminhões munck.

As entregas foram definidas para evitar o acúmulo de materiais estocados, economizando o espaço escasso do canteiro. Uma vez dento do canteiro, os materiais eram de spachados para o pavimento de destino no dia anterior ao uso.

Para economizar espaço e atender ao prazo e aos custos estipulados, a obra adotou o uso de balancim em monovia treliçada para o içamento de vidros

Edifício Forluz
Construtora: Via Engenharia
Localização: Belo Horizonte

Por Bruno Loturco

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