Quanto ganha um engenheiro? | Téchne

Carreira

Quanto ganha um engenheiro?

Texto original de Juliana Nakamura
Edição 87 - Junho/2004
Como na maioria das atividades profissionais, o salário segue arrochado.
Situação na iniciativa privada é melhor, principalmente na região Sudeste


Os engenheiros são como impulsionadores do desenvolvimento. Afinal, é por meio da engenharia que passam os conhecimentos necessários para o aprimoramento tecnológico e o conseqüente desenvolvimento econômico e social de um País. No caso da engenharia civil, é por esses profissionais que cidades são construídas, desde pequenas moradias a edifícios, obras viárias e de saneamento. Mas qual a contrapartida que as empresas têm a oferecer a essas pessoas que se dedicam em tempo integral e ainda precisam agregar constantemente novos conhecimentos para sobreviver à competitividade de um mercado de trabalho cada vez mais agressivo?

Os dados sobre o rendimento médio praticado em cada Estado brasileiro são escassos. No entanto, é possível afirmar que, assim como em outros setores da economia, a construção civil também paga melhor em regiões economicamente mais ativas. Em Estados do Norte e do Nordeste, por exemplo, o foco das discussões ainda está sobre o cumprimento de uma lei de 1966, no 4.950-A, que garante aos profissionais da área tecnológica regidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) o Salário Mínimo Técnico, que equivale a seis vezes o valor do salário mínimo vigente para jornadas de seis horas de trabalho.

Hoje isso corresponde a R$ 1.560 mensais para jornadas de seis horas e R$ 2.340 para oito horas. Enquanto isso, os salários nos principais centros econômicos são regidos pelo mercado de forma que, em geral, empresas que podem pagar melhor investem em profissionais mais capacitados.

Metodologias de pesquisa diferentes impedem que se faça uma comparação rigorosa entre as unidades da federação. Porém, para se ter uma idéia, no Rio de Janeiro, segundo cálculos do Sinduscon-Rio, a hora trabalhada de um engenheiro júnior é de R$ 11,69 e de R$ 25,40 para o sênior. Em Santa Catarina, conta o engenheiro José de Miranda Ramos Filho, diretor do Sindicato dos Engenheiros do Estado, uma pesquisa realizada em 2000 identificou média salarial em torno de R$ 2 mil. Esse mesmo estudo mostrou ainda que, apenas 25% dos engenheiros catarinenses recebiam mais do que R$ 3 mil. Já na Grande São Paulo, de acordo com pesquisa elaborada mensalmente pelo Datafolha, a média salarial praticada para engenheiro júnior é de R$ 2.256 e R$ 7.329 para engenheiros seniores.

Pior no setor público
Além das desigualdades regionais, há diferenças também quanto ao tipo de empresa contratante. A trajetória de redução do poder de compra do salário mínimo, recém-elevado para R$ 260, fez com que a maior parte dos assalariados do setor privado passasse a ter remuneração superior ao mínimo nacional. Ao mesmo tempo, rendas de R$ 3 mil são cada vez mais escassas entre o funcionalismo público e pior, muitas vezes, Prefeituras, Estados e União remuneram seus engenheiros com salários inferiores ao mínimo profissional.

Segundo dados do Confea (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia), atualmente, 45% dos profissionais de engenharia estão no setor público, mas até 1998 esse índice era de 75%. A inversão se justifica principalmente por causa das privatizações realizadas nos últimos anos.

Porém, na opinião do presidente do Conselho Federal, Wilson Lang, se deve também à queda do prestígio do trabalho público. "Quando se vêem editais do Governo Federal que pretendem contratar engenheiros por R$ 700 para atuar em uma obra orçada em mais de R$ 2 milhões é sinal de que alguma coisa está errada", destaca. "Enquanto isso, há profissionais com ensino médio sendo contratados para atuar na Polícia Rodoviária Federal por R$ 3.100. Falta coerência", reclama.


Nesse sentido, estudo realizado pelo Confea, em 2001, mostra que são alguns municípios do interior do País, seguidos pela União, os que pior pagam. Lang acredita ser preciso sensibilizar esses setores de que um profissional formado e capacitado como um engenheiro civil estabelece um diferencial.

"O setor público precisa aumentar a capacidade de discernimento dos profissionais", diz, e aponta como principal conseqüência da deterioração dos quadros técnicos a falta de empreendedorismo, a redução da atividade industrial e a perda da competitividade global. "Não é à-toa que o Brasil vem perdendo posições no ranking das economias mundiais. Nenhum país desenvolveu-se tecnologicamente sem incentivar e valorizar a engenharia."


Flexibilização
De acordo com Maurício Colella Gomes, gerente de Remuneração e Pesquisa Salarial do Grupo Catho, pelo menos nos últimos três anos - quando a empresa passou a fazer esse tipo de análise - o salário dos engenheiros civis tem se comportado de maneira semelhante às demais categorias. "É difícil identificar um procedimento padrão das construtoras perante a questão salarial, no entanto, notamos que normalmente são mais arrojadas em remuneração variável do que no salário-base", comenta.

Da massa de dados coletados pela Catho, 26% dos entrevistados recebem, além do pagamento fixo, valores adicionais a título de renda variável, como bônus anuais e participação nos lucros.

De fato, muitas empresas têm apostado nesses instrumentos alternativos para oferecer rendimentos mais atraentes para seus funcionários. Construtoras como a Gafisa, por exemplo, contam com uma política de remuneração que prevê um salário fixo mais bonificação por resultados paga anualmente de acordo com o desempenho apresentado pela companhia, produtividade das obras e performance individual, segundo explica Selma Selmikaits, coordenadora de Recursos Humanos da construtora.

"Se pensarmos que hoje o funcionário é muito caro em virtude dos altos encargos trabalhistas, a saída para prover uma renda melhor aos engenheiros sem sobrecarregar as empresas é a remuneração flexível, que compensa o trabalhador por seus resultados, mensuráveis a partir da produtividade", afirma Valério Paz Dornelles, diretor da Tecno Logys, empresa que oferece bonificações de até 20% sobre o valor do salário fixo de acordo com o cumprimento de metas de produtividade e custo estabelecidas no início do trabalho. Metade desse adicional decorre dos resultados obtidos em cada área, como vedação, revestimento, entre outros.

Os outros 10% referem-se a resultados obtidos pela empresa. "Afinal, de nada adianta a minha divisão apresentar desempenho extraordinário se isso não é acompanhado pelos outros departamentos", revela Halysson Bobic Sala, coordenador de produção da Tecno Logys. Além de estimular a cooperação entre os diferentes setores, isso faz com que, em vez de funcionários comprometidos apenas em cumprir carga horária, se tenha profissionais focados nos resultados.


Evolução dos pisos salariais estabelecidos para engenheiros civis em convenções
coletivas em São Paulo nos últimos cinco anos. Válido para empresas de
arquitetura e engenharia consultiva
Fonte: Sinaenco


Curva salarial
Níveis hierárquicos mais elevados implicam naturalmente salários maiores. De acordo
com Maurício Colella Gomes, gerente de Remuneração e Pesquisa Salarial do Grupo
Catho, normalmente, a diferença percentual entre um nível e outro gira entre 30% e
40%. "No caso dos engenheiros civis, a diferença entre o coordenador e o
engenheiro sênior é muito pequena", destaca.




PERFIL



Leandro Galli

Idade: 27 anos
Formação: engenharia civil pela Escola de Engenharia Kennedy (Belo Horizonte), em dezembro de 2002
Trajetória: iniciou como estagiário da Construtora Tenda em janeiro de 2001, recebendo R$ 700/mês. Depois passou a engenheiro de suporte (atuação no gerenciamento de obras e na área de Qualidade). Hoje é coordenador de
novos negócios na mesma empresa
Funções: prospecção de novas oportunidades de negócios, estudos de viabilidade, entre outras atividades afins
Salário: R$ 3 mil, comissão e benefícios
Último aumento salarial: foram dois reajustes em menos de seis meses. Em dezembro de 2003, em função da transferência de setor e mudança para a filial em São Paulo, o aumento foi de 25%. Além disso, em março de 2004 recebeu outro acréscimo (20%), fruto dos resultados apresentados





Halysson Bobic Sala

Idade: 26 anos
Formação: engenharia civil pela Universidade São Judas Tadeu (São Paulo), em dezembro de 2003
Trajetória: atua há cerca de sete anos no setor. Iniciou como técnico em edificações. Há três anos trabalha na Tecno Logys, onde começou como estagiário. Atualmente é coordenador de produção
Funções: responsável pela divisão de alvenaria da empresa
Salário: de R$ 2.137 a R$ 3.200/mês
Último aumento: quando ingressou na empresa como estagiário, há três anos, recebia R$ 500 mais benefícios, como plano de saúde e férias. Depois passou por algumas promoções até assumir um cargo de coordenação, recebendo por isso uma bonificação de 25%. Além disso, a partir de critérios pré-definidos de produtividade, pode chegar a receber até R$ 3.200/mês. "Esses critérios são baseados no desempenho financeiro da obra e da empresa", conta




João Lopes de Almeida Neto

Idade: 27 anos
Formação: Universidade Federal de Alagoas, em 2000
Trajetória: dois meses antes da formatura, e após quase três anos de estágios em diversas empresas, foi convidado a uma seleção para integrar a equipe de engenharia no setor de orçamento e planejamento da Cipesa, onde trabalha até hoje. "Em abril de 2001 fui contratado por uma empresa terceirizada e após um período no setor de orçamentos fui transferido para a unidade de obras públicas como engenheiro residente para trabalhar no interior do Estado", lembra. "Após seis meses fui contratado definitivamente pela construtora"
Funções: executa e acompanha contratos da unidade de obras públicas e gerencia a produção da obra
Salário: R$ 2.500
Último aumento: de 6%, em maio de 2004





Flávio Roberto de O. Barros

Idade: 32 anos
Formação: engenharia civil pela Universidade Federal de Alagoas, em agosto de 1995
Trajetória: um ano antes de se formar, iniciou como estagiário na construtora alagoana Cipesa Engenharia. Logo após sua graduação, trabalhou em obras residenciais para um escritório de cálculo e arquitetura. "Isso durou seis meses, até que fui convidado pelo engenheiro para o qual havia estagiado na Cipesa para executar um hospital no interior de Alagoas", conta. Desde então, janeiro de 1997, está na Cipesa Engenharia
Funções: gestor de contratos do setor de obras privadas
Salário: R$ 5.200/mês
Último aumento: em junho de 2003 recebeu um aumento de R$ 1.200



Remuneração mínima

Instituída em 1966, a Lei 4.950-A determina que os engenheiros têm garantido o SMP (Salário Mínimo Profissional) igual a seis salários mínimos para uma jornada de seis horas diárias. Até 1988, essa lei estabelecia que havendo jornada superior, o valor do SMP deveria ser acrescido de 25% sobre as horas excedentes. Porém, após a promulgação da Constituição Federal, que estabeleceu o adicional de 50% para as horas extras, o adicional incidente para o cálculo do SMP estabelecido na Lei 4.950-A passou a ser também de 50%.

Quando a lei não é respeitada e o empregador paga menos do que o SMP - que hoje é de R$ 1.560, segundo a Federação Nacional dos Engenheiros, - os profissionais devem comunicar ao sindicato para que ele tente solucionar o problema administrativamente ou, caso não haja acordo, é possível entrar com uma ação judicial para exigir o cumprimento da lei. Veja abaixo como esse mínimo evoluiu ao longo dos anos.