40 Perguntas - Materiais, componentes e sistemas construtivos | Téchne

Tecnologia

40 Perguntas - Materiais, componentes e sistemas construtivos

Edição 162 - Setembro/2010

Usos da Madeira

A madeira é ou não um material sustentável? Quais os usos da madeira mais indicados na construção?

Poucos materiais de construção são tão benéficos ao ambiente quanto a madeira. A madeira produzida de forma adequada e legal é considerada um material sustentável, atendendo aos três aspectos da sustentabilidade: econômico, social e ambiental. A exploração de florestas para produção de madeiras em bens duráveis, como estruturas de edificações, postes, cercas, móveis, pisos e revestimentos constitui-se em um mecanismo de remoção e fixação do carbono, contribuindo para a diminuição do aquecimento global. As florestas de produção podem ser plantadas ou exploradas de forma seletiva e a partir de um plano de manejo, sendo uma atividade de baixo impacto ambiental. O uso racional da madeira com a valorização das propriedades básicas das espécies aumenta a sua durabilidade, evita desperdícios, confere qualidade e valoriza o projeto. Os profissionais do setor devem definir o emprego correto da madeira, comprando e conferindo as espécies fornecidas e verificando a sua origem legal. A compra de madeiras certificadas é uma garantia de legalidade.

Madeiras provenientes de extração ilegal promovem o desmatamento predatório e a degradação ambiental e social. Contrariamente, a exploração planejada de florestas permite a aquisição de um material renovável, que captura o carbono da atmosfera pela fotossíntese, protege os solos e os recursos hídricos e mantém a riqueza de espécies. Esses são serviços ambientais fornecidos pelas florestas, além de outros benefícios como a regulação climática, a paisagem, o fornecimento de produtos não madeireiros. A sustentabilidade é uma meta em constante evolução e deve ser buscada em toda a cadeia produtiva da indústria de base florestal. O manejo florestal sustentável e as boas práticas de produção garantem que o recurso madeireiro permaneça disponível indefinidamente, ampliando ainda mais a sua correta utilização.

Ligia Ferrari Torella di Romagnano, ecologista
responsável pela Seção de Sustentabilidade de Recursos Florestais e pesquisadora do Centro de Tecnologia de Recursos Florestais do IPT

Aditivos para concreto

As adições no cimento e aditivos empregados atualmente na produção do concreto podem contribuir para a sustentabilidade? O uso de adições e aditivos pode ter impacto negativo para o meio ambiente quando o concreto for demolido e descartado ao final da vida útil da estrutura?

Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer que o conceito de sustentabilidade, para mim e para o mundo, tem significado amplo que engloba: menos ruído, mais rapidez, menor emissão de gases estufa, menor uso de energia, mais segurança, maior durabilidade, menos produção de entulho, maior reciclabilidade, mais possibilidades de reaproveitamento e maior vida útil, além de menor necessidade de manutenção para o produto final ou para a funcionalidade desejada. Assim, as adições ativas (metacaulim, sílica ativa, escória de alto forno, FlyAsh) sempre conduzem a concretos mais sustentáveis, desde que utilizadas corretamente. Se, por exemplo, uma fábrica de pré-moldados precisa atingir resistências altas a curto prazo para desformar, então não pode ser utilizado 70% de escória de alto-forno (EAF) nem 25% de pozolona. Por outro lado, em uma barragem, deve ser usada a pozolona ou EAF. As adições não ativas, tais como cal, pó de pedra e pós calcários podem contribuir para a produção de um concreto sustentável, cada caso deve ser analisado separadamente. O pó calcário ajuda na resistência à compressão, porém, se for utilizado para executar um reservatório de água, seu uso não é conveniente, pois prejudica a estanqueidade. Em relação a aditivos, no caso de redutores de água como Glenium e ADVA, o concreto se torna mais sustentável. Nas outras situações, deve ser estudado caso a caso.

Um acelerador será sustentável em uma desforma rápida e no concreto projetado, mas pode ser péssimo no caso de o concreto ser lançado em um pilar. Um aditivo retardador de pega, para manter um concreto bombeável durante três dias, pode ser sustentável no caso de um túnel e para evitar o desperdício ou perda de material. Nem aditivos nem adições geram impacto negativo no meio ambiente. Sobre a direção da indústria de concreto, digo que nos últimos 100 anos todos os melhoramentos e desenvolvimentos que realmente deram certo (HPC, HSC, self consolidation, adições, aditivos redutores de água, fibras etc.) sempre estiveram do lado da sustentabilidade.

Paulo Helene, diretor da PhD Engenharia, conselheiro do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto) e professor titular da Poli-USP

Fachadas de vidro

O uso de fachadas de vidros, mesmo que duplos e especiais, não é um contrassenso à sustentabilidade, devido à necessidade de condicionamento artificial de ar?

Marcelo Scandaroli
Fundação Carlos Chagas, Ruy Othake: fachada de pele de vidro azul laminado de 10 mm
O uso de vidros duplos oferece um bom resultado quando há um gradiente de temperatura significativo entre o lado externo e interno da edificação. Normalmente seria uma boa opção para situações onde o lado externo é muito frio ou excessivamente quente: o vidro duplo pode atrasar e diminuir o fluxo de calor para o interior da edificação, principalmente se não há incidência direta da radiação solar sobre ele. Mas é fundamental observar que uma fachada transparente, mesmo com vidros duplos, permite que a radiação solar, diretamente sobre ela, penetre no ambiente interno à edificação, contribuindo para o ganho de calor da edificação. É de grande importância dimensionar bem a proporção entre áreas opacas e transparentes em uma fachada, principalmente se ela recebe bastante sol.

Os vidros especiais podem ser utilizados na composição da fachada dupla. Porém, não resolvem o problema, apenas atenuam. É importante observar também que vários deles têm pouca transparência à luz visível. Continuam sendo muito importantes as decisões projetuais quanto, repito, à proporção de áreas transparentes e opacas, orientação geográfica da fachada, indicação de dispositivos de sombreamento ao conhecimento das características óticas de cada vidro. Respondendo à questão: a especificação de fachadas transparentes, considerando a realidade climática no Brasil, deve ser feita com extrema cautela e conhecimento quanto às estratégias passivas a serem utilizadas.

Rosana Maria Caram, física
professora livre-docente em arquitetura na Escola de Engenharia da USP São Carlos (EESC-USP)
rcaram@sc.usp.br

Análise de ciclo de vida

Existe um local, órgão, onde um comprador possa aferir o grau de sustentabilidade de uma determinada empresa no quesito produção? Como saber se a empresa produz de forma sustentável?

A busca por soluções tecnológicas adquire relevância cada vez maior, uma vez que tanto o crescimento de países desenvolvidos como de emergentes passa, necessariamente, por uma reavaliação do seu modo de produzir riquezas - o que minimiza os danos causados e preserva o meio ambiente. Esta é uma responsabilidade coletiva, que inclui a adoção de práticas de produção e consumo ecologicamente corretos.
A ACV (Avaliação do Ciclo de Vida do Produto) é uma das metodologias de gestão ambiental, no que tange aos parâmetros qualitativos e quantitativos, para avaliar o potencial do impacto ambiental ao longo da vida útil de um produto, processo ou atividade industrial. A análise é feita desde a extração da matéria- prima até a disposição do produto e seu retorno ao meio ambiente, formando assim o ciclo que dá nome ao termo. Um dos objetivos da ACV é estabelecer uma sistemática confiável a fim de possibilitar a escolha, entre várias, daquela atividade que terá menor impacto ambiental.

Hoje já existem modelos de avaliação que levam em conta alguns aspectos relacionados ao desenvolvimento sustentável, como social, ambiental e econômico, separadamente ou levando em consideração características individuais. Essa é uma técnica que vem sendo larga e universalmente utilizada, embora, dada à complexidade ecossistêmica do planeta, essa metodologia pressupõe uma aplicação local ou regional e isso requer uma coleta de dados da área onde a avaliação será aplicada. Com o aprimoramento da metodologia de ACV e a consequente construção do IACV (Inventário do Ciclo de Vida do Produto), que na realidade será um sistema de informação, a tendência é de que, em um futuro próximo, existam índices e critérios capazes de aferir o "grau de sustentabilidade" do processo produtivo de uma empresa.



Por enquanto, o único recurso disponível para verificar o grau de sustentabilidade de uma determinada empresa é a norma ISO 14025, que trata de rotulagem ambiental e recomenda a utilização da metodologia de ACV para a aquisição de selos verdes que obedeçam a padrões balizados. Esta é ainda uma iniciativa aquém do rigor que o processo de produção industrial exige para o controle de produtos de empresas que tenham a intenção de aderir a critérios claros de sustentabilidade, e de acordo com a redução do impacto no meio ambiente. Para tentar reduzir essa carência sobre como certificar se uma empresa produz de forma sustentável, o IBICT  (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia), unidade de pesquisa vinculada ao MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia), em parceria com outras instituições técnicas e acadêmicas, vem empreendendo ações no sentido de desenvolver o banco de dados  deste Inventário.

Esse grupo de instituições pretende organizar, armazenar e distribuir informações e metodologias necessárias ao apoio de estudos sobre ACV. O objetivo dessa ação conjunta é desenvolver selos verdes de gestão ambiental, com o intuito de apoiar a criação de mecanismos de certificação. Para estimular a formação de futuros cidadãos no pensamento do ciclo de vida, o IBICT está construindo conteúdos de informação, em parceria com a UnB (Universidade de Brasília) e a Unesco tais como: cartilhas, canais de comunicação e jogos eletrônicos. Esses conteúdos serão distribuídos junto ao programa de inclusão digital do Instituto nas escolas públicas de ensino fundamental do Distrito Federal. A intenção é conscientizar as futuras gerações para a preservação do meio ambiente reduzindo os danos causados ao Planeta pelo homem.

Celina Lamb, especialista em inteligência competitiva
coordenadora do projeto de Avaliação do Ciclo de Vida do Produto do IBICT
celina@ibict.br

Descarte de madeira tratada

Qual o impacto ambiental dos preservantes para madeira? Qual o impacto no uso, manuseio e descarte?

Marcelo Scandaroli
Existem pelo menos três categorias de resíduos de madeira: (a) madeira natural; (b) madeira tratada com preservativos (atualmente o principal é o CCA); (c) madeira industrializada, que contém adesivos e pode conter alguns biocidas. O principal biocida aplicado em parte da madeira da construção é o CCA (cobre, cromo e arsênico). Temos no mercado também resíduos de madeira tratada antiga, que pode conter pentaclorofenol, especialmente oriundo de ferrovias e postes de energia, creosoto e outros. Os biocidas são importantes para garantir a durabilidade de boa parte das espécies de madeira ao ataque de insetos xilófagos, como os cupins, presentes em muitas regiões. A prevenção do apodrecimento (ataque por fungos) pode ser feita simplesmente protegendo a madeira da umidade, situação viá­vel na construção de edifícios. Algumas espécies de madeira, normalmente mais dura e densa, dispensam o uso de biocida.

Existem estudos demonstrando que parte dos biocidas é lixiviada pela chuva. Embora seja indesejável, não é em condições normais um problema crítico em edifícios, pois a madeira tem baixa área superficial e, quase sempre, está protegida da chuva. O problema principal, então, passa a ser os resíduos. O resíduo de madeira tratada com CCA não pode ser queimado sem um controle ambiental rigoroso, pois libera arsênico e cinzas contendo metais pesados. A madeira industrializada, que possui adesivos, também não deve ser queimada sem controle ambiental. A madeira tratada não pode ser reduzida a cavacos para uso em proteção de animais, pois aumenta a área exposta, aumentando a lixiviação.  Essas são recomendações da associação norte-americana de fabricantes CCA Research (www.ccaresearch.org). Não existe evidência que a madeira tratada com CCA disposta em aterros sem ser picada cause algum problema ambiental. Na quase totalidade do mundo não é classificada como perigoso.

Algumas entidades, como a California Short Line Railroad Association recomendam o uso de luvas e máscaras, bem como o reúso das roupas, quando trabalhando com madeira tratada. De uma forma geral esses resíduos de madeira tratada não podem ser reutilizados em situações que terão contato direto com o ser humano, como mesas, revestimentos de paredes internas etc. como infelizmente acontece na arquitetura brasileira. A resolução do Conama 307 falha em alertar para as diferentes classes de resíduos de madeira. Esse comportamento induz o mercado a tratar todos os resíduos de madeira da mesma forma, tendo surgido um mercado de resíduo de madeira como combustível que pode nos levar a problemas sérios. O CBCS (Conselho Brasileiro da Construção Sustentável) já solicitou ao Conama a rediscussão do item. Mas a recomendação é clara: não queime madeira tratada e industrializada. Na dúvida, não queime.

Vanderley Moacyr John, engenheiro civil
professor da Poli-USP, membro do CA Construção (Câmara Ambiental da Indústria da Construção) e conselheiro do CBCS (Conselho Brasileiro de Construção Sustentável)
vanderley.john@poli.usp.br

Concreto carreado

O concreto carreado da lavagem das rodas dos caminhões pode cair na rede de drenagem e prejudicar o sistema pluvial, além de trazer consequências sérias para o meio ambiente de modo geral. Como eu posso, no canteiro de obras, evitar que a água com massa de cimento vá para a rede?

O concreto não somente da lavagem de rodas como, principalmente, de caçambas de concretagem, caminhões-betoneira, bombas de concreto ou outros equipamentos usados na concretagem pode trazer sérios problemas. A solução é relativamente simples: é preciso coletar essa água, decantá-la, filtrá-la e, se possível, reutilizá-la, assim como o material recolhido. Quando o terreno possui desnível, deve-se aproveitá-lo para, numa sequência de cotas da mais elevada para a mais baixa, criar uma zona de parada dos veículos (do caminhão-betoneira e do de bombeamento de concreto), próxima à de direcionamento das caçambas movimentadas por gruas. Esta última deve ser delimitada por mureta; a primeira deve conter muretas que evitem que a água se direcione para locais errados, prevendo-se o correto caimento do piso. Ambas devem ter uma ou mais canaletas com grelha para coleta da água com o material lavado.

Uma canalização de diâmetro suficiente, que parta das duas instalações, deve então, preferencialmente por gravidade, conduzir a água com o material a um tanque de decantação contíguo, convenientemente cercado; pode ser conveniente um gradeamento logo na entrada, para separar eventuais materiais intrusos. Quanto maior o volume de água a ser tratado maiores as dimensões do tanque, que usualmente tem uma superfície da ordem de 2 m2 e profundidade entre 0,70 e 1,00 m. No caso de terrenos planos, pode ser necessária a instalação de bomba. Os principais cuidados são recolher os sedimentos periodicamente, limpar as grades e eventuais filtros, substituindo-os em períodos convenientes. Deve-se então dar a correta destinação ao sedimento recolhido.

O ideal é não misturar a água da lavagem de rodas com a de equipamentos que tiveram contato com o concreto, sendo então necessária a construção de uma segunda instalação de lavagem, específica para as rodas, nesse caso de qualquer veículo, incluindo carros. Deve-se instruir o operador do equipamento de lavagem a usá-lo com bom senso, de forma eficiente e apenas para a lavagem dos equipamentos designados. Como em outras situações, ele pode empregá-lo para a lavagem completa de veículos, de vias de circulação e calçadas, dentre outros, o que pode causar um impacto negativo devido ao desperdício de água. Os profissionais devem usar os equipamentos de proteção adequados.

Francisco Ferreira Cardoso, engenheiro civil
professor titular do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da USP
francisco.cardoso@poli.usp.br

>> Confira o sumário da reportagem 40 Perguntas  
 

Veja também

Infraestrutura Urbana :: Fundações e Contenções :: ed 42 - Setembro 2014

3) Soluções técnicas: estacas Franki

Infraestrutura Urbana :: Fundações e Contenções :: ed 42 - Setembro 2014

2) Soluções técnicas: protensão de pontes e viadutos

Infraestrutura Urbana :: Equipamentos Públicos :: ed 42 - Setembro 2014

1) Soluções técnicas: cobertura modular com bobinas de aço