Engenheiro explica como a MRV busca otimizar processos para continuar crescendo no segmento de habitação popular

JOSÉ ROBERTO PEREIRA DE LIMA
Formou-se em engenharia civil em 1973 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Entre 1971 e 1981, ocupou os cargos de estagiário, engenheiro e diretor na firma Odilon Dias Pereira Engenheira. Em 1982, ingressou na Mendes Júnior Edificações como gerente de projetos. Em 1995, mudou-se para São Paulo para ocupar o cargo de diretor da Andrade Valadares Engenharia. Cinco anos depois, ocupou o mesmo cargo na Tecco – Tecnologia e Construções Ltda. Em 2003 foi convidado para trabalhar como gestor-executivo operacional na MRV Engenharia, onde se mantém até hoje. É membro do Grupo Parede de Concreto da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) e participante da Norma Brasileira de Sistema de Parede de Concreto da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

José Roberto Pereira de Lima, gestor- executivo da regional São Paulo da MRV Engenharia, diz que a empresa está conseguindo ir “na contramão da crise”. Segundo ele, os resultados de 2015 foram positivos e a empresa está otimista com os números que virão em 2016. A MRV deve sua relativa tranquilidade sobretudo ao fato de atuar no segmento de habitação popular – setor que, segundo analistas, deve realmente sentir menos os efeitos da desaceleração da economia. Mesmo assim, salienta Lima, a empresa não pode deixar de investir em melhoria de processos e tecnologias. Aos poucos, a MRV – cujo carro-chefe é a alvenaria estrutural – amplia o uso de paredes de concreto. “É um sistema relativamente antigo que agora está sendo lapidado produtiva e profissionalmente”, explica o engenheiro. “Nele, o planejamento é fundamental em todos os níveis. Tudo deve estar muito bem sincronizado, pois o investimento é alto.” Ao comparar o canteiro de obras em 2008 e em 2016, Lima afirma que hoje o local é mais organizado e limpo, o que resulta em redução de custos e aumento de produtividade. A atual maior disponibilidade de fornecedores e materiais também pode ser aproveitada: é possível reduzir os estoques e trabalhar de maneira mais próxima à filosofia just- -in-time. Na entrevista a seguir, o engenheiro detalha essas e outras questões, como a adaptação de empreendimentos à Norma de Desempenho e o processo de seleção de fornecedores de fôrmas para paredes de concreto.

Como a MRV tem enfrentado esse momento de baixa no setor?
A MRV está há 36 anos no mercado de habitação popular e tende a crescer nas crises. Isso sempre aconteceu e não está sendo diferente hoje. Tanto que acabou de sair o balanço de 2015, e ele apresentou um resultado melhor que o de 2014. A expectativa para 2016, apesar de tudo, é superar 2015. Claro que há facilitadores: tendo algum emprego, ainda se pode contar com o dinheiro do FGTS. Outro ponto é que poucas empresas competem diretamente conosco. O fato é que, ao longo dos últimos quatro anos, temos executado quase 40 mil unidades por ano, e minha regional contribui com cerca de 10% disso. Além disso, já temos um banco de terrenos específico para esse tipo de habitação, o que nos coloca à frente de outros que possam migrar para o setor.

Pode falar um pouco sobre essa questão dos terrenos?
Existem vários pré-requisitos que tenho que analisar bem. São obras que normalmente demandam um terreno para mais de 400 unidades. A partir de 400 unidades, eu já trabalho com uma usina móvel de concreto dentro da obra – e não dependo do caminhão que vem de fora. Também preciso avaliar se é uma praça que vende bem e com que velocidade.

Em relação aos aspectos técnicos, quais as principais mudanças e adaptações da empresa nos últimos anos?
A MRV sempre trabalhou com alvenaria estrutural e, ao longo do tempo, sentimos que estava ocorrendo uma mudança de tecnologia e processos. De 2008 para cá, a MRV passou a trabalhar também com parede de concreto. Digo que é um sistema inovador, mas entre aspas, pois é um sistema relativamente antigo que agora está sendo lapidado produtiva e profissionalmente. Em 2010 já sinalizamos que poderíamos fazer um primeiro projeto com essa tecnologia, e assim fizemos. Hoje já temos a competência e estamos fazendo numa escala muito boa, sempre crescente. É um sistema em que o planejamento é fundamental em todos os níveis. Tudo deve estar muito bem sincronizado, pois o investimento é alto. A estrutura é feita de forma muito rápida: fazemos 40 apartamentos em um mês, e em 20 dias úteis temos a estrutura toda pronta. É um sistema que já estávamos trabalhando e que se encaixou bem nessa nova fase pela qual estamos passando.

[Parede de concreto] é um sistema em que o planejamento é fundamental em todos os níveis. Tudo deve estar muito bem sincronizado, pois o investimento é alto

Pode dar um exemplo de ponto crítico do planejamento nesses casos?
O ciclo tem que ser muito rápido. É necessário um período de 12 horas para curar o concreto e iniciar um novo ciclo. Se não concretarmos no fim de tarde e deixarmos apenas para a manhã seguinte, o pessoal vai ficar parado. Esse ciclo é muito importante. O material precisa estar em tempo hábil na obra para podermos dar continuidade ao processo.

A MRV pretende passar a trabalhar apenas com essa tecnologia?
Não podemos nos restringir a apenas um processo, até porque construímos no Brasil inteiro e há questões regionais. O equilíbrio é muito importante e, se eu passo a fazer só isso, corro o risco de perder mercado porque não faço mais aquilo que fazia. Além disso, a expansão das nossas obras com parede de concreto – algo em torno de 10% a 12% – é lenta. Entre 90% e 95% das nossas obras são do programa Minha Casa Minha Vida, que demandam um tempo para aprovação na Caixa Econômica Federal. Não podemos mudar da noite para o dia, pois temos que passar tudo para aprovação.

Mais algum aspecto técnico que o senhor considere essencial no atual momento?
Temos essas duas fatias – alvenaria estrutural e parede de concreto – em que temos trabalhado bem e que, agora, é só dar sequência. Outro aspecto é que, entrando na obra, nós tendemos a urbanizá-la primeiro: criar infraestrutura, até uma pavimentação no primeiro nível. Isso deixa a obra mais limpa e, portanto, mais produtiva. Hoje nós temos canteiros bem planejados e uniformizados. Outra questão é a sustentabilidade: reúso de água, coleta seletiva, políticas reversas.

A aquisição de fôrmas para as paredes de concreto exige um investimento pesado. Quais os critérios adotados por vocês para tomar essa decisão?
Primeiro buscamos conhecer o mercado. Eu fiz parte da ABCP e fizemos várias visitas. A Colômbia era muito forte nesse setor, e trouxemos muito conhecimento de lá. Eles foram nossos professores e, hoje, passados oito anos, avançamos muito, invertemos os papéis e eles se tornaram alunos. Então, conseguimos identificar quais eram os bons fornecedores e futuros bons parceiros. Sabíamos que o material teria de ser de boa qualidade – o alumínio 6060, que precisa de uma solda adequada. Procuramos fornecedores, pedimos qualificação, descobrimos qual matéria-prima usavam. Assim, identificamos três bons fornecedores: uma empresa colombiana, uma chinesa e uma brasileira. Com esse cuidado, conseguimos fôrmas com maior durabilidade, da ordem de 700 reúsos. É claro que você precisar cuidar bem dessa fôrma, limpar, tratar.

No caso de fôrmas que vêm de fabricantes estrangeiros, como proceder caso você tenha algum problema ou precise de manutenção?
Aí é o caso de considerar como um pré-requisito: comprar apenas se houver oferecimento de manutenção no Brasil. Realmente é um ponto fundamental. A empresa colombiana, por exemplo, tem um setor avançado de manutenção. A chinesa, também. Hoje, a questão da manutenção no Brasil é um pré-requisito para aquisição dessas fôrmas.

Com pouco mais de dois anos de vigência, a Norma de Desempenho ainda desafia projetistas e construtoras do segmento residencial. Como foi o processo de adaptação da MRV à norma?
Acompanhamos o desenvolvimento dessa norma desde a discussão e estamos trabalhando dentro do que ela preconiza. Já temos as primeiras obras sendo erguidas dentro da Norma de Desempenho. Como já estávamos envolvidos, conseguimos adequar nossos parceiros e projetistas e, atualmente, estamos 100% inseridos nela. Sabíamos que seria um período de mudança e que tínhamos que acompanhar para não ter um hiato muito grande que gerasse problemas.

Pode dar um exemplo de tecnologia ou material que passaram por adequação?
Esquadrias, por exemplo, que não poderiam transmitir alguma coisa em torno de 40 decibéis. Fizemos testes também com a parte de piso. Precisamos estudar alternativas. Em alguns casos, passamos a usar um carpete flutuante. É um produto sofisticado e bonito, que você até consegue incorporar como kit e vender. Se não conseguimos vender o kit, usamos um composto de emulsão na laje. Também precisamos adequar as portas. Falamos com o fornecedor, que precisou criar uma vedação com borracha. Mas claro que tudo isso encareceu a construção. Diria que algo em torno de 5%.

Em vez de a equipe precisar ir ao almoxarifado, fazer fila, pegar material, transportar, fazemos o inverso. O kit de telhas, por exemplo, tem o número de telhas que sabemos que será necessário, com parafusos, tudo certinho

Quanto ao reforço de perfil das janelas de alumínio, como foi a abordagem com os fornecedores?
Trabalhamos com parcerias em que conseguimos, por exemplo, garantia de preço por um ano para um determinado número de unidades. Claro que o fornecedor não vai disponibilizar a fábrica só para mim – mas algo em torno de 25% é possível. Então, eu tenho a garantia de que ele vai me fornecer, e ele tem a garantia de que eu vou precisar do produto. No caso de esquadrias, trabalhamos com dois grandes fornecedores: um deles já atendia parte da norma; o outro precisou se adequar à Norma de Desempenho. Fazemos testes e, se o produto não passar, não poderei comprar.

Na época em que o setor imobiliário estava aquecido, as construtoras precisavam programar com meses de antecedência a compra e a entrega de material. Hoje, já não existe mais essa necessidade. Do ponto de vista técnico, quais os desafios atuais na escolha de materiais e fornecedores?
O fornecedor e o material estão mais disponíveis. Não precisamos mudar o planejamento justamente porque temos a política de parceria. Se eu tenho um contrato de um ano, o fornecedor honrará esse contrato. Mas, talvez, eu fique mais confortável e possa ter o material mais just-in-time. Não preciso estocar muito porque sei que o fornecedor está estocando. Então, isso pode criar uma condição melhor para o canteiro e para o desembolso. Se, por exemplo, construtoras concorrem pelo material de um fornecedor, elas correm o risco de não terem esse material na hora em que precisarem. A mão de obra pode ficar parada. Com o mercado mais desaquecido, consigo fazer até uma programação semanal, pedir na sexta para receber na segunda-feira. Assim que é entregue, o material já é usado pela mão de obra. Com isso, meu canteiro fica mais limpo, com menos estoque e melhor previsão de pagamentos e fluxo de caixa.

Quais os efeitos sobre o fluxo de caixa?
Quando faço estoque, tenho um prazo de pagamento. Se posso fracionar, pago três viagens neste mês, três apenas no outro mês e assim por diante. Então, consigo flexibilizar o fluxo de caixa. O dinheiro que não uso pode ser usado em aplicações. Com as correções, terei mais dinheiro para a obra.

Vocês conseguem trabalhar com just-in-time?
É um just-in-time entre aspas, digamos assim. Trata-se de uma condição de planejamento melhor. Indústrias como a Fiat conseguiram implementar o just-in-time propriamente dito porque os fornecedores estavam ali, no entorno. É algo que depende muito da logística. Na construção civil, posso ter um fornecedor em Santa Catarina, no Paraná, enquanto minha obra está em São Paulo. Isso dificulta o just-in-time, mas tentamos nos aproximar o máximo possível desse modelo.

Comparando o canteiro de obras da MRV em 2008 e hoje: o que mais veríamos de diferente?
Hoje temos condições de ter um almoxarifado com menos material. Um ponto interessante é que estamos desenvolvendo uma sistemática de Kanban. Criamos kits para vários processos. Em vez de a equipe precisar ir ao almoxarifado, fazer fila, pegar material, transportar, fazemos o inverso. Criamos um kit que vai lá para a linha de frente. O kit de telhas, por exemplo, tem o número de telhas que sabemos que será necessário, com parafusos, tudo certinho. O desperdício é muito menor. Se uma equipe vai trabalhar no telhado na segunda-feira, na sexta ela já coloca a ficha disso num quadro e o almoxarifado cuida disso. Os funcionários acabam até usando o material com mais cuidado e responsabilidade. Isso tem dado um resultado espetacular.

E quanto aos investimentos em mão de obra?
Em 2013, assinamos um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público, que exigia que alguns serviços fossem feitos por profissionais da própria empresa. Não podemos terceirizar alvenaria, por exemplo. Meu contingente de pessoal próprio já passa de 50%. Antes 80% vinham via empreiteiro. A princípio, foi aquela loucura, mas demos a volta por cima. Começamos a oferecer cursos e alfabetização para esse pessoal, formar pessoas capacitadas. Oferecer escolas é uma exigência do nosso diretor-executivo. Hoje, não tenho saudade dos empreiteiros, pois o meu pessoal me dá as condições necessárias. O funcionário se torna fiel e, com isso, conseguimos reter mão de obra e produzir mais.

Citaria mais alguma ação pontual?
Tem muita coisa: limpeza, logística reversa, sustentabilidade, reúso de água. Conseguimos reaproveitar a água dos vestiários e de tanque para a descarga. Concentro a água de chuva nas calhas e uso para limpar o maquinário.

Vocês trabalham com reciclagem de resíduos classe A, certo?
Sim, no caso o bloco de concreto. A firma que fornece o bloco retraça o material, que é brita, areia, cimento. Eles têm interesse em pegar isso de volta. É a chamada política reversa. Enchemos a caçamba e ele leva. O material que seria desperdiçado volta para o canteiro dele. Sem isso, eu gastaria de 2,5 a 3 caçambas por unidade. Com a política reversa de sustentabilidade, consigo mudar para 0,7, menos de uma caçamba. Então, isso é também um ganho para nós.

Por Maryana Giribola (colaborou Flávia Siqueira)

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