Veja como foi feita a demolição da estrutura abandonada há 20 anos e comprometida pela ação da maresia na cidade de Fortaleza

O estado da estrutura era bastante ruim, com risco real de colapso. Problemas com a qualidade do projeto original associados à ação da maresia e a intervenções arbitrárias ao longo de 20 anos deixaram as armaduras quase completamente expostas

Abandonada definitivamente há 20 anos, a estrutura de concreto conhecida como Favela Vertical, na esquina das ruas Desembargador Lauro Nogueira e Batista de Oliveira, no bairro Papicu, em Fortaleza, foi demolida. Com 12 pavimentos, o esqueleto estrutural do que foi concebido para ser um prédio residencial apresentava risco iminente de desabamento. ‘O problema é que a estrutura estava muito, mais muito deteriorada. Alguns pilares estavam até cortados ao meio e havia escadas que não podiam ser utilizadas’, lembra o engenheiro estruturalista responsável pela demolição, Marcelo Silveira, da MD Engenheiros Associados.

O estado da estrutura era bastante ruim, com risco real de colapso. Problemas com a qualidade do projeto original associados à ação da maresia e a intervenções arbitrárias ao longo de 20 anos deixaram as armaduras quase completamente expostas

Após a falência da construtora responsável pela construção, com consequente paralisação das obras e desmobilização do canteiro, em meados dos anos 1980, o local foi ocupado por cerca de 150 famílias. Somente em 1997 a prefeitura de Fortaleza retirou as famílias do terreno e demoliu as paredes que haviam sido construídas pelos moradores.

Desde então, numa região que não apresentava atratividade para o mercado imobiliário, o terreno com cerca de 2.500 m² foi cercado e a obra ficou à mercê das intempéries. E assim permaneceu por 20 anos, tempo suficiente para que a atmosfera de uma cidade litorânea comprometesse severa e definitivamente uma estrutura de concreto armado que, por si só, já apresentava problemas de concepção e desrespeito às normas, conforme afirma o engenheiro Marcelo Silveira. ‘Os comprimentos de armadura eram insuficientes e o concreto era muito poroso. Como a região sofre muita ação da maresia da Praia do Futuro, o estado da estrutura era assustador’, revela ele. ‘Não sei como um prédio naquela situação não tinha desmoronado ainda!’.

Demolição inevitável
A estrutura da chamada Favela Vertical ficou exposta por 20 anos, até que o terreno onde se encontra fosse adquirido por cerca de R$ 800/m², aproximadamente R$ 2 milhões. A transação foi amarrada a um projeto de construção de um empreendimento comercial, a ser executado futuramente pela Construtora Marte Ltda.

O interesse no terreno resulta de um movimento de valorização da região onde o esqueleto se encontrava. Um dos pontos de interesse para o bairro é o Hospital Geral de Fortaleza. Entretanto, ao mesmo tempo que ter o hospital em terreno vizinho valoriza o futuro empreendimento, foi o principal obstáculo à construção.

Com concreto poroso e cobertura insuficiente associados a fatores como a alta salinidade do ar litorâneo, o resultado foi oxidação severa para as armaduras da estrutura ao longo dos 20 anos de total abandono

Afinal, como a estrutura estava absolutamente condenada, a única solução técnica e financeiramente viável era a sua derrubada. Isto posto, a questão fundamental era: como demolir 2.220 m³ de concreto e aço sem gerar barulho e poeira, que comprometeriam a operação do hospital e a qualidade de vida de uma vizinhança bastante adensada.

Preliminarmente, foram consideradas duas possibilidades para a desconstrução do edifício. A primeira delas, a implosão tradicional, foi avaliada como inviável e, portanto, descartada. Para que fosse realizada com segurança, exigiria a evacuação de um perímetro adjacente ao prédio impraticável, com geração de um volume de poeira e de ruído absolutamente desproporcional à ocupação da região.

Restou, portanto, a segunda alternativa considerada: a demolição manual. Tal técnica consiste no uso de marteletes e marretas para a desmontagem da estrutura pavimento a pavimento, do topo até o térreo. Em geral, exceto por estratégias estruturais e procedimentos de segurança, a demolição manual não envolve complexidades técnicas. “Quando se tem uma estrutura sã, não há muita dificuldade na demolição. Ou implode ou corta os elementos. Escora-se alguma coisa, mas é relativamente simples”, ilustra Marcelo Silveira, engenheiro de estruturas da MD.

No entanto, a situação da estrutura a ser demolida era bastante peculiar. “O fato é que era um edifício que estava numa situação de ruína. Como demolir um pavimento se há o risco de dar um peteleco num pilar e ele desmoronar de vez?”, questiona Silveira. Até mesmo os acessos das equipes técnicas para avaliação preliminar das condições da estrutura foram cercados de receio. “Até para os trabalhadores acessarem era arriscado, com lajes com espessura menor do que a original”, lembra João Corvo, gerente da unidade regional da SH Fôrmas. Ele conta que com a segurança fornecida apenas pelos equipamentos de proteção individual (EPIs), as visitas técnicas prévias se limitaram aos dois primeiros pavimentos. Até mesmo porque as escadas se mostravam intransitáveis, faltando alguns trechos.

O temor de que houvesse um colapso progressivo com implosão não intencional fez com que a equipe técnica se aprofundasse em estudos para a demolição. “Passamos muito tempo na obra imaginando os diversos tipos de problema que poderiam ocorrer. Todos os possíveis acidentes que pudessem acontecer foram considerados”, assegura o engenheiro de estruturas.

Para dar estabilidade à deteriorada estrutura da Favela Vertical foram utilizadas 300 toneladas de escoramentos metálicos tubulares da SH. Em valores, representa certa de R$ 3 milhões. Por isso, houve preocupação adicional com a integridade dos elementos, o que levou ao uso de pranchões metálicos sob as lajes demolidas

Escoramento invertido
Em edifícios em construção é comum ver os últimos pavimentos repletos de escoramentos metálicos suportando a estrutura enquanto o concreto não ganha em resistência. Se a solução para estruturas que não suportam sequer a própria carga é o escoramento, por que não adotar a mesma solução para estruturas sob risco de colapso?

Afinal, conforme pontuou Silveira, em demolições de estruturas sãs é usual escorar alguns elementos em situações específicas. A diferença é que, no caso da Favela Vertical, elementos estruturais em boas condições eram exceção. Assim sendo, todos os andares do esqueleto receberam escoramento com estrutura tubular fornecida pela SH Fôrmas.

Antes da montagem das estruturas de suporte, no entanto, era preciso assegurar a correta distribuição das cargas no solo, que se apresentava bem compactado e com boa capacidade de carga. Isso foi feito por meio da concretagem de uma espécie de radier no térreo, aproveitando o piso de concreto preexistente, que de acordo com Silveira, apresentava-se em bom estado. “Fizemos a regularização do piso que já existia lá com uso de concreto simples, porém mais denso”, explica.

Demolição técnica
A etapa preliminar de estudos determinou as cargas incidentes sobre o térreo e que deveriam ser neutralizadas pela ação das escoras. Foi nesse momento que a equipe técnica da SH Fôrmas entrou em ação efetiva, conforme conta a engenheira Márcia Albuquerque, supervisora de projetos da SH. “Foi executado um projeto de reescoramento, conforme as cargas informadas pelo engenheiro estruturalista, que respeitou as características do edifício”, diz. Assim, o dimensionamento considerou que o primeiro pavimento suportava a carga de todo o edifício. Da mesma maneira, pavimento a pavimento, à medida que o reescoramento subia, as cargas atuantes na estrutura tubular eram reduzidas. “Foram utilizadas torres de carga LTT, perfis metálicos, escoras e tubos”, explica.

Para a concepção das estruturas tubulares, a SH considerou a lógica de atuação das estruturas de concreto, conforme ilustra Albuquerque: “Numa situação normal, as lajes jogam as cargas para as vigas, que jogam para os pilares. Para dimensionar o escoramento, jogamos as cargas das lajes de cima até embaixo a fim de aliviar a carga das vigas e dos pilares. Tudo verticalmente para o solo”. O caráter inusitado da obra ampliou ainda mais o desafio. “Quando dimensionamos o escoramento para um prédio em construção, só consideramos a carga do pavimento que está sendo escorado. À medida que os andares são concretados, vão adquirindo resistência e alguma capacidade de carga. Então tenho um escorado e três para baixo reescorados, no máximo”, compara Albuquerque.

Sem a possibilidade de implodir nem de levar grandes equipamentos para auxiliar no processo de demolição, todo o trabalho de desmonte da estrutura de concreto foi feito com o uso de equipamentos manuais

No caso da Favela Vertical de Fortaleza, não havia esse tipo de referência, com a qual pautar o dimensionamento. “Não é muito corriqueiro. É bem esporádico. Fazemos poucas obras desse perfil. Diria que menos de 1% dos nossos contratos. Primeiro, porque ainda é raro no Brasil demolir prédios. A maioria das construções aqui ainda é nova. Depois, porque a metodologia nem sempre envolve escorar o prédio. Este caso foi bem atípico”, pontua Corvo, da SH Fôrmas.

O dimensionamento da estrutura tubular de escoramento foi feito considerando as cargas somadas de todos os pavimentos. Conforme a demolição avançava, de cima para baixo, a quantidade de material diminuía. Consequentemente, as cargas também diminuíam. Logo, em teoria seria possível reduzir a quantidade de escoramentos dos pavimentos inferiores, conforme o peso fosse aliviado com a demolição.

Entretanto, isso não foi feito, de acordo com o que conta Albuquerque: “O prazo previsto para a conclusão da obra fez com que não compensasse fazer essas remoções”. Essa decisão foi influenciada também pelas características dos serviços realizados e da mão de obra disponível. Como não havia complexidades nos trabalhos envolvidos – montar estruturas metálicas tubulares, desmontar as peças de concreto e desmontar as estruturas -, a equipe de operários foi a mesma do início ao fim da obra. Bastou um treinamento de segurança para que estivessem aptos ao trabalho. Portanto, não compensava deslocar continuamente as frentes de trabalho de uma atividade para a outra. Além disso, “teríamos de ficar o tempo todo recalculando para ver quanto poderia ser retirado”, lembra Albuquerque.

O acesso aos pavimentos onde ocorriam os trabalhos de demolição foi feito por escada modulada metálica, montada ao lado da estrutura de concreto. As escadas do próprio edifício não apresentavam condições de uso

O projeto inicial de escoramento não foi concluído antes de ser iniciada a montagem da estrutura. Como os engenheiros não puderam visitar todos os pavimentos, adequações ao projeto foram feitas ao longo da montagem. “As escadas estavam todas avariadas. Inspecionamos os primeiros pavimentos e depois fomos mudando”, lembra Corvo. À medida que as interferências eram identificadas, o projeto era modificado. “O piso estava deteriorado, algumas vigas não existiam mais, os pilares estavam desconfigurados”, conta.

Quando, por fim, o esqueleto abandonado estava todo escorado, o edifício foi envelopado. E essa etapa também gerou uma preocupação adicional. Afinal, até então o vento podia passar livremente através do esqueleto, sem incidência significativa de cargas adicionais. Com a tela de proteção, instalada para evitar a projeção de materiais para além dos limites da área de trabalho, foi criada uma superfície para a ação do vento sobre a estrutura. “Tivemos de fazer contraventamento nas escoras para suportar essa carga”, revela Silveira.

Por fim, começaram os trabalhos de demolição. Silveira determinou que a desmontagem fosse feita do centro da estrutura para a periferia. O motivo para isso, explica ele, é evitar o desequilíbrio estrutural. Ao remover os elementos centrais, a tendência era que a estrutura desestabilizasse de fora para dentro, onde havia maior concentração de escoras. “Se ocorresse de dentro para fora, havia o receio de que as escoras periféricas não suportassem as cargas adicionais”, explica o engenheiro de estruturas. Nessa ordem, foram demolidas as lajes desde o centro até os apoios, depois as vigas, sempre do centro para as extremidades e, por último, os pilares.

O entulho gerado foi removido dos andares por meio de dutos verticais de PVC. Atualmente, o terreno encontra-se limpo e pronto para o início das obras do empreendimento comercial.

FICHA TÉCNICA

 

Favela Vertical
Localização Fortaleza (CE)
Pavimentos 12
Volume de entulho gerado 2.220 m³
Área dos pavimentos 424 m²
Área total da estrutura 5.088 m²
Área do terreno 2.500 m²
Quantidade de escoramento utilizada 300 toneladas
Valor dos equipamentos utilizados R$ 3 milhões
Prazo da demolição 8 meses
Execução Construtora Marte Ltda.
Serviços de demolição CGB Engenharia
Fornecedora do escoramentos SH Fôrmas

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