Conheça os cuidados ao dimensionar o escoramento de estruturas de concreto

Quando o projeto de arquitetura começa a ganhar contornos finais, o projeto de estruturas moldadas in loco começa a ser desenvolvido para manter a edificação de pé. Além do projeto de armaduras e das especificações do concreto, o resultado final do trabalho também inclui os projetos executivos das fôrmas – que determinam a geometria final dos elementos estruturais – e de escoramentos – responsáveis por suportar temporariamente as cargas da edificação enquanto o concreto não adquire a resistência final.

Em muitos casos, o mesmo projetista elabora os projetos de fôrmas e de escoramentos, sendo o último uma consequência do primeiro. Assim, para a elaboração do projeto de cimbramento, é necessário, além do próprio projeto de fôrmas, informações como as pressões de concreto nas fôrmas, a consistência do concreto, a velocidade e a sequência de concretagem, cargas atuantes e sobrecargas de trabalho.

O fornecedor também pode fornecer o projeto. É importante que a construtora avalie as duas opções para chegar à decisão final. “A variedade de equipamentos é grande, e às vezes o projetista não incorpora toda a gama disponível. A fornecedora pode trazer ideias interessantes”, ressalta Sérgio Domingues, diretor técnico da Tarjab.

Cargas e dimensionamento 

As escoras devem ser alinhadas de pavimento para pavimento para que transmitam a carga sem sobrecarregar a estrutura

O primeiro passo para dimensionar os escoramentos é ter o projeto de fôrmas. Além dele, são necessárias outras informações básicas da obra, como o tipo de solo do terreno. “O escoramento é um transmissor de cargas entre o volume a ser concretado e o solo, até a cura do concreto”, conta Stylson Francisco Antunes, gestor da Associação Brasileira de Fôrmas, Escoramentos e Acesso (Abrasfe). Assim, um solo mais mole resiste menos às cargas aplicadas do que o material mais compacto.

Como o cimbramento trabalha até que o concreto adquira resistência suficiente para suportar o restante da estrutura, seu dimensionamento considera as cargas permanentes (peso próprio da edificação) e cargas variáveis, as características do concreto e a carga de vento, tudo em conformidade com a NBR 15.696:2009 Fôrmas e Escoramentos para Estruturas de Concreto – Projeto, Dimensionamento e Procedimentos Executivos.

As cargas variáveis são compostas por equipamentos, pessoas, mangueiras e vibradores, entre outros elementos usados na execução. “A NBR 15.696 recomenda o mínimo de 2 kN/m², e, normalmente, atende à maioria das obras. Não é preciso especificar uma carga individualmente, salvo seja usado algum equipamento especial”, diz Nilton Nazar, diretor do escritório Hold Engenharia e professor no Instituto Mauá de Tecnologia. A carga permanente é composta pelo peso próprio da estrutura.

Os esforços horizontais podem ser considerados como 5% do peso próprio da peça analisada, continua o projetista. E a carga de vento também tem um mínimo recomendado pela norma, no valor de 0,6 kN/m². “Em regiões específicas, deve ser feito dimensionamento conforme a carga de vento local”, ressalta. Além da NBR 15.696, também existe a NBR 6.123:1988 Forças Devido ao Vento em Edificações, lembra Antunes, da Abrasfe.

Torres metálicas podem ser usadas em conjunto com escoras para o cimbramento de estruturas mais altas

Apesar de não haver regras para o contraventamento, o gestor da Abrasfe afirma que “sempre se deve contraventar as estruturas de escoramento; são os contraventamentos que garantem a estabilidade e mantêm o conjunto trabalhando como um todo, além de ajudarem a suportar a ação dos ventos”.

Por fim, é importante que o equipamento tenha um coeficiente de segurança para garantir a estabilidade do conjunto. “Chega-se em um valor em função dos equipamentos utilizados, o controle de qualidade, os materiais utilizados e os ensaios regulares de laboratório”, diz o gestor da Abrasfe. Esses valores também estão previstos na NBR 15.696, “baseados principalmente na NBR 7.190 Projeto de Estrutura de Madeira e NBR 8.800 Projeto de Estruturas de Aço e de Estruturas Mistas de Aço e Concreto de Edifícios”, completa Nazar.

Escoramento residual
Em um ciclo construtivo de uma laje a cada sete dias, estruturas executadas com concreto convencional normal mente não suportam a carga do próprio peso logo após a desenforma. Esse papel é desempenhado pelo escoramento residual, ou remanescente, segundo orientações do projetista estrutural da obra. “É ele quem fornece o tempo de cura em função do concreto utilizado, a porcentagem de carga que deve ser transmitida para as lajes inferiores, os pontos fundamentais em que devem ser mantidos os escoramentos e durante quanto tempo”, alerta Stylson Antunes.

Um ponto que exige atenção diz respeito à montagem das escoras, que devem ser posicionadas antes de o escoramento provisório ser retirado. Segundo Sérgio Domingues, da Tarjab, um erro bastante comum nos canteiros consiste na remoção dos apoios na desenforma, com a remontagem posterior do escoramento. “Isso está completamente errado”, alerta, lembrando que esse procedimento submete a estrutura a esforços prematuros que ainda não é capaz de suportar. Por esse motivo, inclusive, o termo “reescoramento” é utilizado com ressalvas entre alguns profissionais, que preferem adotar “escoramento remanescente” a fim de não dar margem a interpretações dúbias.

A montagem de um protótipo com um vão de laje, pilar e viga para todos os carpinteiros ensina o passo a passo e as boas práticas na montagem do escoramento. O projetista mostra a importância de cada componente, e também pode ouvir sugestões de quem lida diretamente com a execução
Um nível a laser auxilia no nivelamento das fôrmas. Após a determinação dos pontos do plano, pode-se manter uma linha de náilon para conferência do nível da laje

“Executar a concretagem com as escoras remanescentes junto com o cimbramento faz com que as mesmas funcionem como pilaretes, transmitindo os esforços para o pavimento inferior diretamente. Já vi deformações em lajes nessa situação, principalmente em lajes de mais de 20 cm”, comenta Nazar.

O valor de resistência do concreto geralmente é atingido aos 28 dias. Porém, é essencial que a remoção completa do escoramento seja feita apenas depois da confirmação do resultado do rompimento do corpo de prova. “A empresa de controle tecnológico envia o relatório em dois ou três dias, isso também tem que ser computado na logística da obra. Se não forem considerados esses dias, o cálculo não estará correto para o dimensionamento do escoramento”, pontua Domingues.

Por Luciana Tamaki (colaboraram: engenheiros Tiago Maurício e Emerson Paraguassú, da Trisul)

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