Manoel Henrique Campos Botelho | Téchne

Carreira

Manoel Henrique Campos Botelho

Com seus livros, o autor busca simplificar o ensino de conceitos básicos de diversos temas da engenharia

Bruno Loturco
Edição 137 - Agosto/2008
Marcelo Scandaroli
PERFIL
Idade: 66 anos
Nascimento: São Paulo
Graduação: Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), em 1965
Experiências: Planidro e CNEC, em projetos de saneamento, Promon, em projetos de saneamento e industriais, Emurb (Empresa Municipal de Urbanização), com urbanização da cidade de São Paulo, Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária), onde foi secretário-executivo da Seção São Paulo, SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), atuando como assessor técnico, Seconci-SP (Serviço Social da Indústria da Construção do Estado de São Paulo), onde gerenciou as utilidades de dois hospitais.

Se tivesse seguido as indicações principais do teste vocacional feito durante o colegial,Manoel Botelho seria hoje jornalista ou advogado.No entanto, considerando seu excelente desempenho em matemática e física no Liceu Pasteur, apostou na opção que aparecia apenas na terceira posição, de acordo com o teste realizado na Instituição Colméia, e prestou vestibular para a Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo)."Adoro a engenharia e, se tivesse estudado Direito,já teria tido um enfarte devido à paixão que pego pelos assuntos", conta.
Além do Pasteur e seus professores franceses, Botelho destaca também o corpo docente do curso Anglo Latino como incentivador de seu propósito de ensinar. A admiração por professores que lecionavam na Poli- USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), especialmente os engenheiros Lucas Nogueira Garcez e José Augusto Martins, o levaram a optar pelo curso de Hidráulica e Saneamento da faculdade.
O ingresso na Poli o fez imergir num ambiente repleto de idealismo revolucionário. "Adotei a postura de polemista em tudo, principalmente nas atividades políticas do inesquecível Grêmio Politécnico", afirma, ao lembrar a intenção de mudar o mundo, no início dos anos 1960, inspirado pelos efeitos da revolução Cubana. "Era uma característica de toda a minha geração e dos políticos de então. Hoje mudei de idéia e vejo que vivia num mundo absolutamente teórico, mas idealista." Considera-se "um extremamente otimista em relação ao progresso da humanidade.Hoje é melhor que ontem e amanhã será melhor que hoje", acredita.
Ainda na faculdade, no quinto ano, foi selecionado para trabalhar ao lado do professor José Augusto Martins, na Planidro, onde atuou, como estagiário, no serviço do Vale do rio Tietê. Acompanhou sistemas de irrigação, melhorias dos métodos agronômicos e sistemas de coleta de dados hidrológicos e meteorológicos. As experiências pelas quais passou nas empresas onde trabalhou enriqueceram sua vida profissional de maneira tal que, a volta à faculdade, para pós-graduações ou especializações, se mostrou desnecessária. Foram nove anos atuando pelas empresas Planidro e Promon Engenharia.
A personalidade autodidata de Botelho o faz criticar a forma como os ensinamentos são passados aos alunos e leitores. Vivenciou isso na prática ao procurar entender mais sobre o concreto armado. Sem conseguir avançar muito com a leitura de livros convencionais, buscou fontes de informação das mais diversas e, com o auxílio de Osvaldemar Marchetti, lançou um curso por correspondência. Esse curso, tempos depois, se tornaria o primeiro livro de Botelho: Concreto Armado, Eu te Amo. A publicação foi um sucesso e virou coleção, abordando outros aspectos relacionados ao projeto e execução do concreto armado, como o dimensionamento de elementos estruturais ou as peculiaridades do macarreira.
terial que dizem respeito à arquitetura. Hoje, segundo conta, já foram vendidos mais de 60 mil exemplares de livros dessa coleção. A intenção dessas obras é inovar na comunicação e ensino da engenharia, explicou o autor. Orgulhoso, conta que o professor Telêmaco Van Langendonck lhe telefonou para elogiar a qualidade do trabalho, além de Augusto Carlos de Vasconcelos ter lhe escrito elogios (o catálogo, com todas as publicações de Botelho, pode ser solicitado diretamente ao autor, pelo e-mail manoelbotelho@terra.com.br).

Dez questões para Manoel Botelho

1-Obras marcantes das quais participou: os projetos industriais mais importantes foram o de despoluição da Carbocloro, a fábrica de preservação de dormentes da Fepasa, a ampliação da fábrica da Peróxidos e o projeto da criação da enorme elevatória NARG (Novo Alto Recalque do Guandu), no Rio de Janeiro, além da estação de tratamento de esgotos da Refinaria Replan, em Paulínia

2-Obras significativas da engenharia brasileira:
as mais importantes que vi no Brasil foram as dos ingleses em São Paulo. A saber, a reversão do rio Tietê para vertente oceânica e construção da usina hidroelétrica Henry Borden, além da estrada de ferro Santos-Jundiaí, usando uma série de funiculares - cabos de aço tracionados por roldanas acionadas por caldeiras, para vencer a Serra do Mar. Ressalto também as obras do Sistema Cantareira, que trás água do interior do Estado para São Paulo

3-Realizações profissionais:
o ensino de engenharia e humanismo em meus livros. Minha paixão são as polêmicas e ensinar fácil o que parece aparentemente difícil. O que é lógico tem que ser simples e fácil. Basta querer ensinar

4-Mestres:
o engenheiro Max Lothar Hess e o professor Azevedo Netto, além dos professores do Curso Anglo Latino, Bloch, Marmo e Simão, que ajudaram a formar meu raciocínio didático

5-Por que escolheu a engenharia:
era excelente aluno de Matemática e Física. A opção pela engenharia hidráulica se deve ao excelente curso de Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica, dirigido pelos professores Lucas Nogueira Garcez e José Augusto Martins

6-Que tipo de formação falta aos profissionais recém-saídos da universidade:
como nunca dei aulas formais em faculdades, prefiro não opinar. Quanto à participação de empresas, acho que deveriam estimular os estágios, que são muito úteis

7-Conselho ao jovem profissional:
o jovem profissional deve se vestir com elegância, falar inglês muito bem e estudar criticamente as matérias da engenharia

8-Principal avanço tecnológico recente:
a democratização da informação e do conhecimento, a exemplo da Universidade de Harvard, que disponibilizou todo seu acervo de livros e textos na internet

9-Indicação de livro:
Manual de Hidráulica, de Azevedo Netto, Manual de Tratamento de Águas Residuárias, de Klaus-Robert e Karl Imhoff. Destaco o meu livro Concreto Armado, Eu te Amo, que tenta inovar na comunicação e ensino da engenharia, tendo recebido elogios do professor Telêmaco Van Langendonck

10-Um mal da engenharia: Os engenheiros lêem pouco, tanto literatura técnica quanto assuntos em geral, e por isso comunicam-se mal oralmente e por escrito. Luto contra isso


O entusiasmo em abordar outros temas veio da necessidade por simplificar conceitos sentida não apenas por ele, mas também por seu filho, engenheiro civil formado por uma universidade pública paulistana.Conta que o filho recebia apostilas desnecessariamente complexas demais. Botelho chegou a mostrar uma apostila sobre resistência dos materiais para colegas calculistas que foram unânimes em considerar o material incompreensível. "Meus livros são minha resposta para esse absurdo de cursos e livros que, em vez de ensinar, servem apenas para o autor demonstrar erudição", afirma.
Dentre seus próximos projetos estão livros sobre termodinâmica e golpe de aríete. "Como são assuntos lógicos, têm de ser fáceis de ensinar", afirma.
Ele também responde pela Coluna do Botelho da revista do Professor de Matemática. Por isso, foi convidado pelo Departamento de Matemática da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) a palestrar sobre um tema livre. Lotou o auditório, com capacidade para 100 pessoas, com o tema "Parapsicologia e Matemática". Após entreter a platéia com casos matemáticos incríveis, comprovou que não existem correlações entre os temas que deram nome à apresentação. "Mas será que algum dos presentes achava que existia?."