Congresso Brasileiro de Patologia das Construções reúne profissionais para trocar experiências no combate às anomalias das obras

Muitos engenheiros ainda sentem calafrios ao ouvir a expressão patologia das construções. Mas não adianta fugir: cedo ou tarde, as anomalias vão aparecer, e será necessário enfrentar o problema de frente. Em sua segunda edição, o Congresso Brasileiro de Patologia das Construções (CBPat) 2016 reuniu em abril, na cidade de Belém, pesquisadores e profissionais para compartilhar suas experiências no estudo e no tratamento das manifestações patológicas em construções de diversos tipos.

Um dos destaques do evento deste ano foram as grandes estruturas de concreto, em especial os píeres marítimos, construídos em ambientes agressivos e submetidos a cargas e impactos de grandes navios cargueiros. “Em píeres, encontram-se problemas muito comuns em indústrias, isto é, o aumento de solicitações de serviço – decorrente dos avanços tecnológicos dos navios, cada vez maiores – desacompanhado de reforços convenientes nas estruturas”, comenta o engenheiro Antonio Carmona Filho, da Exata Engenharia. Em sua palestra durante o evento, Carmona Filho apresentou uma das obras de recuperação desse tipo de estrutura. “A face inferior da base do píer, que fica em contato direto com a água do mar, apresentava armaduras expostas e corrosão profunda, com trechos totalmente deteriorados”, explica. “É uma situação difícil para trabalhar, com janelas de poucas horas disponíveis devido à variação da maré.”

Diagnóstico
O engenheiro explicou as principais etapas no processo de recuperação das estruturas: 1) primeiro, se faz o diagnóstico e a tipificação dos danos, com sua caracterização e sua gravidade, 2) em seguida, elaboram-se as metodologias de recuperação para cada tipo de dano, 3) nessa fase, levanta-se o quantitativo de materiais e elabora-se o orçamento do serviço e 4) com a aprovação do projeto, parte-se para a efetiva execução da obra.

Patologia das grandes estruturas foi um dos temas de destaque do evento

No caso de píeres, naturalmente submetidos a ambientes de alta agressividade, o combate à corrosão nas armaduras é feito com auxílio de metais de sacrifício – elementos que corroem no lugar das armaduras, conforme explica Carmona Filho. “Quanto maiores, ou em maior quantidade, maior a durabilidade obtida. Esses elementos são dimensionados conforme as necessidades do cliente relativas à vida útil”, explica.

Ele defende que as normas técnicas tratem de maneira mais específica estruturas de concreto como os píeres marítimos. “A gente não encontra nada consistente sobre aspectos de obras marinhas [nas normas técnicas brasileiras]. Hoje obras portuárias estão crescendo muito, inclusive fluviais. A vida útil é muito baixa, e as obras são submetidas a agressividade muito alta”, explica Carmona Filho. “E, infelizmente, as estacas são feitas como estacas de edifícios. Não há nenhuma proteção adicional”, explica o engenheiro. “Além disso, é muito difícil fazer a inspeção – é preciso utilizar barcos, usar equipamentos de mergulho etc. Acho que deveria haver uma sistemática de inspeções obrigatória para esse tipo de estrutura.”

Resistência do concreto
Em sua palestra, Paulo Roberto do Lago Helene, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e diretor da PhD Engenharia, comentou as armadilhas na avaliação da conformidade do concreto – especialmente a relacionada à resistência à compressão -, que geram muita confusão nas obras brasileiras.

Conformidade e resistência do concreto também foi um dos temas debatidos no evento

Para o professor, é fundamental que profissionais que trabalhem com concreto entendam que a resistência do corpo de prova ensaiado em laboratório sempre será maior do que a resistência à compressão efetiva do concreto da estrutura. “O adensamento e a cura na obra e no corpo de prova nunca são iguais”, explica. Nem a resistência de testemunhos extraídos da própria estrutura terá resultados semelhantes, já que o processo naturalmente altera a composição da peça. “Eu arranco na marra um pedaço da estrutura e levo para ensaiar. Eu corto, vibro, microfissuro o corpo de prova. Isso certamente reduz a resistência da peça”, comenta. Por isso, explica, os cálculos levam em conta coeficientes de correção.

Paulo Helene comparou, ainda, os requisitos de aceitação de concreto em normas brasileiras e estrangeiras – especialmente as americanas e as europeias -, destacando que as exigências nacionais são muito mais rigorosas. Ele cita como exemplo a necessidade de moldar corpos de prova de todos os caminhões-betoneira que chegam à obra no Brasil. “Se a norma brasileira é mais rigorosa, certamente as não conformidades serão mais frequentes”, afirma Paulo Helene. Da mesma forma, ele explica que as normas americanas e europeias são mais flexíveis com resultados abaixo da resistência de projeto, dentro de certos limites.

Durante o evento, organizado pela Associação Brasileira de Patologia das Construções (Alconpat Brasil), a entidade elegeu seu novo presidente, o engenheiro Ênio Pazini Figueiredo, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Por Renato Faria

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