Entulho vira matéria-prima | Téchne

Tecnologia

Entulho vira matéria-prima

Agregados reciclados chegam aos canteiros das construtoras, adquiridos de empresas especializadas ou gerados na própria obra

Giuliana Capello
Edição 112 - Julho/2006

"Adquirimos resíduos na forma bruta, a preços compensatórios, que foram usados como rachão para aumento da capacidade de suporte do subleito, já que se tratava de solo de fundo de vale", explica Liedi Bariani Bernucci professora-chefe do DET e coordenadora do Laboratório de Tecnologia de Pavimentação. "Também empregamos agregados reciclados provenientes da britagem dos resíduos, em duas camadas de 15 cm cada, uma de sub-base e outra de base em toda a estrutura do pavimento do sistema viário, com bons resultados até o momento", completa. Geralmente, os produtos reciclados custam menos do que os naturais, mas é preciso considerar o frete envolvido.

Reciclagem no canteiro

Separar e reciclar os resíduos no próprio canteiro, além de poupar as jazidas naturais, pode significar economia no transporte de materiais. "O problema é que é preciso ter escala de resíduos para compensar os custos com as máquinas que vão fazer a moagem e a separação", pondera Vanderley John.Mas, nos casos em que é necessário demolir estruturas, levar para o canteiro uma miniusina de reciclagem pode ser vantajoso.

Foi o que aconteceu na obra do Condomínio Villaggio Maia, em Guarulhos (SP). Numa visita ao terreno, engenheiros da construtora Setin se depararam com um piso de concreto de 12.500 m3 de volume. Só para retirar o material do local seriam necessárias 1.200 viagens de caminhão. A solução encontrada foi adquirir os equipamentos e montar uma recicladora lá mesmo. Reciclado, o piso de concreto virou blocos de fundação e de concreto, muros, lajes, shaft para abrigo de água e luz, contramarco das janelas e outros pré-moldados. O custo total dos equipamentos e da instalação foi de R$ 21,27/m2. "No final a economia gerada não chegou a 1%, mas evitamos enormes impactos ambientais ao reutilizar matéria-prima e dispensar o transporte que provoca trânsito e aumenta a poluição do ar", contabiliza Lucy Mari Tsunematsu, gerente de projetos da empresa.

Legislação e normas técnicas
Resolução Conama no 307 – Gestão dos Resíduos da Construção Civil, de 5 de julho de 2002
NBR 15112:2004 – Resíduos da construção civil e resíduos volumosos – Áreas de transbordo e triagem – Diretrizes para projeto, implantação e operação
NBR 15113:2004 – Resíduos sólidos da construção civil e resíduos inertes – Aterros – Diretrizes para projeto, implantação e operação
NBR 15114:2004 – Resíduos sólidos da construção civil – Áreas de reciclagem – Diretrizes para projeto, implantação e operação
NBR 15115:2004 – Agregados reciclados de resíduos sólidos da construção civil – Execução de camadas de pavimentação – Procedimentos
NBR 15116:2004 – Agregados reciclados de resíduos sólidos da construção civil – Utilização em pavimentação e preparo de concreto sem função estrutural – Requisitos

Divulgação Setin
Para construir o Villagio Maia, a Setin investiu na demolição de 12.500 m3 de concreto. A construtora diz que a economia foi de apenas 1%, mas evitou um enorme impacto ambiental

Situação semelhante aconteceu numa obra da Racional Engenharia, no centro do Rio de Janeiro. A construção do Edifício Torre Almirante, com 36 pavimentos, implicou a demolição de um esqueleto de nove pavimentos, o que gerou 7 mil m3 de entulho. "Decidimos alugar um terreno na região de Campo Grande para servir de usina de reciclagem desses resíduos, com um investimento de R$ 500 mil. Com os reciclados, fizemos toda a pavimentação e ainda conseguimos fabricar mais blocos de concreto do que utilizamos de fato na construção", conta Wilson Pompílio, diretor da construtora.Ao final da obra, cerca de 100 mil blocos foram doados para entidades assistenciais da cidade.

Obras públicas

Pioneiro no setor público, o Programa de Reciclagem de Entulho da prefeitura de Belo Horizonte existe desde 1993.Hoje, a cidade conta com três usinas que movimentam até mil t/dia dos materiais que sobram das grandes construções. Os resíduos são transformados em areia,minério de ferro e dois tipos de brita, aplicados em bases de vias públicas e meios-fios e na confecção de blocos para obras da prefeitura.

Em Curitiba, um projeto-piloto do governo local possibilitou a construção de uma creche a partir dos resíduos gerados na própria obra, incrementados por sobras de outras construções feitas pela empresa Enjiu, vencedora da licitação. Restos de material cerâmico como telhas e tijolos foram despejados num moinho de 2,5 t, com dois rolos de 600 kg que misturaram os materiais. "Fizemos testes com amostras e comprovamos a qualidade do material, sua aderência, resistência e compatibilidade em relação às normas existentes", ressalta Nelson Wargha Filho, engenheiro responsável pela empreitada. O produto final foi aplicado como emboço e argamassa para assentar tijolos.

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