Planejamento especial e controle rigoroso de execução viabilizam obras rápidas, em que atrasos são intoleráveis

Obras convencionais de pequeno e médio porte normalmente são planejadas com etapas relativamente sequenciais, a fim de proporcionar uma construção mais cadenciada. No entanto, alguns projetos especiais – normalmente ligados ao varejo – precisam ser executados com agilidade, para que o próprio empreendimento seja economicamente viável. Para atender a essas demandas de mercado, muitas construtoras se especializam em uma modalidade de construção chamada fast construction, que emprega técnicas de planejamento e sistemas construtivos mais rápidos e eficientes.

“As atividades tais como estudo de viabilidade, projeto legal e licenciamento, planejamento, pré-projeto, projeto, logística e suprimento, além do gerenciamento da execução de um empreendimento ou de um lote de ações simultâneas que fazem parte de um mesmo projeto, são realizadas de forma concomitante trazendo uma grande redução no prazo final”, explica José Ricardo Pousada Tahan, superintendente de Operações da Método Fast.

De acordo com ele, essa modalidade de construção “não trata necessariamente de um sistema construtivo ou de um determinado método, e sim um conceito de gestão integrada onde se privilegia uma otimização dos processos e a compactação do ciclo de vida da implantação”.

Atualmente, o setor que mais tem demandado esse tipo de obra é o de varejo, segundo João Paulo Patricio, diretor da Hoga Empreendimentos. “Com a necessidade de retorno sobre o capital o mais rápido possível, tornou-se primordial a aceleração da construção”, diz.

São empreendimentos como lojas, franquias, supermercados, agências bancárias, restaurantes, lanchonetes e bares, entre outros. “Normalmente são aqueles empreendedores que estão com seu negócio já definido, com imóvel disponível para ser construído ou adaptado para iniciar as operações do estabelecimento”, aponta Ronaldo César Figueiredo, diretor da Fig Engenharia. “A velocidade imposta por estes processos é elevada e as redes têm necessidade de transferir de forma adequada os seus padrões arquitetônicos e identidade visual para estas novas lojas, agências e pontos de venda, com a certeza do cumprimento de seus orçamentos e prazos exíguos e do escopo contratado”, completa José Ricardo Pousada Tahan, superintendente de Operações da Método Fast.

Segundo Figueiredo, os sistemas construtivos pré-fabricados prevalecem nas decisões das obras tipo fast construction, pois já chegam prontos ao canteiro e geram produtividade na execução das construções. Dentre os mais utilizados e que possibilitam rápida instalação destacam-se o light steel framing (perfis leves de aço), o drywall e os fechamentos com placas de concreto pré-moldadas. Forros modulares de gesso, lã de vidro ou EPS também colaboram com a diminuição do tempo de execução da obra. “A instalação de piso sobre piso também é bastante utilizada”, cita, ainda, o diretor da Fig Engenharia.

As condições do local onde será construída a obra devem ser estudadas com bastante atenção, pois podem impactar no cronograma e influenciar na escolha dos sistemas construtivos a serem implantados. Essa análise prévia também ajuda a antecipar possíveis empecilhos que podem atrasar alguma atividade. “Na fase de concepção e projeto em conjunto com o planejamento da ação, é fundamental avaliar as condições locais, tais como acesso, restrições legais, logística dos materiais e capacitação das empresas, além da cultura da região”, destaca Tahan.

Fast x convencional
Os engenheiros destacam, no entanto, que apesar de os sistemas construtivos industrializados contribuírem para reduzir os prazos de construção, esse não é o único ponto que deve ser levado em consideração quando se quer levar a cabo uma obra em curto espaço de tempo. “A agilidade na construção não está única e exclusivamente na execução da obra e, sim, em todas as etapas que antecedem e sucedem este evento. O gerenciamento de um processo como este é imprescindível para o sucesso de sua implantação”, afirma o superintendente da Método Fast.

Comparativo esquemático entre o cronograma de uma obra convencional e o de uma obra de fast construction. Fonte: Método

De acordo com Tahan, comparada às práticas convencionais de construção, as principais mudanças na fast construction estão ligadas ao planejamento, à logística e ao suprimento das obras. “Nestas fases avaliam-se todas as necessidades da construção, definindo-se claramente os prazos de fornecimento, a cadeia de suprimentos e a logística de atendimento a demandas simultâneas”, explica ele.

O planejamento antecipado da sequência das atividades evita percalços durante a construção que podem atrapalhar o processo, já que recuperar o cronograma durante a execução da obra pode acarretar incremento nos custos e afetar a qualidade da construção. “Não há tempo para retrabalho, pois isto pode acarretar comprometimento do prazo”, destaca Figueiredo.

O acompanhamento próximo do andamento da obra é outro ponto fundamental para a fast construction, que deve vir lado a lado com o planejamento. Por meio desse controle é possível identificar e corrigir o mais rápido possível eventuais desvios no processo, como o atraso na entrega de um material ou na execução dos serviços. O monitoramento pode ser feito com a ajuda de programas de computador e reuniões periódicas entre as equipes, por exemplo, e ajuda a integrar todos os envolvidos no projeto – fornecedores, clientes, mão de obra, construtora -, de forma a antecipar os problemas, delimitar as responsabilidades e orquestrar a execução de cada serviço.

A interação entre todos os envolvidos na empreitada, por sinal, é outra característica que difere a fast construction das obras comuns, com cronogramas mais extensos. “Em um processo convencional, geralmente cada etapa descrita é realizada por uma empresa que não se preocupa em interagir com outra, pois não tem interesse em prejudicar o seu próprio prazo. A compressão dos processos é feita por meio do paralelismo das atividades e requer uma grande integração das empresas envolvidas”, explica o superintendente da Método Fast. “Por isso temos de ter parceiros confiáveis que, mais do que bons preços, ofereçam qualidade e comprometimento com os prazos”, frisa Patricio.

Além dos fornecedores, a mão de obra também deve estar integrada e disposta ao cumprimento dos prazos exíguos. “O maior desafio é ter a mão de obra especializada suficiente disponível para atender à demanda dos projetos, para que o prazo seja respeitado. É preciso que todos os colaboradores estejam engajados no mesmo propósito de prazo e qualidade consciente”, fala o diretor da Fig Engenharia.

Em muitos casos, é comum nessa modalidade de construção, segundo o diretor da Hoga Empreendimentos, o pagamento de prêmios para quem produz mais ou nos casos em que é preciso fazer hora-extra para sanar problemas que podem impactar no cronograma da obra – casos que acontecem com bastante frequência.

Obra orquestrada

Executar uma obra de 26 mil m² em apenas seis meses era um grande desafio, que foi superado com planejamento e controle rigorosos. Os projetos de construção já vieram prontos da Leroy Merlin, eliminando uma importante etapa do ciclo do empreendimento. Todo o planejamento foi realizado em conjunto com a gerenciadora DDN e a própria Leroy Merlin. “Fazíamos reuniões semanais com todos os envolvidos, para verificar se tudo estava no prazo, se alguém estava interferindo no trabalho do outro, para tentar diminuir os conflitos. Essa interação é muito importante quando se fala em construção rápida. Precisamos ter as pessoas harmonizadas, senão não anda”, relata João Paulo Patricio, diretor da Hoga Empreendimentos. A construtora trabalhou com uma mistura de mão de obra própria para funções-chave, como pedreiros e serventes, e alguns terceirizados. “É preciso ter um pessoal de confiança e comprometido, para incentivar os demais”, aponta. Os sistemas construtivos foram escolhidos visando ao máximo de agilidade. A fundação foi feita em hélice contínua; as paredes eram em placas pré-fabricadas de concreto e a cobertura, de telhados metálicos industrializados. “Nós executávamos os pilares e a equipe de instalação do telhado vinha na sequência, fazendo a parte deles. Por isso as reuniões de afinamento de obra são importantes. Há replanejamentos constantes, pois sempre há mudanças no meio do caminho e muita coisa, na prática, é diferente do papel. Tem que colocar todo mundo tocando na hora certa, como uma orquestra”, finaliza Patricio.

Leroy Merlin – Loja Ponte do Jaguaré
Localização:
 São Paulo
Nome da construtora: Hoga Empreendimentos
Pré-fabricados de concreto: Cassol
Telhado metálico: Medabil

Um mês
A prioridade da loja da franquia da Casa do Construtor no bairro de Campo Grande, no Rio de Janeiro, era que o local fosse inaugurado em, no máximo, 40 dias. “Após tomarem conhecimento das necessidades do projeto, os técnicos reuniram-se para definir todos os pontos que influenciariam a construção, como mão de obra, equipamentos, processos construtivos, logísticas, horários permitidos para trabalho, dentre outros”, relembra o engenheiro Ronaldo César Figueiredo, diretor da Fig Engenharia, responsável pela obra. Para atender à solicitação de rapidez do cliente, a construtora optou pela utilização de sistemas construtivos que facilitassem os trabalhos, com alguns elementos vindos já prontos para serem instalados. “Usamos forro em gesso, portas prontas, kits elétricos prontos para instalação, fachadas e portas em vidro temperado, esquadrias prontas para instalação, kits de sistemas hidráulicos, quadros elétricos pré-montados e pisos autonivelantes”, enumera Figueiredo.

Ter atividades diversas sendo executadas simultaneamente, sem que isso comprometesse a qualidade da obra, foi outro ponto que mereceu atenção das equipes. Para evitar retrabalho, foi feito um rígido gerenciamento de todas as etapas da construção, o que permitiu que a obra fosse concluída antecipadamente e em tempo recorde, de apenas 26 dias.

Casa do Construtor – Loja Campo Grande
Localização:
 Rio de Janeiro
Construtora: Fig Engenharia

Por Ana Sachs

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