Patologia das construções: uma especialidade na engenharia civil | Téchne

Artigo

Patologia das construções: uma especialidade na engenharia civil

Por Fernando Benigno da Silva
Edição 174 - Setembro/2011

Patologia x manifestação patológica
Há um grande equívoco no emprego da palavra patologia, tanto entre leigos como no meio técnico. Ouve-se repetidamente a palavra patologia sendo empregada para definir o que na verdade pode ser chamado de manifestação patológica.

Em termos apropriados, uma manifestação patológica é a expressão resultante de um mecanismo de degradação e a patologia é uma ciência formada por um conjunto de teorias que serve para explicar o mecanismo e a causa da ocorrência de determinada manifestação patológica. Em função disso, fica claro que a patologia é um termo muito mais amplo do que manifestação patológica, uma vez que ela é a ciência que estuda e tenta explicar a ocorrência de tudo o que se relaciona com a degradação de uma edificação.

Desse modo, uma fissura não é uma patologia, mas sim um sintoma cujo mecanismo de degradação (doença) poderia ser corrosão de armaduras, deformação excessiva da estrutura, reação álcali-agregado, e cuja terapia (o que fazer para restabelecer a estrutura) deve levar em conta as causas da doença.

Outro emprego do termo que se dá de forma errônea diz respeito ao uso da patologia no plural, referindo-se a diversas manifestações patológicas. A ciência patologia é única e possui aplicação em diversas áreas do conhecimento. No meio técnico da construção civil é comum depararmos com empregos errôneos, como supracitado, até para designar nomes de disciplinas nas universidades e nomes de institutos ou empresas especializadas nesta área. Finalizando esta comparação, é importante se conscientizar que não se vê a patologia e sim se estuda patologia, pois ela é uma ciência. O que se enxerga em uma vistoria são as manifestações patológicas, ou seja, os sintomas que a edificação apresenta.

Para sedimentar os termos corretamente, a tabela 1 ilustra alguns exemplos de manifestações patológicas com suas devidas causas, origens e mecanismos.

Formação na engenharia civil
Em princípio, o profissional formado atualmente nas universidades brasileiras não está habilitado para atuar na área de patologia das construções. Pela necessidade de conhecimento amplo sobre o funcionamento das construções, envolvendo reações químicas e solicitações mecânicas, este campo da engenharia civil tem sido tratado como uma especialidade. Nos cursos de engenharia civil em algumas destas universidades, a matéria patologia das construções é ofertada como disciplina optativa na graduação, sendo ministrada também nos cursos de pós-graduação. Além disso, a cada ano surgem novos cursos de especialização em patologia das construções como uma maneira de suprir a carência de informações para os profissionais atuantes no mercado, haja vista a importância desta ciência na prática diária dos engenheiros civis.

É fácil compreender que o aluno graduado em engenharia civil precisa sair dos seus cursos com noções sobre esta área, pois, deste modo, ele será um profissional mais completo e capaz de produzir construções duráveis e mais eficazes no desempenho de suas funções. Na medicina, a patologia clínica ou medicina laboratorial é uma especialidade médica que tem por objetivo auxiliar os médicos de diversas especialidades no diagnóstico e acompanhamento clínico de estados de saúde e doença. No Brasil a especialidade é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) com o nome de patologia clínica ou medicina laboratorial. Esta por sua vez se difere de patologia cirúrgica ou anatomia patológica, especialidade que tem por objeto de análise os tecidos sólidos do corpo humano, geralmente obtidos por meio de biópsia.

No Brasil, o médico patologista clínico passa por uma formação que inclui, além dos seis anos regulares do curso superior em medicina, mais três anos de residência médica, sendo um ano em clínica médica e dois anos em laboratório de análises clínicas.

Comparando com a engenharia civil, alguns cursos de especialização na área têm duração de aproximadamente dois anos e abordam disciplinas como: Mecanismos de Degradação, Sintomatologia e Ensaios para Diagnóstico, Vida Útil, Métodos de Avaliação, Produtos para Recuperação, Técnicas de Recuperação, Sistemas de Impermeabilização, Diagnósticos de Estruturas de Concreto, Problemas Técnicos Jurídicos nas Construções, além de estudar os diversos mecanismos e manifestações patológicas em Pisos Industriais, Revestimentos, Pavimentos Rígidos, Pavimentos Flexíveis, Fundações, Pontes e Viadutos de Concreto, Alvenarias e Monitoração Estrutural. Porém, nota-se que ainda não existe a obrigatoriedade de especializar- se na área para atuar como patologista das construções. Assim, um profissional despreparado corre o risco de equivocar-se na avaliação e tratar somente os sintomas e não as causas do problema.

Atualmente existem várias técnicas para diagnosticar uma manifestação patológica. Diversos ensaios destrutivos e não-destrutivos têm surgido com intuito de realizar o prognóstico das doenças nas edificações. Em linhas gerais, estes ensaios podem ser utilizados para fornecer informações como mapeamento das estruturas, tamanho, profundidade, condições físicas, ou para fornecer parâmetros que estão associados aos processos de deterioração ou risco de danos às estruturas. Assim, convém consultar especialistas para empregar a melhor técnica e com isso obter análises mais eficientes e confiáveis. Felizmente, não faltam terapias, que vão desde revestimentos especiais até técnicas eletroquímicas. No entanto, o fundamental é melhorar a qualidade das obras, para que não adoeçam tanto e tão cedo.

Mediante a modernidade tecnológica que significa, hoje em dia, a automação e a informatização da maioria dos processos de análise, o profissional também deve possuir conhecimentos básicos na área de informática.

Considerações finais
Muitas vezes as manifestações patológicas estão relacionadas aos materiais componentes e ao processo construtivo, o que reflete no desconhecimento às normas pelos profissionais que lidam com o assunto e a falta de cuidados na elaboração e aplicação do concreto.

Na maioria dos casos, o cumprimento às normas poderia evitar ou desacelerar consideravelmente os mecanismos de degradação de estruturas (doenças). O cumprimento às normas é obrigatório, não só para atender o Código de Defesa do Consumidor (vide artigo n° 39 do Código de Defesa do Consumidor), mas também com a finalidade de orientar os profissionais para as melhores práticas, evitando assim, a ocorrência desses problemas.

A tabela 2 apresenta algumas variáveis de influência e as respectivas recomendações normativas para evitar problemas patológicos.

Diante do panorama comparativo entre a relevância da patologia na medicina e na engenharia, demonstrados no presente artigo, cabe salientar que um dos fatores inerentes a esta significativa diferença diz respeito à mudança de valores arraigados pelas áreas influentes nas edificações comparados com a medicina. Nota-se que há uma preservação de valores culturais muito forte e que ainda predomina sobre o pensamento de construtibilidade e sustentabilidade nas edificações. Este fato não se restringe apenas aos profissionais envolvidos, mas também pelos contratantes (clientes) os quais ainda encaram as atividades de um profissional capacitado nesta área como um custo extra à obra e desconhecem os riscos assumidos com tal ato. Neste caso, infelizmente, ainda não nos comparamos com a medicina, uma vez que nesta área os especialistas são tratados e respeitados como tal para a prevenção e cura de doenças humanas. Cabe, neste momento, a atuação mais precisa de órgãos competentes de fiscalização para a disseminação desta especialidade para a vistoria e acompanhamento na execução de obras de todos os portes. Contudo, os investimentos com desenvolvimento de pesquisas na área da patologia nas edificações ainda são pequenos, se comparados à atenção dedicada à patologia da medicina. Sem muitos incentivos à obrigatoriedade de especialização e utilização de ensaios específicos que demandam mão de obra especializada não há aumento significativo da difusão e aplicação efetiva desta ciência nas engenharias e áreas correlatas. Como citado, o avanço existe, porém ele poderia ser potencializado e tratado de forma prioritária. É preciso lembrar que o incentivo a avanços na área poderia mitigar e até evitar alguns acidentes que ocorreram nos últimos anos. O reconhecimento destes engenheiros especialistas por toda a comunidade é fator preponderante para o decréscimo de desastres ocorridos nos últimos tempos. (Veja na tabela 3 alguns dos principais acidentes ocorridos no Brasil nos últimos anos.)

Dessa forma, o atendimento às Normas Brasileiras e atenção ainda para alguns cuidados construtivos tais como: respeitar o ambiente ao qual a estrutura estará submetida e utilizar técnicas para mitigar os efeitos ambientais sob as edificações são requisitos importantes para evitar a ocorrência destas manifestações. A aplicação conjunta destes conceitos deverá evitar o aparecimento das manifestações que acontece com frequência em edificações antigas e mesmo novas.
As normas constituem-se, neste caso, como sinônimo de qualidade e economia, enquanto a falta de qualidade significa desperdício e custo extra.

Atualmente o Programa de Pós- -graduação em Construção Civil (PPGCC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) é um dos centros de pesquisa que estuda e forma profissionais capacitados para atuar na área de patologia das construções. O tempo de formação é de dois anos e o aluno de mestrado pode fazer disciplinas sobre patologia e desenvolver sua dissertação nesta área de pesquisa. O processo seletivo ocorre anualmente no mês de outubro/novembro (informações no site: www.ppgcc.ufpr.br).

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