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Abaixo de zero

Câmaras frias e frigoríficos precisam manter a temperatura e a umidade em seus interiores estáveis e em níveis específicos. Para conseguir isso são necessários projetos que considerem as condições extremas de uso

Por Juliana Nakamura
Edição 156 - Março/2010

Fotos: divulgação Isoeste
Para atender às necessidades mínimas dos setores alimentício, farmacêutico, químico e de distribuição, câmaras frias e frigoríficos devem ser eficientes, seguras, duráveis e apresentar baixo custo de manutenção. A garantia de todas essas características passa pela concepção adequada dessas estruturas de acordo com as particularidades de uso, assim como por um processo de construção que assegure a qualidade e o desempenho esperados.

Nos últimos anos, o aprimoramento tecnológico das soluções construtivas voltadas a esse mercado permitiu tornar as câmaras frigoríficas modulares, com manutenção, operação e eventuais ampliações facilitadas.

Câmaras montadas com painéis pré-fabricados termoisolantes, unidos por meio de conectores metálicos e com barreiras de vapor já incorporadas, substituíram as antigas câmaras erguidas em alvenaria. Isso principalmente por causa da montagem mais rápida, da maior eficiência energética, da redução de custos com execução de fundações e das paredes mais esbeltas, sinônimo de maior área disponível no interior das câmaras.

Entre os materiais isolantes, responsáveis em grande parte pelo desempenho energético das câmaras frigoríficas, uma das mudanças em curso é a substituição do recheio de poliestireno expandido (EPS) pelo poliuretano (PUR) injetado. Ainda que seja um material mais caro (entre 7% e 10%), o poliuretano vem sendo preferido em todo o mundo, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. As razões são principalmente técnicas e ambientais. Primeiro porque para a mesma espessura de isolamento, o painel com PUR apresenta um coeficiente global de transmissão de calor menor do que o de EPS, tornando-o um isolamento mais eficiente. Depois porque a produção de poliuretano pode ser feita sem emitir gases prejudiciais à camada de ozônio.

Projeto

Acompanhando esse ritmo, os acessórios também evoluíram. Termostatos e controladores digitais de temperatura ganharam maior precisão e durabilidade, enquanto as portas frigoríficas tornaram-se mais eficientes e robustas, incorporando componentes fabricados com termoplástico de engenharia, eliminando problemas com oxidação.

Mas de pouco adianta dispor de uma série de soluções e não saber aproveitá-las em um projeto coerente com as necessidades de cada câmara fria. Marcelo Colombo, engenheiro da Dânica, ressalta ser de suma importância o conhecimento dos produtos, das movimentações diárias, da temperatura de trabalho e da capacidade de armazenamento para que possa ser definido adequadamente o equipamento de refrigeração a ser utilizado, as espessuras corretas de isolamento e a necessidade de vedação, com a melhor relação custo-benefício possível.

A quantidade de material isolante a ser introduzida costuma ser diretamente proporcional às temperaturas de serviço e ambientais. Para se ter uma ideia, em áreas de clima tropical, para manutenção de temperatura interna na câmara entre 8°C e 20°C, uma camada de 60 mm de poliuretano expandido com densidade de 25 a 30 kg/m³ pode ser suficiente. Em contrapartida, para manter a atmosfera interna estável em torno de -30°C, a espessura do mesmo material isolante deve ser superior a 200 mm.

Para cada tipo de ambiente há especificações de utilização distintas. "Áreas com baixa umidade relativa apresentam características construtivas totalmente diferentes de áreas com umidade 'normais', enquanto que áreas de biológicos possuem sistemas de tratamento de ar com características distintas das salas limpas somente classificadas conforme ISO ou GMP (Good Manufacturing Practices)" exemplifica o engenheiro Eduardo Rein, sócio-gerente da Reintech, empresa especializada em projetos de salas limpas. Ele lembra, ainda, que a concepção de ambientes refrigerados deve atentar, acima de tudo, para a legislação vigente.

Em ambientes com controle de contaminação, como indústrias farmacêuticas, por exemplo, as normas exigem o uso de cantos arredondados, acabamento de visores flush, entre outras medidas para eliminar ao máximo o acúmulo de partículas. "Já nos ambientes com alto grau de agressividade, é importante verificar quais os agentes atuantes para definição dos revestimentos (aço pré-pintado, alumínio ou aço inox) e núcleo isolantes (poliuretano, poliestireno ou lã de rocha)", comenta Colombo.

Piso frio

O efeito das baixas temperaturas sobre os materiais utilizados na construção de edificações é bastante conhecido. Os concretos, por exemplo, podem simplesmente se romper quando congelados. Mas o fato de ser uma câmara refrigerada não impõe requisitos diferenciados em relação às garantias ou ao desempenho exigido pelas normas técnicas brasileiras. Por isso, o projeto de salas frias e frigoríficos é cheio de particularidades e requer cuidados redobrados.

No caso dos pisos, os desafios mais significantes estão nos ambientes congelados, onde os pisos estão submetidos a temperaturas de aproximadamente -27°C. "Sob essas condições, as manutenções preventivas e corretivas são desafiadoras, por isso a redução das juntas e a prevenção de todas as patologias são fundamentais durante o detalhamento do projeto, especificação do desempenho dos materiais e processo executivo", comenta o engenheiro Wagner Gasparetto, diretor Comercial e de Marketing da LPE Engenharia e Consultoria e presidente da Anapre (Associação Nacional de Pisos e Revestimentos de Alto Desempenho).

Além de isolamento, câmaras de congelados exigem medidas anticongelamento, o que pode ser resolvido com a adição de etilenoglicol ou por um sistema de dutos que promovam a circulação do ar, assegurando temperatura segura para o sistema.

Nas câmaras mantidas a temperaturas mais elevadas, acima do ponto de congelamento, o isolamento do piso pode até ser dispensado. Mas nas demais situações, é recomendável que o pavimento seja isolado para evitar perdas de energia. "Isso implica uma avaliação sobre a condição de apoio do piso de concreto, que não será sobre um solo e sim sobre o isolamento térmico", revela Gasparetto, comentando ainda que é papel do projetista de pavimentação prever todas as adversidades envolvidas nesse tipo específico de obra.

Fotos: divulgação Isoeste
Estrutura autoportante

A ampliação do complexo frigorífico de Rio Verde (GO), concluída no ano passado, permitiu à Perdigão aumentar sua capacidade de armazenagem para 16 mil posições para melhor atender as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste do País.

O projeto previu estantes autoportantes, cobertura com telhas zipadas e vedações laterais construídas com painéis isotérmicos com recheio de poliuretano, que juntos formam um grupo compacto. A decisão reduziu os investimentos na obra e permitiu elevar o aproveitamento da área disponível.

Ao todo foram empregados cerca de 34 mil m2 de painéis isotérmicos e mais de 50 portas, a maior parte delas frigoríficas para dar maior eficiência energética às áreas refrigeradas.

Ficha técnica
Centro de Distribuição Perdigão, Rio Verde (GO)
Ano: 2009
Vedação e cobertura: Isoeste

Checklist

Aspectos a serem compatibilizados pelo projeto de câmara frigorífica:

 Dimensionamento da câmara (m)
Tubulação (distância e desnível)
Tipo de isolamento térmico
Espessura do isolamento
Temperatura interna da câmara
Temperatura ambiente do local de instalação
Fator de utilização (abertura de portas - normal, intenso)
Número de pessoas (operação) - tempo de permanência (horas)
Iluminação - tempo de utilização
Motores (potência em cv) - tempo de utilização (horas)

Dados sobre o produto: tipo de produto/temperatura de entrada/carga do produto (kg) rotatividade/tempo de processo (horas) 

Fonte: Paulo Neulaender, GPS Neulaender

 

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