Sigmundo Golombek | Téchne

Carreira

Sigmundo Golombek

Inaugurou os serviços de consultoria de fundações no País, numa época em que mesmo projetistas de estruturas eram vinculados às construtoras

Reportagem de Bruno Loturco
Edição 104 - Novembro/2005



PERFIL

Nome: Sigmundo Golombek
Idade: 81 anos
Graduação: engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), em 1946
Pós-Graduação: não tem
Empresas em que trabalhou: Escritório Odair Grillo, de 1946 a 1949, Geotécnica S.A., de 1949 a 1951, Engenharia de Fundações S.A., de 1952 a 1953, Escritório de Direção Técnica das Fundações e Consultoria, de 1953 a 1966, e Consultrix, desde então.
Cargos que exerceu: professor de Mecânica dos Solos e Fundações, nas escolas de engenharia e arquitetura do Mackenzie, entre 1950 e 1969, professor de graduação e pós-graduação da Poli-USP, em 1972. Desde 1978 leciona Fundações de Edifícios, na Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia, ligada à Poli-USP.


Se hoje existe um campo de trabalho para consultores de projetos de engenharia civil cada vez mais extenso - seja de qual especialidade forem os profissionais -, deve-se muito à iniciativa empreendedora do pioneiro Sigmundo Golombek.

Criado no bairro do Bom Retiro, região central da capital paulista, Golombek percebeu, no início dos anos 1950, que projeto e execução de fundações poderiam ser feitos separados. Na ocasião, nem mesmo os projetistas estruturais atuavam de forma independente às construtoras.

A experiência de sete anos trabalhando com fundações, período entre 1946 e 1953 em que estagiou e exerceu cargos de diretoria em grandes empresas da época, gabaritou o filho de alfaiate a alçar vôo solo. Foi quando fundou o Escritório de Direção Técnica das Fundações e Consultoria, embrião da hoje cinqüentenária Consultrix.

Atualmente, a Engenheiros Consultores Associados Consultrix, criada em 1966, conta com a participação em mais de nove mil obras nacionais e internacionais. E cada um desses projetos passou pelo crivo e teve o toque do fundador. É claro que a empresa caminha por si só e a equipe tem autonomia suficiente para levar adiante os trabalhos. Além do zelo dedicado a cada projeto, Golombek tem uma rotina que inclui a verificação e a ida às obras.

Quando questionado sobre a necessidade prática de tal procedimento, Golombek recorre à norma e cita o item que sugere "de especial interesse (...) a observação de obras mediante instrumentação adequada". No entanto, uma afirmação mostra que o hábito representa mais do que um respeito absoluto à norma. "Chegamos nesse patamar graças a um esforço pessoal inicial. Hoje temos uma equipe, mas, mesmo que não seja uma necessidade, o fato de ir pessoalmente faz com que a gente acostume", simplifica.

Mais do que isso, para o professor de fundações a criatividade é indispensável para o aprendizado prático. De acordo com ele o início de qualquer atividade humana envolve riscos e exige muito da imaginação. Assim, por maior que seja o conhecimento, é indispensável o acompanhamento criterioso ao longo da execução. "Fundação é um item muito importante e deve receber a atenção correspondente", defende.

Os desafios inerentes ao recém-criado posto de consultor de fundações envolviam mais do que conhecimento técnico ou experiência. Determinação e persistência foram essenciais para alterar a cultura dos construtores da época. Até então, eram os responsáveis por todo o processo construtivo, desde o projeto até a entrega do empreendimento. Não era visível a necessidade ou a conveniência de desmembrar as etapas. Tanto que, conforme recorda o professor Golombek, um dos construtores a que ofereceu serviços argumentava que trabalhava há 50 anos e nunca havia precisado de um consultor.


Os argumentos do consultor baseavam-se nas necessidades futuras da construção. Vislumbrando o gradativo aumento da busca por um custo-benefício mais atraente e um padrão mínimo de desempenho, Golombek apostava na especialização. Ou seja: afirmava que "quem se dedica a um setor, acaba entendendo mais disso que os outros". Nesse sentido seria interessante haver um especialista prestando assessoria sobre assuntos específicos.

Uma vez que o conhecimento absoluto sobre o trabalho foi o argumento que deu a base necessária para a consolidação da Consultrix, o engenheiro Golombek critica a incessante busca por menores custos em detrimento da boa técnica. Como se vê no quadro de perguntas, essa tendência é, para ele, um mal irreversível da sociedade moderna. "Consegue-se fazer uma certa economia sacrificando a qualidade. Isso, com o tempo acarretará conseqüências", alerta.

Vinculado a esse tema está o mesmo problema de que sofrem engenheiros de estruturas. Considerados - equivocadamente - trabalhos meramente exatos, os projetos de fundações são, muitas vezes, contratados de profissionais dotados apenas de sofisticados equipamentos de cálculo e projeto e pouca experiência.

Ao avançar nesse assunto, o diretor da Consultrix reconhece entrar em campo perigoso. "Estamos falando de ética. Nem sempre se pode escolher um profissional pelo preço", frisa. "Não existe dilema ético. Não sonego e não recebo comissão. Então, qualquer escolha é feita sempre pela solução técnica correta", conclui ao comentar que já se viu obrigado a abandonar obras devido a conflitos entre orçamento e técnica.

No entanto, devido à experiência acumulada em mais de 50 anos de profissão, é chamado para outras obras cuja situação foge ao controle ou conhecimento dos responsáveis. "É necessário ter vivido problemas difíceis. Se olharmos para o mapa, veremos que não estamos apenas em São Paulo", comenta e remete a problemas enfrentados em obras no Nordeste, às quais foi chamado às pressas. "Evidentemente isso chegou até nós porque temos experiência em obras desse tipo", conta.

Boa parte da vivência de Golombek foi adquirida na Marginal do Rio Pinheiros, em São Paulo. Diversos prédios ali, incluindo a Torre Norte, levam sua assinatura nos subterrâneos. Outros desafios enfrentados pelo professor ao longo de sua trajetória são o edifício Itália e a construção símbolo da capital paulista, o Masp (Museu de Arte de São Paulo).


Dez perguntas para Sigmundo Golombek

1) Obras marcantes de que participou: Masp (Museu de Arte de São Paulo), o Conjunto Itaú, no bairro da Conceição, World Trade Center (Marginal Pinheiros, SP), Edifício Itália, conjunto Cenu (Centro Empresarial Nações Unidas), na avenida Marginal do Rio Pinheiros. É difícil escolher uma.

2) Obra mais significativa da engenharia brasileira: A mais interessante é o Masp, para a época em que foi feita.

3) Uma realização profissional: Ser homenageado e reconhecido por várias entidades.

4) Mestres: O austro-húngaro Karl Von Terzaghi e, no Brasil, Odair Grillo, que foi meu professor na Poli. É difícil mensurar os ensinamentos que passaram.

5) Por que escolheu ser engenheiro: Sempre respondo que a Escola Politécnica era perto da minha casa. Isso, evidentemente, não é uma resposta satisfatória, pois a Faculdade de Farmácia era mais perto ainda. O fato é que, na década de 40, havia poucas opções. Dentre essas, a engenharia foi a escolhida.

6) Melhor escola de Engenharia Civil: Escola Politécnica da USP. A grande vantagem de escolas como a Poli é que não dependem do pagamento dos estudantes. Então, o aluno é avaliado pelo que sabe e não porque, para a escola, não fica bem reprovar o filho de alguém influente, por exemplo.

7) Um conselho ao jovem engenheiro: Ética, trabalho e honestidade profissional.


8) Principal avanço tecnológico recente: O uso de lamas bentoníticas e produtos químicos para estabilização de terrenos. Antigamente os prédios tinham um subsolo ou, excepcionalmente, dois. Hoje, terem cinco é normal.

9) Indicação de livro: Mecânica dos solos na prática da engenharia, de Karl von Terzaghi e Ralph B. Peck. No entanto, não existe apenas um livro ou autor, são dezenas de publicações e artigos.

10) Um mal da Engenharia Civil: O excesso de preocupação com o custo, que ocorre não só com a engenharia civil, mas com tudo.
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