Centro Paula Souza e Etec Santa Ifigênia | Téchne

Artigo

Especial

Centro Paula Souza e Etec Santa Ifigênia

O histórico de uso das telas metálicas industriais em fachadas e o projeto da envoltória do Centro Paula Souza

Pedro Taddei, arquiteto e coautor do projeto do Centro Paula Souza
Edição 200 - Novembro/2013

A pesquisa da linguagem e ambiência

A conformação do espaço arquitetônico resulta da evolução de diferentes rudimentos na elaboração do projeto, dentre os quais, a pesquisa da linguagem e ambiência. Os sistemas de envoltória translúcida da edificação permitem filtrar condições ambientais previstas e criar atmosferas que influenciam positivamente as atividades humanas, propiciando também acabamento tecnológico e valores estéticos, em consonância ao desenvolvimento da linguagem do edifício.

Grandes obras que utilizam texturas translúcidas para a filtragem da luz natural advêm emuma ambiência particular, utilizando recursos de linguagem, como é o caso do Instituto do Mundo Árabe, de Jean Nouvel, onde um sistema de diafragmas metálicos foto-sensíveis entre placas de vidro formam uma fachada de composição quadricular e tecnológica, assegurando uma luminosidade singular.

Os brises opacos, que são tradicionalmente utilizados como grandes aletas fixas ou móveis, ao barrar inteiramente os raios solares, acabam retendo grande parte da luminosidade natural e da visão de dentro e de fora. Por outro lado, elementos reticulados translúcidos podem garantir a filtragem da luz na dosagem necessária, impedindo o excesso da incidência direta dos raios solares sem obstruir a visão do ambiente externo, para quem está dentro, e de uma nuance dos objetos internos, para quem está fora.

As telas metálicas industriais, feitas de um reticulado de cabos e barras redondas de aço inox, têm sido utilizadas como elemento sobreposto a fachadas de vidro em diversos empreendimentos fora do Brasil, para cumprir a função de filtragem da luz e permeabilidade visual, com boa resistência a intempéries e qualidade estética.
Os primeiros estudos colocados em prática no escritório remontam a 2004, no projeto do Campus da Unesp na Barra Funda, complexo que envolve salas de aulas, laboratórios, centro de convivência, reitoria, creche e moradia. Na primeira etapa, foram construídos os dois blocos dos institutos de Física Teórica e de Artes (figuras 1 e 2), com demandas de salas de aula, laboratórios, auditórios, salas de pesquisa, bibliotecas, oficinas, ateliers, anfiteatro, teatro-escola, entre outros.

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Figura 1 - Instituto de Artes da Unesp

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Figura 2 - Instituto de Física Teórica da Unesp

O sistema de fechamento adotado para ambos foi a instalação de uma envoltória de painel metálico com miolo de poliuretano expandido e chapa metálica perfurada afastada 0,5 m das alvenarias e janelas das fachadas. Este painel afastado protege os ambientes internos, trazendo benefícios de uma fachada ventilada, ao mesmo tempo em que não impede a abertura das janelas para a ventilação natural. Para as salas de aula (figuras 3 e 4), as chapas pintadas de branco tipo "cubana coniduri" filtram os raios solares, criando um ambiente com iluminação difusa sem impedir a visão do entorno. Este elemento repete-se nas áreas de público, onde tal efeito é desejável, como no hall principal (figura 5).

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Figuras 3 e 4 - Sala de aula e detalhe do painel metálico com tela perfurada na Unesp

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Figura 5 - Hall do Instituto de Artes

No projeto da Biblioteca de Jundiaí (figuras 6 e 7), de 2.500 m² de área e quatro pisos suspensos sobre pilotis, os pavimentos de leitura são fechados em painéis de vidro laminado. A partir dos bordos da cobertura, uma pérgola em vigas metálicas avança cerca de 5m em todo o perímetro, sustentando em sua extremidade um plano vertical de telas reticuladas em aço inox atirantadas ao piso, como um véu protetor que filtra a luminosidade excessiva e a incidência direta dos raios solares, sem, contudo, obstruir a visão tanto dos freqüentadores sobre o jardim circundante, quanto dos transeuntes sobre o interior da biblioteca.

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Figuras 6 e 7 - Biblioteca de Jundiaí e detalhe da tela de aço inox

Posteriormente, nos projetos para estações ferroviárias da CPTM, foi pesquisado um material de baixo custo que formasse uma camada de proteção das áreas públicas mantendo as qualidades da relação entre a filtragem da luminosidade e a permeabilidade visual.

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Figuras 8 e 9 - Estação Jaraguá da CPTM e detalhe da camada de proteção

No projeto da estação Jaraguá (figuras 8 e 9), a camada translúcida foi formada comuma chapa de aço galvanizado pintada e perfurada, afastada 1,80 m do fechamento de vidro do mezanino. O resultado éuma envoltória leve e transparente para a estrutura metálica de pórticos treliçados e arqueados, ancorados lateralmente na laje de piso, com cobertura de telhas metálicas e policarbonato.

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Figura 10 - Estação Francisco Morato da CPTM

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Figura 11 - Detalhe do elemento de fixação da chapa perfurada

Na estação Francisco Morato (figuras 10 e 11), a mesma camada de chapa de aço galvanizado pintada tipo "cubana coniduri" foi afastada entre 1,70 m e 2,70 m da laje do edifício existente, mantido como um espaço de uso público. A estrutura de sustentação dessa camada translúcida foi elaborada como uma esquadria de perfis metálicos, ancorada por suportes tubulares fixados à estrutura de concreto.

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Figuras 12 e 13 - Vista do saguão Estação Provisória de Francisco Morato e detalhe do fechamento

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Figura 14 - Vista da chapa metálica perfurada

Na estação provisória de Francisco Morato (figuras 12, 13 e 14), a envoltória do saguãode estrutura em pórticos metálicos treliçados foi designada em telhas metálicas pintadas perfuradas. O processo de furação da chapa metálica é anterior ao perfilhamento no formato trapezoidal, o que permite manter o desempenho da rigidez e encaixe das telhas. Como resultado, obteve-se a proteção necessária às intempéries com ampla iluminação e ventilação naturais, alta visibilidade e baixíssimo custo.

O Centro Paula Souza e Etec Santa Ifigênia

Nas pesquisas de linguagem e ambiência, o relacionamento entre as camadas translúcidas de envoltória e a atmosfera desejável traz diferentes resultados em cada caso, agregando conhecimento aos novos projetos. No Centro Paula Souza e Etec Santa Ifigênia, os diferentes tipos de atividades foram agrupados em blocos e relacionados entre si segundo a organização espacial do conjunto.

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Figuras 15 e 16 - Tela em aço inox no edifício administrativo e detalhe de fixação

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Figura 17 - Detalhe do passadiço de manutenção da tela e do painel de vidro

No edifício administrativo (figuras 15,16 e 17), estão reunidas as atividades de escritório, com demandas de ampla luminosidade, proteção da incidência solar e transparência. Com planta retangular livre (figura 18) em quatro pavimentos sobre térreo e mezanino, prevaleceu nas fachadas o fechamento em vidro laminado e duas faces de concreto voltadas ao pátio interno, abrigando núcleos de circulação e sanitários. Sobre a fachada de vidro foi sobreposta uma tela reticulada em cabos de aço inox, afastada em 1 m nas faces maiores e 0,3 m nas faces menores, cumprindo a função de filtragem e transparência.

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Figura 18 - Planta do edifício administrativo

A função da camada metálica transparente é notória no contraponto à superfície de concreto, ao relacionar as diferentes materialidades com as atividades que abrigam. Para o observador no entorno, apenas nuances dos objetos internos são visíveis, ao passo queinternamente a tela é pouco presente, permitindo um panorama do entorno nos amplos ambientes de trabalho (figura 19).

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Figura 19 - Vista interna da tela de aço inox

As sobrecoberturas a 30 m de altura envolvem os blocos administrativo e de salas de aula (figura 20), restauram o perímetro do quarteirão e cumprem a função de amenizar a incidência dos raios solares sobre os ambientes internos. O uso de telhas zipadas perfuradas nestes elementos produz mais uma camada de filtragem da luminosidade, como observado nas experiências anteriores.

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Figura 20 - Sobrecobertura entre edifício administrativo e Etec

No edifício de salas de aula e laboratórios da Etec (figuras 21 e 22), o afastamento entre os dois blocos e a implantação das passarelas de circulação no perímetro exterior criaram um átrio protegido do movimento e do barulho exterior, ambiente propício à concentração que estas atividades exigem.

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Figura 21 - Terceiro pavimento da Etec

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Figura 22 - Edifício da Etec Santa Ifigênia no Centro Paula Souza

Para proteger as janelas voltadas ao átrio, foram instalados brises fixos com formato de meia asa de avião, afastados com passadiços de manutenção, em quantidade e posição calculada com diagramas de insolação para impedir que os raios solares incidentes atrapalhem as aulas (figuras 23 e 24).

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Figuras 23 e 24 - Átrio entre blocos de salas de aula e detalhe de fixação dos brises

Na biblioteca da Etec (figura 25), construída no espaço contíguo ao edifício remanescente incorporado ao conjunto, foi necessária uma maior proteção ao exterior para criar um ambiente introspectivo de leitura e proteger o acervo de livros. Desta maneira, a camada envoltória foi elaborada em brise de tubos lisos com pequeno espaçamento entre eles.

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Figura 25 - Proteção de brises tubulares na área da biblioteca

Conclusão

Linguagem e ambiência são palavras sinônimas na elaboração de um projeto de arquitetura. Sua simbiose determina grande parte do sucesso da empreitada, agregando valores materiais e poéticos na configuração do novo espaço urbano. A produção de conhecimento no processo de projeto e a sua divulgação contribuem ao desenvolvimento de novos sistemas construtivos, novas formas do habitar urbano para a transformação da realidade a sua volta.