Especialista afirma que, embora esteja em processo de difusão, o BIM ainda é pouco usado no país

ALIO ERNESTO KIMURA

Engenheiro civil formado em 1997 pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, é sócio-diretor da TQS Informática. Com atuação na área de desenvolvimento de softwares para cálculo de estruturas de concreto desde 1998, é autor do livro Informática Aplicada em Estruturas de Concreto Armado, pela Editora PINI. Além disso, é secretário da revisão das normas ABNT NBR 6.118:2014 e ABNT NBR 15.200:2012 e professor de cursos de pós-graduação com ênfase em estruturas. Nesta entrevista, Kimura fala sobre a atual situação do Building Information Modeling (BIM) no setor da construção civil, especialmente dentro dos escritórios de projeto de estruturas. Na opinião dele, a interferência do governo não é imprescindível para a disseminação da cultura de projeto baseada em BIM, mas a instabilidade da economia brasileira atrapalha o planejamento de médio e longo prazo. Com isso, o amadurecimento da tecnologia é retardado e, consequentemente, os benefícios da modelagem não podem ser amplamente percebidos por incorporadores, construtores, investidores e até mesmo projetistas. Outro efeito percebido por ele é o desequilíbrio entre os diversos atores do mercado no que diz respeito ao conhecimento acerca da tecnologia. Enquanto há empresas altamente evoluídas, com pesquisas avançadas em BIM, outras nem ao menos sabem o que a sigla significa.


O BIM para desenvolvimento de projetos estruturais já é realidade amplamente difundida no Brasil?
Creio que ainda não se pode fazer uma afirmação positiva para esta questão. Na média, o BIM ainda é muito pouco difundido no Brasil atualmente. Se considerarmos somente as empresas de um determinado porte dentro de um certo segmento da construção, a porcentagem do número de projetos estruturais desenvolvidos com o BIM se eleva. Mas, de um modo geral, considerando o Brasil como um todo, o BIM ainda é um assunto muito pouco difundido. Em nosso dia a dia aqui na empresa, por exemplo, é relativamente comum sermos indagados por colegas com o seguinte questionamento: “O que é esse tal de BIM?”.

Há um contraste muito evidente na difusão do conceito?
Na realidade, o que ocorre é que, de um lado, representando a minoria do país, temos engenheiros que estudam e conhecem o BIM com profundidade, assim como escritórios que investem na melhoria de seus processos a fim de otimizar a implantação do BIM. Do outro lado, representando a grande maioria do país, temos profissionais que já ouviram falar no assunto, mas que o ignoram, ou mesmo aqueles que desconhecem totalmente o que é o BIM. Apesar dessa desigualdade, contudo, é inegável que a difusão do BIM, de uma forma geral, levando em conta todas as áreas correlatas, evoluiu muito ao longo dos últimos anos no Brasil. O BIM deixou de ser uma teoria, uma promessa, uma utopia, e se tornou uma prática, uma realidade, um paradigma para o futuro próximo.

Como o senhor avalia o panorama atual do BIM para estruturas de concreto no Brasil? Considera que estamos em pé de igualdade com o restante do mundo?
Se considerarmos somente a minoria mais “antenada” ao tema, conforme colocado na resposta anterior, acho que estamos próximos ao restante do mundo. Agora, se consideramos o país como um todo, no que se refere ao volume total de estruturas projetadas com o uso efetivo do BIM, ficamos para trás. Em outros países, acredito que essa desigualdade também deve existir, mas em menor escala. É importante salientar que, no que se refere especificamente à tecnologia aplicada ao projeto de estruturas de concreto, e isso inclui as normas técnicas, os softwares, os materiais etc., o Brasil é um país que tem destaque em nível mundial. Por exemplo, somos o único país de América Latina que possui uma norma própria para projetos de estruturas de concreto – a ABNT NBR 6118 -, que recentemente foi aprovada pela ISO como norma internacional. Os softwares para cálculo de estruturas que predominam em nosso país, inclusive na aplicação do BIM, são, em grande parte, desenvolvidos ou adaptados exclusivamente para o Brasil. Ao contrário de outros países, não utilizamos as ferramentas genéricas difundidas mundialmente. Sem dúvida, essa é uma característica marcante daqui.

“Poucas empresas brasileiras estão preparadas para esta realidade construtiva em BIM. Porém, acredito que isso deva mudar no curto e médio prazo.”

O que falta para o BIM ser difundido completamente no Brasil?
Toda tecnologia disponível em nosso cotidiano evoluiu drasticamente ao longo dos últimos anos. O grande desafio é saber compreender esse avanço para poder fazer parte dele e usufruir de seus benefícios. A difusão de qualquer tecnologia demanda tempo, não acontece bruscamente. No caso do BIM, não é diferente, pois ele representa, sem sombra de dúvidas, um grande avanço tecnológico dentro da área da construção. A sua difusão está acontecendo paulatinamente, talvez agora numa velocidade menor do que a esperada, reflexo direto da estagnação econômica que vivenciamos. Mas, com o aguardado retorno dos investimentos, a tendência é que sua abrangência atinja patamares mais elevados.

Então o cenário atual não é, necessariamente, negativo?
Muita gente já entendeu o BIM e enxergou o seu potencial. Nunca encontrei uma pessoa que discorde frontalmente da proposta do BIM. O grande entrave para que ele seja aplicado por todos imediatamente, e com isso ser difundido de uma forma mais ampla no Brasil, é que isso demanda um amadurecimento inicial, uma quebra de inércia. O que se percebe é que tem muita gente ainda “tateando” o BIM. Aos poucos, os projetistas estão encontrando formas de aplicá-lo e, sobretudo, começando a perceber e usufruir de seus benefícios. A sua efetiva implantação, então, é questão de tempo. É importante salientar também que a difusão plena do BIM depende diretamente da percepção do corpo diretivo das empresas, que comumente é formado por pessoas bastante pragmáticas. Elas têm que se convencer que o BIM trará benefícios e, assim, criar um ambiente profissional propício ao seu desenvolvimento. Além disso, é necessário que os professores das universidades comecem a ensinar BIM na graduação, de tal forma a difundir o conhecimento à toda geração que está por vir.

O meio técnico tem qualificação para executar projetos em BIM?
Para a maioria dos profissionais atuantes no meio técnico, a resposta ainda é negativa. Mas é notório perceber que muitos têm se esforçado para estudar o assunto. Em grupos de discussão existentes na internet, por exemplo, é possível encontrar ricas trocas de ideias e experiências entre algumas pessoas que estão na vanguarda, já aplicando o BIM de forma prática e produtiva. E muitas outras, que apesar de ainda não usarem o BIM, já perceberam a sua importância e se preocupam em aprender como utilizá-lo, de tal forma a não ficar de fora do mercado num futuro próximo. O BIM não é um conceito simples nem tampouco a sua aplicação. É necessário agregar inteligência no desenvolvimento de projetos com BIM. A sua aplicação está longe de ser algo meramente operacional. Além dos aspectos técnicos envolvidos, a qualificação do meio técnico passa também por uma mudança de mentalidade.

O mercado brasileiro está preparado para uma realidade construtiva em BIM? Os incorporadores entendem que cada vez mais tempo terá de ser dedicado ao projeto para obter execuções mais eficientes?
De forma resumida, poucas empresas brasileiras estão preparadas para esta realidade construtiva em BIM. Porém, acredito que isso deva mudar no curto e médio prazo. Um bom projeto estrutural é a semente para a obtenção de uma estrutura segura e, ao mesmo tempo, econômica. O BIM, desde que aplicado de forma correta, potencializa enormemente essa condição, gerando impactos diretos no planejamento, na produtividade, no custo e na qualidade das obras. Percebo que algumas pessoas ainda duvidam um pouco dessa sua capacidade e ficam reticentes no momento de alterar processos tradicionais existentes na execução das obras, o que, de certa forma, é compreensível. Mas, a meu ver, isso tende a mudar. É fato que, para plena aplicação do BIM, é necessário mais tempo dedicado ao projeto. Ou seja, mais homens/hora precisam ser destinados à concepção e à análise estrutural. E isso tem um preço, sobretudo durante a fase inicial de implantação e aprendizado. Como disse e repito, a implantação do BIM está longe de ser algo puramente operacional.

Esses ciclos de crescimento seguidos de longos períodos de crise atrapalham o desenvolvimento e o amadurecimento do segmento de projetos?
Sim, com certeza. Infelizmente, nos últimos anos, presenciamos uma grande redução das equipes dos escritórios de projeto, muitas vezes chegando a uma redução de mais de 50% da equipe técnica, comparando com alguns poucos anos atrás. Com isso, todo um rol de profissionais que haviam sido treinados acabou ficando inativo ou mudou de área. É uma realidade muito triste. É uma perda muito grande. O desenvolvimento e o amadurecimento do segmento de projetos necessita de planejamento. E o Brasil, como todos sabem, infelizmente, é um país que não dá muita margem para quem planeja a médio e longo prazo.

As escolas brasileiras têm formado profissionais capazes de entender o BIM técnica e conceitualmente?
Como respondi na primeira questão, temos os dois extremos no Brasil atual. De um lado, há poucos centros de excelência com professores altamente qualificados e especializados no assunto, inclusive com pós-graduação em BIM. Do outro, uma grande maioria de escolas que ainda não tratam do tema. Então, de uma forma geral, levando em conta todos os profissionais que formamos anualmente no nosso imenso país, podemos afirmar que o Brasil ainda carece de uma melhor formação na área do BIM. Agora, não podemos esquecer e deixar de valorizar o enorme esforço que várias entidades relacionadas à construção civil têm realizado para difundir o BIM por aqui. Ao longo dos últimos anos, tivemos oportunidade de participar de eventos, assistir a palestras, ler artigos relacionados ao assunto. Hoje, no que se refere à prática de projetos, podemos afirmar que foram essas entidades as grandes responsáveis pela formação do BIM em nosso país.

Qual o futuro do BIM nos próximos anos no Brasil?
Atualmente, o uso do BIM na prática de projetos, na grande maioria das vezes, se reflete somente na detecção de interferências entre objetos ou mesmo apenas na simples visualização tridimensional do modelo. Mas, como todos sabem, o BIM não é apenas isso e vai muito além disso. Muito embora existam cases em que o uso do BIM avançou para a fase de planejamento chegando até a execução, esses casos ainda são pontos fora da curva. A tendência é que esse tipo de case se torne mais comum. Outro fator também importante é que a interoperabilidade entre os diversos softwares vai avançar.Quando o BIM surgiu no mercado, era notório que as bases de dados dos softwares, de um modo geral, não estavam preparadas para tratar as informações de forma adequada. Há alguns anos, por exemplo, uma modelagem com lajes nervuradas gerava uma grande ineficiência no processamento. Com o avanço dos hardwares, mas sobretudo dos softwares, esse problema foi bastante minimizado. A tendência é que o fluxo de informações entre os inúmeros softwares presentes no mercado se torne cada vez mais confiável, com menos perda de dados e mais produtivo.

Na prática, quais as consequências?
O nível de detalhamento das informações tende a crescer. Especificamente na área de projeto de estruturas de concreto, há alguns anos, somente a volumetria das principais peças (lajes, vigas, pilares) era tratada no BIM. Com o passar do tempo, mais dados foram incorporados de tal forma que, hoje em dia, podemos afirmar que, de ponto de vista geométrico, uma estrutura está sendo modelada quase que em sua plenitude. A tendência agora é passar a agregar outros tipos de atributo. No entanto, é importante salientar que, apesar de muito se valorizar o “I” do BIM, que é volumoso, é preciso ter ciência de que nada adiantará se as informações forem simplesmente “jogadas” no meio do processo. Elas, sim, precisam ser incorporadas de forma inteligente. No que se refere às estruturas, por exemplo, muito se discute a inclusão da geometria das armaduras ao modelo, o que ocasionaria um aumento gigantesco no volume de informações. Sem dúvida, é uma tendência, mas é preciso encontrar uma forma adequada para que isso seja implementado.

O governo pode estimular o amplo uso do BIM? De que maneira?
Sim. Atualmente, tem se afirmado que o uso do BIM pode gerar maior controle e transparência no planejamento e na execução de obras públicas, garantindo assim que as verbas destinadas a elas sejam aplicadas de forma adequada. Existem alguns exemplos, inclusive, de como o uso do BIM já se tornou um requisito contratual em obras do governo. E, isso, certamente, é algo que estimula o uso do BIM. Particularmente, acho que o estímulo do governo pode gerar grandes benefícios à população, ainda mais no Brasil, onde o desperdício de verbas em obras públicas é algo exorbitante. Porém, a formalização desse processo, isto é, de se obrigar contratualmente o uso do BIM, exige muito esmero e atenção. Transparência e idoneidade são características que deverão estar acima de tudo. Sob hipótese alguma, por exemplo, poderá ser caracterizado, mesmo que involuntariamente, algum tipo de tendência ao uso de um determinado tipo de plataforma. Enfim, o governo pode ajudar, mas é necessário cuidado.

O governo é imprescindível para isso?
É unanimidade que o governo, de um modo geral, tem deixado muito a desejar, sob todos os aspectos. Com toda sinceridade, acho que o BIM pode se desenvolver com ou sem o estímulo direto do governo. Se tiver o auxílio dele, melhor. Porém, há tantas outras deficiências em nosso país que eu acho que o governo tem que se focar nas prioridades básicas. Se o governo, por exemplo, conseguir retomar a confiança dos investidores e restabelecer o crescimento econômico que o Brasil teve alguns anos atrás, indiretamente estará estimulando o uso do BIM no país. Se o governo melhorar o nível de educação em nosso país, indiretamente também estará estimulando o BIM.

A pouca qualificação da mão de obra e a baixa industrialização dos canteiros prejudicam o desenvolvimento do BIM?
Sim, com certeza. A modelagem das informações, seja na fase de projeto dentro dos escritórios, seja na fase da execução dentro dos canteiros de obra, exige que os dados sejam manipulados por pessoas com competência para tal. Indivíduos que, muito além de saber manipular softwares, deverão ter absoluta ciência da importância de as informações serem definidas de forma correta e precisa. Imaginar que os softwares “fazem BIM” automaticamente é um grande erro. Softwares, por mais sofisticados que sejam, são e sempre serão apenas ferramentas auxiliares. O valor do trabalho humano está acima de tudo. Se engana muito quem pensa que a implantação do BIM é simplesmente uma adequação operacional. O uso do BIM envolve inteligência e discernimento na definição das informações, qualidades essas que só podem ser supridas por nossa mão de obra. Com o avanço do BIM, naturalmente haverá uma maior racionalização e industrialização de nossos canteiros.

Quais projetistas tendem a se beneficiar com o BIM?
O BIM exige que as informações de um projeto sejam manipuladas e organizadas dentro de certos padrões. As informações “burras”, isto é, aquelas desconectadas do modelo virtual, aquelas que ficam “perdidas” num desenho 2D, ou mesmo aquelas que são definidas num croqui expedito enviado para obra de última hora, passam a não ter mais qualquer valor dentro do BIM. Não pelo fato de essas informações estarem incorretas, mas sim porque elas ficam alheias ao contexto global da construção, impedem o seu uso inteligente, impossibilitam a rastreabilidade etc. Os projetistas que entenderem isso vão se beneficiar com o BIM. Em outras palavras, vão se beneficiar do BIM os projetistas que perceberem que as informações de seu projeto, além de estarem corretas de ponto de vista técnico – claro, isso é primordial e não deve ser afetado pelo BIM em hipótese alguma -, necessitam ser modeladas de tal forma que possam ser conectadas ao modelo virtual de maneira adequada.

Há maturidade suficiente no mercado para a adequada interação entre projetistas para compatibilização dos projetos conforme exige o BIM?
Ainda não. Ao longo de anos, tivemos uma prática de projetos bastante segmentada, muitas vezes sem qualquer interação entre os diferentes projetistas. A aplicação do BIM exige uma postura frontalmente oposta a essa. Isto é, implica um cenário onde todos os projetistas trabalhem em conjunto, sobretudo de forma colaborativa. E não é da noite para o dia que isso irá mudar. É bastante perceptível que cada área de projeto tem as suas devidas particularidades. Existem visões e valores distintos envolvidos. Cada área progrediu conforme suas próprias necessidades antes do BIM. A maturidade somente atingirá um nível adequado na medida em que cada projetista começar a entender e respeitar as necessidades dos outros projetistas. No fundo, todo projetista sempre soube que ele faz parte de um contexto global muito maior. Com o BIM, a visão de que o seu trabalho necessita estar alinhado com as demais áreas passa a ser um requisito primordial. Sem essa visão global e colaborativa, o projetista fatalmente estará à margem do mercado dentro de alguns anos.

Qual seria a condição ideal, na sua opinião, para a difusão do BIM nos escritórios de projeto de estruturas?
A difusão do BIM nada mais é do que uma grande globalização dentro da área da construção civil, da qual o projeto de estruturas faz parte. Os escritórios precisam deixar de lado a falsa impressão de que o BIM é apenas um modismo. Isso envolve uma mudança de mentalidade. No momento em que o projetista perceber que as informações de outras áreas podem ser úteis a ele, não somente como dados para resolver o seu próprio projeto, mas muito mais para poder desenvolvê-lo de forma mais adequada com a obra como um todo, gerando benefícios visíveis aos incorporadores, chegaremos a uma condição ideal para a difusão do BIM.

“O valor do trabalho humano está acima de tudo. Se engana muito quem pensa que a implantação do BIM é simplesmente uma adequação operacional.”

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