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Normas e legislação

Teste padrão

Ensaio de aderência de revestimentos de argamassa foi padronizado depois da revisão da NBR 13.528 para auxiliar os construtores no controle das variáveis que interferem no desempenho do produto

Por Juliana Nakamura
Edição 159 - Junho/2010

Marcelo Scandaroli
O número de corpos de prova para ensaio agora são 12 e o aparelho de arrancamento deve ter precisão na leitura
A lista de fatores que interferem no desempenho dos revestimentos de argamassa é enorme e inclui desde as características da base e os materiais empregados até as condições ambientais e os métodos de aplicação utilizados. Importante parâmetro de qualidade do revestimento, a aderência da argamassa ao substrato, seja ele concreto ou blocos (cerâmicos, de concreto ou sílico-calcário), também varia de acordo com esses fatores. Por isso mesmo, merece ser testada.

O instrumento que permite fazer tal avaliação é o ensaio de aderência, realizado de acordo com método prescrito na norma recém-atualizada NBR 13.528:2010 - Revestimentos de Paredes e Tetos de Argamassas Inorgânicas - Determinação da Resistência de Aderência à Tração, da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). A principal função do teste é auxiliar na definição do tipo de preparo da base, bem como da argamassa que melhor funciona sob condições específicas existentes, especialmente do substrato.

"O ensaio de resistência de aderência à tração é importante para verificar a interação entre as camadas constituintes do revestimento (base, camada de ligação, revestimento), determinando o valor da tensão de aderência máxima que o revestimento suporta, assim como qual a interface do revestimento que apresenta menor resistência às tensões atuantes no revestimento", explica o engenheiro Mauricio Resende, gerente do Laboratório de Componentes da Construção Civil do L. A. Falcão Bauer.

Divulgação: Tecmix
Para determinação da aderência da argamassa ao substrato, o ensaio deve ser executado no início do assentamento das alvenarias, em locais de fácil acesso e que representem as reais condições de exposição do revestimento
A pertinência desse tipo de estudo é maior ainda considerando-se a quantidade de variáveis que influenciam o desempenho de um revestimento. "Em uma mesma obra é possível encontrar revestimentos com desempenhos variados em função da forma de aplicação", comenta a professora Mércia Bottura de Barros, do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo). As argamassas projetadas mecanicamente, por exemplo, tendem a apresentar valores de resistência de aderência superiores em relação às argamassas aplicadas manualmente, já que a projeção mecânica proporciona maior superfície de contato, reduzindo a porosidade e a permeabilidade dos revestimentos.

Mércia explica que as condições climatológicas também interferem na qualidade do revestimento. Uma determinada argamassa pode ser aplicada com sucesso em uma fachada sul, mas apresentar características distintas quando introduzida na fachada norte, exposta a ventos constantes que impedem a hidratação do material, por exemplo.

Controle de processos

Por tudo isso, hoje, algumas construtoras veem no ensaio de aderência um instrumento que não apenas auxilia a tomada de decisão entre uma argamassa ou outra, mas que também serve para controle de processos. O objetivo é evitar que edificações já ocupadas apresentem patologias severas, como o descolamento de revestimento de fachadas, ocasionando transtornos tanto para os moradores, quanto para as construtoras.

Esse é o caso da Tecnisa, que há pelo menos 11 anos realiza o ensaio de aderência para ajudar a definir os traços mais adequados de argamassa e também como mecanismo de controle. "O teste começou a ser executado para nos ajudar a definir novos traços de argamassa, principalmente por causa da areia, que é um componente dinâmico que interfere diretamente na qualidade do revestimento", revela Maurício Bernardes, gerente de desenvolvimento tecnológico da construtora, onde o ensaio de aderência é um item obrigatório do processo de gestão da qualidade. "Toda vez que se inicia um revestimento de fachada, é feito previamente um pano-teste onde ensaiamos a aderência", informa o engenheiro.

Um ensaio desse tipo é realizado em painéis de no mínimo 1 m², contemplando trechos tanto da estrutura quanto da vedação. "A aleatoriedade da distribuição das amostras recolhidas é fundamental para evitar, por exemplo, a utilização de corpos de prova em um mesmo alinhamento, com o objetivo de ensaiar somente o revestimento que está sobre a junta dos blocos, situação que tende a apresentar valores mais elevados de aderência", explica Resende.

O recomendável é que as amostras sejam retiradas da fachada, área mais exposta a intempéries, utilizando um ou mais tipos de argamassas pré-selecionadas, industrializadas ou produzidas no canteiro. "O ensaio para determinação da aderência da argamassa ao substrato deve ser executado no início do assentamento das alvenarias, preferencialmente no andar térreo da edificação e em locais de fácil acesso, que representem as reais condições de exposição do revestimento", explica o engenheiro Horácio de Almeida Júnior, gerente técnico da Tecmix.

O processo pode ser demorado e, por isso mesmo, precisa ser planejado. O ensaio deve ser realizado no revestimento com idade de 28 dias, no caso de argamassas mistas ou de cimento e areia, e de 56 dias para argamassas de cal e areia, contados após a aplicação da argamassa sobre o substrato. A norma permite a realização do ensaio em outra idade, caso seja do interesse do construtor, mas, nesses casos, a idade deverá ser registrada em relatório.

Em compensação, os resultados podem ser imediatos. Mesmo que os laudos levem dois ou três dias para serem liberados, a preparação dos corpos de prova permite obter algumas informações preliminares, ainda no canteiro. "No momento do corte podemos fazer uma primeira avaliação quanto à rigidez do revestimento, dependendo da maior ou menor dificuldade encontrada durante a manobra de penetração", conta o engenheiro da Tecmix. "Além disso, a utilização de uma lixa para remoção de todo o material solto da superfície limitada pelo contorno do corte permite verificar a resistência superficial da argamassa, isto é, se sua superfície está muito friável ou não", completa.

Menor discrepância

Divulgação Tecmix
O teste é realizado em painéis-teste para avaliar a interação entre a argamassa e o substrato existente
Até fevereiro de 2010, antes de a nova NBR 13.528 entrar em vigor, a ausência de especificação mais detalhada na norma possibilitava que múltiplos formatos de corpo de prova fossem utilizados pelos laboratórios, desde cilindros de 5 x 5 cm até quadrados de 10 x 10 cm. "Só que em elementos com ângulos retos, há concentração de tensões. Isso fazia com que as amostras quadradas rompessem com valor menor do que as cilíndricas" lembra Mércia.

A busca por menor variabilidade de resultados levou à definição de um único tipo de corpo de prova circular com 50 mm de diâmetro. Para garantir maior representatividade, o número de amostras por testes foi aumentado. Antes eram seis, agora são 12.

A engenheira Renata Monte, pesquisadora do Laboratório de Revestimentos da Poli-USP, conta que outra mudança introduzida com o intuito de uniformizar os ensaios diz respeito à aparelhagem utilizada para a retirada das amostras. Foram definidos requisitos para o equipamento de tração, que deve garantir aplicação contínua de força e precisão em leituras de pequenas cargas.  "Incluída na nova norma, a utilização do gabarito para a execução do furo também é fundamental para garantir sua perpendicularidade, evitando a ocorrência de excentricidade", acrescenta Maurício Resende, do L.A. Falcão Bauer.

Outra novidade é que a norma exige que a taxa de umidade seja informada em relatório, uma vez que esse teor interfere no resultado de arrancamento. Em geral, o valor da aderência é menor em revestimentos com maior teor de umidade.

Divulgação Tecmix
Para evitar trepidações durante a operação de corte, recomenda-se a utilização de dispositivo de apoio para o equipamento de corte
Se por um lado mudanças como o aumento do número de corpos de prova e a exigência do estudo sobre a umidade trouxeram maior confiabilidade aos ensaios de aderência de revestimentos, por outro, tendem a deixar o teste um pouco mais caro. "Isso pode fazer com que haja mais dificuldade de que novas empresas busquem esse tipo de ensaio", comenta Mércia. "Ao mesmo tempo, tem-se dado cada vez mais atenção ao desempenho dos revestimentos em função da norma de desempenho. Nesse sentido, realizar o ensaio pode ser um indicador de que a construtora tomou todos os cuidados e que tem um histórico de controle de produção", pondera a professora.

Para as construtoras que já fazem uso desse instrumento de qualificação de sistemas de revestimentos, as mudanças podem trazer poucos impactos. Alguns laboratórios trabalham, inclusive, com uma tabela regressiva de preços variável de acordo com o número de amostras ensaiadas. Ou seja, quanto maior o número de corpos de prova amostrados, menor o seu preço unitário. "No orçamento de uma obra, seis corpos de prova a mais é algo que não faz nem cócegas no orçamento", defende Bernardes, da Tecnisa.

A introdução de mecanismos que agreguem maior credibilidade aos testes de arrancamento e aos números obtidos não exclui a necessidade de conhecimento técnico para a avaliação dos resultados. A verificação da forma de ruptura, obtida quando do rompimento dos corpos de prova, por exemplo, é algo que ainda requer experiência e sensibilidade daqueles que irão analisar os resultados. O engenheiro Horácio de Almeida Júnior ressalta que, erroneamente, muitos se focam apenas no valor numérico da resistência de aderência obtida no ensaio, limitada pelos valores de 0,3 MPa para revestimentos externos e 0,2 MPa para revestimentos internos, conforme a NBR 13749:1996 - Revestimento de Paredes e Tetos de Argamassas Inorgânicas - Especificação.

Só que o rompimento de um corpo de prova pode não ser suficiente para confirmar ou excluir uma determinada argamassa. O corpo de prova pode se romper em diferentes locais, além da interface revestimento-substrato. "Pode ser no substrato, na interface substrato-argamassa, na interface argamassa-cola, no chapisco, na interface chapisco-argamassa etc. Dependendo do local de ruptura, o teste pode nos mostrar apenas que o revestimento tem resistência à tração menor do que à aderência", finaliza Mércia Barros.


O teste passo a passo

1. Furo
Com uma furadeira acoplada a uma broca tipo serra-copo de 50 mm de diâmetro, são feitos os furos para retirada do corpo de prova. Ao todo são feitos furos para a retirada de 12 corpos de prova distribuídos de forma aleatória, contemplando juntas e blocos.

2. Pastilhas
Após limpeza da superfície, sobre cada furo é colada uma pastilha circular com resina epóxi, poliéster ou similar. A pastilha deve dispor de acoplamento para equipamento de tração.

3. Arrancamento
O passo seguinte é a introdução do aparelho de arrancamento (dinamômetro de tração) dotado de dispositivo para leitura de carga. As pastilhas são, então, arrancadas.

4. Amostras
Por fim, as amostras são analisadas. É calculada a resistência de aderência à tração de cada corpo de prova (Ra) em MPa e analisada a forma de ruptura de cada um deles.