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Edição 106 - Janeiro/2006
Bruno Contarini

Primeiro o reconhecimento internacional, depois a oportunidade de dirigir as obras da ponte Rio¿Niterói




PERFIL

Nome: Bruno Contarini
Idade: 72 anos
Graduação: engenheiro civil com especialização em arquitetura pela Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil (atual Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro), em 1956
Pós-graduação: não tem
Empresas em que trabalhou: Escritório Técnico Sidney dos Santos, diretor da Construtora Sergio Marques de Souza, consultor da Construtora Rabello, diretor-técnico do Consórcio Construtor Guanabara, diretor-fundador e superintendente da Projectum Engenharia, diretor da Construtora Rabello Internacional, diretor-superintendente da B.C. Engenharia
Ensino: professor de concreto protendido da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro)

Não o concreto, mas o aço dos automóveis primeiro incentivou o jovem Contarini a ingressar na engenharia. Filho de um italiano que fez carreira na companhia automobilística Fiat, Bruno teve o primeiro contato com projetos ao desenhar as carrocerias que o pai executava. Rui Barbosa e o então presidente Rodrigues Alves andaram em veículos desenhados pelo pai.

Obviamente, a facilidade com a matemática influenciou a escolha pela engenharia. Habilidade tal que também garantia o desempenho acima da média em disciplinas como Resistência dos Materiais. Foi uma nota máxima nessa cadeira que abriu a Contarini as portas do cálculo estrutural. A carreira começou, de fato, com um convite do professor Sidney dos Santos para estagiar em seu escritório. Lá teve como primeiro chefe o engenheiro Dirceu Veloso. "Daí a pegar preferência por cálculo foi um passo", conta Bruno.

Ainda como estagiário, no ano de 1956, calculou e detalhou parte do viaduto Negrão de Lima, localizado em Madureira, no Rio de Janeiro. Três anos depois, fez a variante em concreto protendido da ponte sobre o rio Tocantins. Executada em balanços sucessivos, a obra ostenta o recorde mundial em viga reta protendida e, conforme recorda Contarini, possibilitou o término da rodovia Belém-Brasília.

Até 1968, o engenheiro ainda projetaria a ponte sobre o rio Paraná, localizada em Presidente Epitácio, na divisa dos Estados de São Paulo e Mato Grosso, e a ponte do rio Pelotas, no Rio Grande do Sul. A primeira tem 2.550 m de comprimento, com vãos de 45 a 112 m, e a segunda conta com um vão de 189 m e viga de 11 m de altura.

A partir daquele ano, Bruno passou a expandir as fronteiras do cálculo estrutural brasileiro. Chamado à Argélia francesa pelo arquiteto Oscar Niemeyer, recebeu o desafio de viabilizar o projeto da Universidade de Constantine. Sendo inexeqüível o projeto para os engenheiros franceses, a dupla Contarini-Niemeyer, por meio da construtora Rabello, colocou a edificação em pé, lançando mão da tecnologia do concreto protendido.

Com a consolidação de um consórcio dessa construtora com a argelina Ecotec, inúmeras obras foram executadas durante os 20 anos em que Contarini atuou no norte africano e na Europa. "Os primeiros anos de Argélia renderam bons projetos e bons lucros", comenta. Ainda em 1968, outra parceria foi firmada. Dessa vez, entre as construtoras Camargo Corrêa, Mendes Júnior, Rabello e Sergio Marques de Souza, para formar o Consórcio Guanabara, e tinha o objetivo de executar a ponte Rio-Niterói.

A derrota na concorrência não tirou o grupo da construção. Quando a obra entrou em crise, o Guanabara foi chamado para tomar o lugar deixado pelo Consórcio Construtor Rio-Niterói. Contarini assumiu a direção técnica da obra e passou a comandar 130 engenheiros e 10 mil operários. A empreitada durou quatro anos, até a entrega da obra em 4 de março de 1974.

Repleta de inovações, a Rio-Niterói utilizou, pela primeira vez, as tecnologias de ilhas flutuantes com equipamentos de perfuração de tubulões, treliças de lançamento e dois equipamentos de colocação de aduelas.


À época da construção da ponte, o Rio de Janeiro era, para Contarini, o local onde se praticava a melhor engenharia nacional. Hoje, com uma quase ausência de obras cariocas, ele considera que os canteiros paulistas concentram o desenvolvimento tecnológico.

Se a Argélia garantiu o período mais fértil da carreira do engenheiro Bruno Contarini, também foi lá que viveu uma das suas piores experiências. Diretor da construção da barragem de Sidi Abdeli, enfrentou uma chefia dividida. Abandonou sua empresa para assumir a direção de outra. Desta, por questões políticas, demitiu-se e, por falta de substituto, atuou por onze meses sem contrato. "Conheci alguns companheiros desleais e voltei ao Brasil", explica. Aqui enfrentou dez meses sem trabalho e se viu obrigado, em 1981, a fechar a Projectum Engenharia.

A turbulência não abalou o talento do projetista, que ainda participou, apenas em Brasília, da construção do Teatro Municipal, com 21 m de profundidade e 26 m acima do solo, da Plataforma Rodoviária, que é, atualmente, a estação rodoviária da cidade, e de inúmeros blocos da UnB (Universidade de Brasília), incluindo o chamado "Minhocão", com 700 m de comprimento e mais de 15 mil peças pré-fabricadas.

Apesar da ampla gama de trabalhos de grande porte e do reconhecimento internacional, Contarini compartilha da opinião geral dos engenheiros estruturais. Considera, como os profissionais mais destacados do setor, que o advento da informatização tem duas faces. Embora seja um "auxiliar espetacular", o "computador não é o patrão", salienta, ao comentar a falta de ordem de grandeza e a confusão de unidades.

O engenheiro faz parte da maioria também quando o assunto é valorização profissional. A experiência no exterior o gabarita para afirmar que o profissional brasileiro é pouco reconhecido e mal pago. "Aqui no Brasil a experiência é medida pelo preço, que tem que ser baixo porque o concorrente, muitas vezes, é um iniciante."

Dentre as obras recentes do portfólio de Contarini destaca-se o Museu de Arte Moderna de Niterói, "obra reconhecida como uma das sete maravilhas da arquitetura moderna". Atualmente, a B.C. Engenharia toca o projeto do Estádio de Atletismo e a própria Vila do Panamericano. O primeiro, pré-fabricado, terá capacidade para 60 mil espectadores; o segundo, um conjunto residencial com 17 torres com 12 pavimentos cada uma.



Dez perguntas para Bruno Contarini

1) Obras marcantes de que participou: Viaduto Negrão de Lima, ponte Rio-Niterói, Universidade de Constantine (Argélia), Museu de Arte Contemporânea de Niterói.

2) Obras mais significativas da engenharia brasileira: Considerando a grandeza, seria a barragem de Itaipu, mas considerando as inovações tecnológicas, a ponte Rio-Niterói.

3) Realização profissional: Participar da ponte Rio-Niterói, com todo o sistema executivo, projetos estruturais e equipamentos inéditos, tudo em escala gigante.

4) Mestres: Os engenheiros Sérgio Marques de Souza, Mário Jaime dos Reis Vila Verde, José de Moura Villas Boas, Carlos Alberto Fragelli, Waldir Amorim, Sérgio Willensens e Benjamin Ernani Diaz.

5) Por que escolheu ser engenheiro: Sempre tive muita facilidade com matemática e tive os primeiros contatos com desenhos, ao desenhar carrocerias para carros.

6) Melhor escola de engenharia civil: PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

7) Um conselho ao jovem engenheiro: Valorizar o conhecimento técnico e não aceitar a política de esmolas, cestas básicas, tostões.

8) Principal avanço tecnológico recente: Os aditivos que tornam o concreto mais resistente e durável. As fibras também estão em evolução e devemos esperar muito desses materiais.

9) Indicação de livro: Construções de Concreto, de F. Leonhardt.

10) Um mal da engenharia civil: A confusão entre má qualidade e economia. Normalmente, a obra mais barata não é a mais econômica, mas a de pior qualidade.


Reportagem de Bruno Loturco
Téchne 106 - janeiro de 2006