Para Frederico Falconi, segmento brasileiro de fundações padece de falta de projetos

FREDERICO FALCONI

Há mais de 35 anos atuando no segmento de fundações e geotecnia, Frederico Falconi é um dos sócios da ZF Solos & Engenheiros Associados. Ele se formou na faculdade de engenharia civil da Universidade Mackenzie, em 1978, e é membro do Deep Foundation Institute (DFI), além de ter sido presidente do Núcleo Regional da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS), de 1999 a 2000. Falconi, uma das principais referências nacionais em solos e fundações complexas, também atuou na comissão de revisão da NBR 6.122 – Projeto e Execução de Fundações, de 2010, além de ter participado da revisão da NBR 8.044/96 – Projetos Geotécnicos. Ele colaborou com uma das principais obras de referência literária no segmento: Fundações – Teoria e Prática.

Alguns dos equipamentos e tecnologias mais modernos que há no segmento de fundações, geotecnia e tratamento de solos em todo o mundo podem ser encontrados em território brasileiro. Mais do que isso, em excelente estado de conservação e disponíveis para ser locados imediatamente. Esse panorama, que poderia ser animador, é, na verdade, de se lamentar. Isso porque tais equipamentos foram importados nos últimos suspiros de crescimento econômico, até meados de 2012, e com a crise que se instalou no país em seguida foram pouquíssimos ou nada utilizados, conforme avalia o especialista em fundações e geotecnia Frederico Falconi. De acordo com ele, além de equipamentos de última geração, o mercado nacional também está bem servido conceitualmente, com profissionais atualizados com o que há de mais novo em termos de desenvolvimento de projeto. Os bons profissionais do segmento de fundações, afirma ele, estão até mesmo preparados para desenvolver e acompanhar projetos desenvolvidos em BIM. O que está faltando, mais uma vez, é apenas um momento mais favorável de mercado para que a tecnologia e os conceitos se consolidem de vez no setor construtivo brasileiro. Nesta entrevista, Falconi fala sobre projeto, tecnologia e também sobre a formação do profissional de engenharia de uma maneira geral.

Quais são as principais novidades no segmento de fundações?
As principais novidades são equipamentos maiores e mais potentes. Com eles, conseguimos atingir profundidades extensas, com maiores velocidade e diâmetro. Consequentemente, conseguimos obter maior desempenho das fundações em razão desses equipamentos com capacidade mais elevada.

Há novidades em termos de projeto?
Conceitualmente, não há grandes novidades. O que existe não está maduro. Particularmente, eu acredito muito na parte de tratamento de solos. Embora ainda seja algo muito incipiente, em breve poderemos ver uma utilização mais ampla nessa área.

“A universidade peca quanto à especialização. O último ano da graduação poderia ser voltado à especialização na área em que o aluno mais se mostra inclinado a desenvolver.”

O que é tratamento de solo?
Há terrenos em que, abaixo do solo mole superficial, há um solo mais competente. Então, trata-se o solo mole para que não ocorram recalques e, assim, seja possível fazer uma fundação mais simples e não tão profunda. Isso é especialmente útil em locais onde há, por exemplo, um grande aterro numa área de solo mole. Em casos desse tipo é possível fazer uma combinação de técnicas para tratamento de solo, com uso de estacas de brita, de areia, jet grouting, stabtec, além de outros recursos que permitem reforçar o solo mole e reduzir bastante os recalques.

O que há de novo nessa área?
Essas técnicas já existem há algum tempo, mas ainda são poucas as empresas que as executam. Por enquanto, têm sido usadas apenas em casos bastante especiais, por exemplo, para áreas industriais e obras de infraestrutura. Isso porque, para a área predial, as técnicas se mostram inadequadas devido ao custo elevado de sua aplicação em áreas restritas ou pequenas. Então, acabam servindo mais para grandes obras rodoviárias ou industriais, portuárias, especialmente aquelas que envolvem grandes aterros sobre solos moles.

Ainda hoje há novos equipamentos chegando ao Brasil?
Não, os equipamentos disponíveis chegaram antes da crise e foram pouco utilizados. Atualmente, acredito que ninguém vai investir, pois o mercado está absolutamente recessivo. Os empresários vão esperar uma melhor oportunidade.

Mas estamos muito desatualizados com relação ao que existe no exterior?
Não, porque no último bom momento que ocorreu, com a economia em crescimento, o Brasil e também as empresas de execução fizeram grandes investimentos e trouxeram o que havia de mais moderno para o que se aplica à nossa realidade. Então, independente de ter mais ou menos equipamentos, estamos bem atualizados. Além disso, a engenharia nacional, especialmente a engenharia de fundações, tem o diferencial bastante expressivo de ser extremamente competitiva e criativa. Às vezes, substituímos equipamentos por uma engenhosidade grande dos profissionais que temos. Isso é louvável.

Nesse contexto, como anda a formação dos profissionais de projeto de fundações?
A universidade dá o conhecimento genérico básico para todas as áreas – estruturas, fundações ou qualquer outra área. Depois o profissional aprende na prática, estudando como atuar naquele campo que ele escolheu para seguir. A universidade não proporciona o preparo ideal para nenhuma área em específico, mas dá a base de sustentação para todas as atividades. É dentro das empresas que o engenheiro recém-formado começa a aprender os aspectos práticos e profissionais. Ainda assim, ele tem que continuar estudando.

O senhor considera o modelo adequado?
Na minha visão, a universidade peca quanto à especialização. O último ano da graduação poderia ser voltado à especialização na área em que o aluno mais se mostra inclinado a desenvolver. Assim, quem se interessa em fazer fundações teria um ano para estudar especificamente esse tema. O problema é que a escolha ocorre numa idade em que o aluno ainda não tem certeza de nada, por volta de 20, 21 anos. Por isso, ele deveria ter a possibilidade de escolher a área, ir trabalhar e depois voltar à universidade se não se gostou da área que escolheu, para fazer um ano adicional em outra com a qual mais se identificou. No modelo atual, o profissional se forma com 22 anos e vai trabalhar mais 50 anos em algo que ele não conhecia direito quando optou. Em minha opinião, deveria haver a possibilidade de voltar à faculdade para completar a formação e refinar a escolha. Seria bom para as empresas também.

Em que sentido seria bom para as empresas?
No sentido de que as empresas terão profissionais mais identificados e focados com o tema objeto de seu interesse e de seu estudo mais específico. O trabalho deve fluir mais facilmente e o aprendizado, mais rapidamente.

Como o BIM tem sido incorporado nos escritórios de projeto de fundações?
É uma tecnologia que veio para ficar e, em breve, todo mundo vai ter que fazer modelagem em BIM. Isso não significa, necessariamente, fazer o projeto em 3D. O BIM pode ser uma ferramenta de acompanhamento, análise e desenvolvimento da obra como um todo. Nós, de fundações, vamos fazer o desenvolvimento em BIM para fornecer dados e subsídios para as construtoras executarem as obras de uma maneira melhor.

Na prática, como funciona?
É uma ferramenta de planejamento e execução, é extremamente importante e tem que ser integrada ao dia a dia da construção. Muitas construtoras já têm o BIM como padrão e o inserem num contexto que facilita todo o trabalho das empresas envolvidas. O BIM é uma ferramenta extremamente poderosa e não pode ser entendido apenas como ferramenta de desenho, mas também de projeto, execução, orçamento, cronograma. É fantástico, é inexorável e todos deverão usá-lo em breve. É uma evolução, um avanço como foi o caminho da prancheta para o CAD.

A tecnologia BIM já está plenamente difundida no mercado?
É preciso mais treinamento. Nós já fazemos os projetos em BIM, mas não todos. Como ainda não há domínio total da tecnologia, o desenvolvimento demanda muito mais tempo. Afinal, como permite enxergar o modelo a partir de todas as formas, requer muito mais atenção, com uma elaboração mais complicada também. Ou seja, é preciso que as empresas de projeto invistam mais em treinamento e na aquisição dos sistemas e na criação de bibliotecas. Isso acarreta um investimento financeiro elevado, não muito adequado ao momento atual.

De alguma maneira o BIM influencia a matriz de decisão de projetos?
Ele talvez faça enxergar melhor determinados pontos, mas a decisão é sempre técnica. No caso das fundações, uma associação das cargas do solo, do perfil do subsolo e da metodologia executiva. Em alguns detalhes ele ajuda, com certeza, mas não na tomada de decisão em si. E auxilia muito em mostrar ao cliente que a decisão tomada é a mais acertada sob os mais variados aspectos.

Quais desafios os terrenos confinados, cada vez mais comuns nos grandes centros, trazem para o projeto de fundações?
Os maiores desafios são as contenções. Por vezes, escava-se abaixo das fundações de edifícios lindeiros 6, 9 e até 12 m. Há alguns métodos para lidar com situações como essa. Pode-se, por exemplo, fazer uma construção totalmente invertida, em que toda a fundação é feita de cima e a escavação vai avançando posteriormente sob as lajes, mas é demorado e oneroso. Atualmente utilizam-se cada vez mais tirantes em situações como essa. A contenção pode ser em perfis metálicos ou paredes-diafragmas, mas os tirantes permitem atingir o fundo da escavação. Pode-se executar as fundações em fase intermediária da escavação ou no final, dependendo do tipo que será empregado. Então, não há nenhum problema relacionado a esse tipo de obra. É necessário apenas ter um pouco mais de cuidado com a execução e o controle rigoroso de deslocamentos e recalques de vizinhos.

“Nós já fazemos os projetos em BIM, mas não todos. Como ainda não há domínio total da tecnologia, o desenvolvimento demanda muito mais tempo.”

Quais são os principais problemas que o senhor tem observado em relação à contratação de projetos de fundação?
A contratação de serviços técnicos é muitas vezes feita por profissionais que contratam todos os insumos de uma obra. Isso significa que se contrata da mesma forma que produtos industriais rigorosamente especificados. Às vezes não se leva em conta capacitação, formação, atendimento, conhecimento, experiência etc., tratando o projeto de fundações como commodity.

Como está o mercado de fundações atualmente? Tem se aquecido?
O mercado não está bom. O volume de obras diminuiu. Sempre que o país entra em recessão somos os primeiros a sentir os reflexos, e isso já faz parte do processo. É lamentável que essa situação ocorra. Quando se esperava um crescimento sustentável, acompanhamos o que de pior aconteceu no Brasil. Já vivenciei muitas crises, mas nenhuma como essa. Moral, política e econômica. Acho que o Brasil supera, como sempre superou, mas agora está mais difícil. Houve uma destruição de empresas como nunca se viu neste país, neste segmento. Estamos esperando uma recuperação. Sente-se um pouco a melhora, mas os volumes ainda são muito pequenos. Embora haja movimento do mercado, com alguns investimentos, nem de longe se percebe o mesmo vigor de antes. É mais pontual, mais focado. Os investidores pensam bastante antes de fazer qualquer tipo de investimento, seja na área imobiliária, seja na industrial, pois o risco é muito grande.

“Embora haja movimento do mercado, com alguns investimentos, nem de longe se percebe o mesmo vigor de antes. É mais pontual, mais focado. Os investidores pensam bastante antes de fazer qualquer tipo de investimento, seja na área imobiliária, seja na industrial, pois o risco é muito grande.”

Podemos dizer que há benefícios oriundos da recessão para a qualidade dos projetos?
A qualidade dos projetos independe completamente da quantidade, do volume de trabalho. É preciso manter a qualidade mesmo com bastante demanda. De qualquer maneira, acredito que temos uma boa qualidade de projetos no Brasil. Até em razão de todas as informações, do conhecimento adquirido em obras maiores, mais estruturadas, com mais investigação. Isso tende a tornar os projetos melhores com o passar do tempo.

De que maneira a experiência adquirida em projetos anteriores é disseminada nos trabalhos futuros?
Toda experiência adquirida é transmitida e discutida com os profissionais do nosso escritório, com o objetivo de dividir conhecimento. Fazemos reuniões periódicas para falar sobre aspectos relevantes de projetos e de execução de obras. Novas técnicas e tecnologias são apresentadas por profissionais e professores que dividem conosco experiência e conhecimento.

É algo que fica restrito à empresa ou a informação acaba sendo difundida pelo mercado como um todo?
De forma mais ampla apresentamos nosso conhecimento em artigos para congressos, seminários e eventualmente palestras sobre temas específicos. Posso destacar a obra da Natura, sobre a qual foi elaborado um livro que mostra a experiência acumulada sobre solo cárstico na região de Cajamar [São Paulo] e a utilização de martelos hidráulicos e martelos vibratórios na região de Santos [São Paulo], bem como a execução de prova de carga estática instrumentada em profundidade, entre outros procedimentos.

“É preciso manter a qualidade mesmo com bastante demanda. De qualquer maneira, acredito que temos uma boa qualidade de projetos no Brasil. Até em razão de todas as informações, do conhecimento adquirido em obras maiores, mais estruturadas, com mais investigação.”

Temos bons mecanismos de atualização no mercado brasileiro de projetos de fundações?
Sem dúvida que sim. Há os congressos brasileiros e internacionais da ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica) e da International Society for Soil Mechanics and Geotechnical Engineering, onde é possível atualizar-se sobre novas teorias e novos conhecimentos adquiridos. Além disso, uma cooperação entre a Abef (Associação Brasileira de Empresas de Engenharia de Fundações e Geotecnia) e o Deep Foundations Institute faz com que as tecnologias existentes no mundo inteiro, de empresas multinacionais de fundações, sejam divididas com as companhias brasileiras. A participação de engenheiros de fundações brasileiros em eventos internacionais também facilita o intercâmbio de ideias e técnicas.

Por: Bruno Loturco

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